


Ttulo: O cavaleiro misterioso
Autor: Gwyneth Moore
Ttulo original: The dirty frog
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1991
Publio original: 1990
Gnero: Romance histrico
Digitalizao e correo: Nina
Estado da Obra: Corrigida

Valentina Ashford no podia acreditar! Amava aquele homem selvagem e imprevisvel. Amava loucamente Charles de Michel, no importava o que ele tivesse feito, que
fosse francs e o acusassem de trair a Inglaterra. Ao fitar aqueles olhos negros, profundos, teve certeza de que ele tambm a amava. Com o corao sangrando ao v-lo
ferido, humilhado e preso, Valentina jurou esperar por Charles e no vacilou, mesmo quando lhe disseram que ele havia morrido!


       CAPTULO I

       Herefordshire, Inglaterra Vero, 1813

       - No gosto do senhor! Para ser mais clara, eu o abomino, sir!
       A sra. Valentina Ashford pronunciou essas palavras num tom de profundo desprezo. Os grandes olhos de um castanho-claro demonstravam ira e, conforme ela se 
inclinou para a frente, o sol do incio da tarde colocou reflexos de ouro nos longos cachos de cabelos aloirados.
       - E tem mais! - continuou ela, zangada. - Agredir uma lady, na perna, faz-me acreditar que o senhor no  um cavalheiro!
       O agressor a quem ela se dirigia com tanta severidade encarava-a com olhos arregalados. Ento soltou um vibrante som spero que no demonstrava o menor arrependimento 
e esfregou os ps na terra, um aps o outro, algumas vezes.
       Miss Ashford olhou ao redor. No havia nenhum sinal de mais algum nas proximidades da propriedade abandonada. Ento, ela ergueu a barra da saia de musselina, 
de um rseo primaveril, e examinou a perna machucada. Tratava-se de uma perna muito bem-feita, bonita, assim como seu corpo, esguio e gracioso.
       Valentina j havia atingido a espantosa idade de vinte e um anos sem conseguir um marido, no entanto sua beleza havia despertado a ateno de muitos cavalheiros, 
em Londres. E era amplamente sabido que ela teria contrado um excelente casamento, h alguns anos, se no fosse a profunda devoo que dedicava  famlia, que lhe 
roubara o tempo necessrio para dedicar s frivolidades exigidas pela corte londrina durante as concorridas temporadas. Tal fato era comentado com tristeza por vrios 
suspirosos cavalheiros, que lamentavam a ausncia da linda e gentil senhorita. J as ladies, menos inclinadas a hipocrisias, pelo menos em circunstncias como essa, 
comentavam animadas que na certa a srta. Ashford iria fazer um
       grande sucesso se no fosse o caso de seu precipitado pai ter morrido de ataque cardaco no inverno de 1811; ataque esse motivado pelo angustiante fato de 
ter perdido, numa s desastrada noitada de jogo, o restante de sua j bem dilapidada fortuna.
       - Vai ficar roxo, seu estpido! - exclamou a jovem, mais zangada ainda, e com razo em ambas afirmaes. - E ainda bem que voc no rasgou a renda da minha 
melhor cala - observou, ajeitando o elstico que ajustava a perna da cala pouco acima do joelho...
       O galo enorme, continuando a fit-la com o olhar burro dos olhos redondos e muito juntos, soltou outro som rascante, virou-lhe as costas e foi embora, com 
seu andar altivo, orgulhoso.
       - Seu devasso atrevido! - gritou-lhe Valentina.
       Ento, sentiu um sobressalto ao ouvir passos atrs dela. Voltou-se e a apreenso assustada deu lugar ao alvio. Seu novo companheiro no seria mais falante 
do que o anterior, no entanto parecia ser mais bem-humorado. Um burrico, cinzento, pequeno, com uma das orelhas apenas meio erguida, cumprimentou-a com um meneio 
de cabea e aceitou de bom grado as carcias da moa.
       - Oh, coitadinho! Voc  coxo - disse ela, penalizada, deixando o xale que trazia nos ombros escorregar at a altura dos cotovelos. - De qualquer maneira, 
tenho certeza de que  mais simptico e cuidadoso do que seu proprietrio.
       O burrico fitou-a com os olhos meigos, como quem pede desculpa, depois balanou a cauda e bufou, como se estivesse rindo.
       - No ache engraado!  exatamente o que penso - confirmou Valentina. - No vim aqui esperando encontrar um palcio, compreende? Mas s h uma palavra para 
descrever o estado desta propriedade:  deplorvel! Basta olhar o estado daquela estrebaria horrorosa... No sei se notou, mas ela est despencando, meu senhor!
        medida que falava com o burrico, que a fitava com ar profundamente filosfico, a senhorita ia se animando cada vez mais.
       - E a casa, ento! - prosseguiu, voltando os lindos olhos castanhos para a imponente manso estilo Tudor, que se erguia a certa distncia. Comprimiu os lbios, 
com expresso reprovadora --Aquele madeiramento  esplndido... ou melhor dito, era esplndido! Olhe-o agora. Est tudo vindo abaixo! A pintura est uma tristeza, 
toda descascada! As chamins inclinam-se em audacioso desafio a ei da gravidade! E, veja, janelas ainda com vidros so excees Wyenott Towers! Que nome pomposo, 
no? Pobre manso Sorsena derruba-la e comear tudo de novo. E os jardins, ento''    Onde i se viu tanto mato junto?  uma vergonha deixar uma propriedade to 
linda nesse abandono. O dono, sr. chame-se-l-como-for, nao tem o menor carinho por ela! Nem por voc, pobre burrico de quem tambm no sei o nome. Ele no cuida 
de voc, o que se nota pela sua perna, pobrezinho!
       - O nome dele  FitzMoke - disse uma voz glida, atras dela. _ E o burrico est manco porque todas as manhs eu o amarro com uma corrente e o arrasto pelos 
campos, para que faa exerccio e aprenda a ser disciplinado. E, desde que minha casa, meus jardins, meus animais no so do seu agrado, terei o maior prazer em 
acompanh-la at a sua carruagem para que v embora o mais depressa possvel deste lugar horroroso, minha cara senhorita.
       Com o corao aos pulos dentro do peito, Valentina voltou-se e observou o homem que chegara silenciosamente e a media com os olhos, de alto a baixo.
       Os cabelos dele, desalinhados, eram negros; o rosto, bem barbeado, exibia lbios bem desenhados, largos, porm com expresso amarga; o nariz era bem-feito, 
aquilino, e o queixo quadrado, firme. A nica caracterstica que amenizava o conjunto, pensou ela, eram os olhos escuros, quase pretos, que naquele momento fitavam-na 
com expresso de evidente desgosto. Ele era alto, de constituio forte, ombros largos, cintura e quadris enxutos, pernas longas e musculosas. Usava roupa de montar 
e botas de cano alto, cinzentas. A gravata tinha o n malfeito e sua aparncia geral denotava pouco-caso com a moda, demonstrando, no entanto, de alguma maneira 
indefinida, uma sbria distino.
       Ento, concluiu a srta. Valentina, aquele era Charles de Michel, filho nico da meia-irm do pai dela, ou seja, de tia Ruth e seu marido francs, o falecido 
Henri de Michel.
       Embora Charles de Michel tivesse apenas vinte e oito anos, sua reputao era bastante sinistra. Estando comprometido com uma senhorita da nobreza, o casamento 
praticamente marcado, ele fugira com a esposa de um vizinho e, depois, batera-se em duelo com o pobre homem, ferindo-o gravemente com um tiro. E, claro, nem seria 
preciso diz-lo, o compromisso com a senhorita foi rompido e ela, lady Agatha era seu nome, casara-se com um visconde, homem mais velho, portanto presumivelmente 
mais sbio e acomodado. E fora uma sorte para a jovem lady, pois dizia-se que Michel era partidrio de Napoleo Bonaparte...
       "Ele faz jus  reputao que tem", pensou Valentina. Ento, percebeu que as grossas e negras sobrancelhas dele achavam-se franzidas, em sinal de reprovao, 
e apressou-se a estender-lhe a mo, cumprimentando:
       - Como vai... primo?
       Ele pegou a mo pequenina com os grandes dedos morenos pelo sol e disse, sem nenhuma suavidade:
       - Ento, quer dizer que a senhorita reconhece nossa ligao familiar? - Seus lbios crisparam-se, demonstrando desdm. - Por favor, seja breve. No tenho 
tempo a perder.
       Que grosseiro!, pensou Valentina, e sentou-se em um banco de madeira meio apodrecido, embaixo de uma enorme rvore:
       - Ainda bem que escrevi antes de vir, primo Charles! Sabe quem eu sou, no?
       - Sei, mas no porque tenhamos nos visto at agora... apesar de termos voltado h bastante tempo para c. Mas deu para eu perceber que a senhorita  Valentina, 
a filha mais velha do meio-irmo de minha me... o tio John, que numa absoluta falta de juzo perdeu todo seu dinheiro em mesas de jogo, deixando a famlia  mngua!
       Os olhos de Valentina brilharam perigosamente, ela abriu a boca para falar, mas pareceu conter-se e tornou a fech-la. Achando aquilo divertido e o demonstrando, 
o sr. Charles de Michel continuou:
       - Vamos l! No morda a lngua por minha causa! Tenho certeza de que sabe de minha pssima reputao, mas no h perigo: no costumo atacar mulheres... pelo 
menos, no no primeiro encontro.
       A jovem havia cruzado as mos sobre o colo e olhava para ele, parecendo incrivelmente pequena, indefesa e triste. E, tambm, muito adorvel. Ele tinha ouvido 
algum dizer que sua prima podia competir com as maiores belezas da corte e era verdade.
       - Posso ter permisso para sentar-me a seu lado... - indagou ele, com ar irnico -, minha cara prima?
       - Oh, sim! Por favor.
       E o gesto que acompanhou essas palavras foi to majestoso que provocou um brilho de diverso nos olhos escuros, que se tornaram bem mais simpticos. Ele sentou-se 
na outra extremidade do banco, bem distante dela.
       - Est com ideias de vir morar aqui por perto? - perguntou, com ar displicente.
       - Pelo que o senhor disse, compreendi que nos censura pelo fato de no virmos cumpriment-los quando chegaram da Itlia. Isso aconteceu apenas por falta de 
tempo, por isso mandei-lhe aquele bilhete, decidida a vir aqui na primeira oportunidade. Meu querido pai orgulhava-se muito da irm, sempre nos contava sobre a perigosa 
fuga que vocs empreenderam do Terror. Antes de se mudarem nara Roma, tia Ruth frequentava a nossa casa e... __ Frequentava, mesmo? - Havia surpresa no rosto do 
cavalheiro.        .    '    .
       _- Sim. Naquela poca eu estava no colgio e nao a vi, mas papai me contou. - Fez uma pausa, depois: - Quanto aos negcios que me trazem aqui...
       - No trato de negcios com mulheres, srta. Valentina - cortou ele- _ Se no me engano, tem um irmo.
       Ela sorriu com suavidade e, ignorando as palavras dele, continuou:
       - Meu irmo mais velho, Lincoln, est com vinte e cinco anos e  tenente do Exrcito. Est lutando na linha de frente. Confesso que isso me aflige muito... 
mas tenho esperanas de que ele regresse com vida, primo.
       - Bem... - fez ele, sombrio, sem saber o que dizer.
       - Meu irmo Leslie  mais jovem, tem s dezenove anos. Esteve em Rugby e est ansioso por se tornar alferes da Marinha.  muito desassossegado, seu sonho 
 viajar pelo mundo.
       - Creio que... - comeou o sr. De Michel, ainda sombrio.
       - Alm dos dois, tenho uma irm, Sidonie. Ela fez dezessete anos h pouco tempo,  a beleza da famlia e...
       - Naturalmente vocs pretendem apresent-la  sociedade - interrompeu ele, com um sorriso de mofa. - Claro, com um vestido apropriado para as elegantes festas 
da Corte, alm de...
       - Por no haver mais ningum que pudesse fazer isto - interrompeu-o Valentina, com a voz um tantinho mais elevada -, vim procur-lo, pois preciso exercer 
meus direitos de co-proprietria de Wyenott Towers.
       O sorriso irnico desapareceu no mesmo instante dos lbios de Charles de Michel, deixando-os apenas com a expresso amarga. Seu queixo caiu um pouco, mas 
ele tratou de se recompor.
       - O qu? Co-proprietria? - indagou, entre perplexo e zangado. - Miss Ashford, tenho impresso de que est havendo um engano... Meu Deus, sim! H um enorme 
engano!
       "Que gnio mais difcil e agressivo o desse homem", pensou ela, sentindo um certo medo ao perceber que a zanga do primo crescia, ameaando beirar a fria. 
At o burrico se afastara, sentindo o nervosismo que pairava no ar. Procurando aparentar calma, ela pegou um mao de papis da bolsa, escolheu um e entregou ao primo.
       Charles de Michel demonstrou surpresa ao reconhecer a letra de sua me. Surpresa essa que aumentou quando leu o que ela escrevera:
       Como garantia de um emprstimo de seis mil libras, feito a mim por meu irmo John Renton Ashford, entrego a ele metade da minha propriedade Wyenott Towers, 
localizada ao norte de Leomins-ter, em Herefordshire.
       Ass. Ruth Gatesford de Michel Londres, 23 de setembro de 1808
       O papel tremia nas mos do sr. De Michel e, num gesto rpido, Valentina pegou-o de volta. A expresso do rosto daquele homem era a de um assassino! Quando 
falou, a voz mal saa pela garganta apertada de tanta fria.
       - Isto no vale coisa alguma!
       Valentina ps-se de p, de olhos arregalados.
       - Quer dizer, senhor, que desmente a palavra empenhada por sua prpria me?
       Ele cerrou os punhos. A fora que fazia para se controlar era evidente.
       - Sim, eu desminto... - comeou, mas o profundo desprezo que transpareceu nos grandes olhos castanhos da moa o fez calar-se. Inspirou fundo, ento continuou: 
- Eu... eu no sabia disto. Compreende? Preciso falar com minha me.
       - Compreendo, sim. O senhor pretende contestar este documento. - E, num repente, acrescentou: - Trata-se de um compromisso de honra, sr. De Michel!
       Naquele instante a moa de porte delicado parecia ter crescido, parecia medir trs metros de altura e o desdm com que fitava o primo atingia-o diretamente. 
Ele voltou-lhe as costas, dominando o mpeto de esgan-la.
       - Se sua afirmao tiver fundamento - disse, a custo -, receber tudo a que tem direito... no devido tempo.
       Olhando-o com desconfiana, ela perguntou:
       - Tudo, mesmo?
       Ao ouvir aquilo ele se voltou, com o temor evidente nos olhos negros.
       - Por que a dvida? H mais alguma coisa?
       A srta. Valentina, ento, estendeu-lhe o mao de papis. Ele ficou lvido e sentou-se de novo no banco.
       - Algum problema? - indagou a jovem. - Est sem dinheiro, primo?
       Eu... eu estou... - A voz morreu-lhe na garganta. Tossiu, cobrindo a boca com uma das mos, desculpou-se e recomeou: - Meus fundos esto... congelados, no 
momento. No entanto, garanto que ser paga, srta. Ashford.
       - Quando?
       Ele passou as mos pelos cabelos, desarrumando-os mais ainda.
       - Logo... Assim que eu conseguir liquidar... Bem, quando eu vender algumas propriedades.
       - Espero que seja logo - disse ela, sem nenhum calor na voz determinada.
       O cavalheiro levantou-se, rpido, s ento percebendo que ela no se sentara: era grosseria ficar sentado diante de uma dama em p.
       - Tambm espero, senhorita. Encontro-me em situao um tanto delicada, agora... Para levantar essa soma, eu...
       - E com os juros - interrompeu-o ela. - Em alguns casos, verificar que se trata dos juros de anos...
       - Meu Deus! - suspirou ele. E, num repente de raiva: - Voc no passa de uma mercenria, sem corao!
       - Por favor, cavalheiro, controle-se! - revoltou-se ela, mas a raiva que viu brilhar nos profundos olhos escuros a fez recuar.
       - Por que seu pai no me procurou, anos atrs? - perguntou ele, com voz tensa. - Uma dessas declaraes  de antes de irmos para a Itlia!
       - Ser que o senhor nem sequer pensa que deveria agradecer, em vez de reclamar? Pelo jeito, sua me passou por momentos de grandes necessidades e meu pai, 
com seu reconhecido bom corao, ajudou-a...
       - Sim, para cobrar juros, mais tarde! Fazer agiotagem com seus parentes!
       - Meu pai no tinha a menor inteno de cobrar essas dvidas de uma lady! - rebateu ela.
       - Sim, mas a senhorita no hesita em faz-lo, pelo que vejo.
A srta. Valentina baixou os olhos e ela respondeu, com voz trmula:
       -  que minha necessidade, agora,  to grande quanto a de sua me, naquela poca.
       - Duvido muito! - exclamou ele, irnico. - Mas no se preocupe. Ter seu dinheiro, basta me dar algum tempo...
       Os olhos da moa encheram-se de lgrimas, molhando os longos clilios.
       -Tempo  algo que eu no tenho, senhor - murmurou.
       O sr. Michel disse, com voz menos agressiva:
       -Partindo do princpio de que isso  verdade, o que prope que eu faa? Levarei pelo menos uma semana para levantar seis mil libras.
       - No quero seu dinheiro, senhor.
       Ele ficou mudo por instantes, fitando-a com ateno, at que perguntou:
       - Ento, que diabo est querendo?
       - O senhor tem uma casa bonita... - Ela engoliu seco, depois continuou, com voz rouca. -  uma casa em Londres, na Hill Street...
       O rosto dele tornou-se duro outra vez.
       - Aquela casa vale muito mais do que isso, senhorita. E tem mais est fechada.   .
       - Abra-a, ento. Compreenda, no estou lhe pedindo que me d a casa como pagamento. S queria que nos deixasse morar nela por algum tempo...
       Novamente os lbios dele entreabriram-se no que era mais um rito de ironia do que um sorriso.
       - S isso,  o que quer? Sabe de que tamanho  aquela casa, prima? Sabe quantos empregados so necessrios para mant-la? Faz ideia de quanto se gastaria 
em velas para ilumin-la? Em lenha para aquec-la? E, pelo que vejo na sua aparncia, a senhorita teria de comprar um guarda-roupa inteiramente novo, para evitar 
que os mendigos de Londres parassem junto  grade do jardim, para se divertir e comentar os trajes que est usando!
       Vermelha, confusa pelo embarao que aquelas palavras lhe causavam, a srta. Ashford no se conteve:
       - Ser que tem ideia, primo, de como seria fcil para mim odi-lo?
       - Tenho, sim - respondeu ele, sacudindo os ombros. - Peo-lhe mil perdes por estar sendo to claro e direto, mas no pode ter a casa da cidade. No e, por 
favor, no tente discutir. Vai ter de esperar at eu arranjar o dinheiro que lhe devemos.
       - Mas eu no posso esperar! - E, por fim, as lgrimas comearam a correr-lhe pelas faces. Com a voz entrecortada por soluos, ela continuou: - No consegue 
entender, seu... seu monstro? Ns no temos onde morar! No podemos continuar vivendo na casa do pobre Tibby por mais tempo, j lhe demos trabalho e despesas demais! 
Precisamos mudar, precisamos...
       Charles de Michel pestanejou, sentindo-se tocado pelo desespero da moa.
       - Pelo amor de Deus, pare com isso, pare de chorar! - pediu, por fim. - Vamos dar um jeito...
       Calou-se, de repente, notando que os olhos chos de lagrimas dela haviam se fixado em algo atrs dele, acima de seu ombro.
       - Hummm... - fungou ela e limpou as lgrimas do rosto com a mo pequenina.                
       Ele deu um rpido olhar por cima do ombro, percebendo que ela fitava a manso e gemeu:
       - Oh, no! Decididamente, no!
       Sem falar, Valentina estendeu a mo, num gesto imperioso, e ele, a contragosto, tirou um leno do bolso, dando-  moa. Ela enxugou as lgrimas, assoou o 
narizinho arrebitado e guardou-o na bolsa.
       - Est morando aqui, primo? - perguntou, depois de respirar fundo.
       - Claro que no! H dez anos essa manso no  ocupada. Acha que eu iria trazer minha me para morar nessa runa? Moramos cerca de uns seiscentos quilmetros 
a oeste, na nossa casa de campo e... Espere a! Aonde pensa que vai?
       - Vou ver a casa - respondeu a jovem.
       Parado no centro do hall escuro e sujo, o sr. De Michel indagou, com tom zombeteiro:
       - E ento?
       - Horrvel! - exclamou ela.
       Descia a ampla escadaria, observando o corrimo ao qual faltavam pedaos, as imensas teias de aranha, as manchas de fumaa no fronto da lareira, o embolorado 
de infiltraes de gua da chuva nas paredes.
       - Como teve coragem? - indagou, fitando o primo. - Como pde deixar uma casa to linda se transformar numa verdadeira tapera?
       Ele respondeu, com o sorriso que ela comeava a detestar:
       - Pois ... O madeirame est apodrecendo, metade das janelas j no tem vidros, a pintura est descascando... "Pobre manso! Melhor seria derrub-la e comear 
tudo de novo"... Palavras suas, minha cara priminha! Os mveis esto h tanto tempo embaixo dessas capas de lona que, com certeza, devem estar podres. Ningum conseguiria 
viver sob este teto, a menos que eu reformasse a casa, n'est-ce pas?
       Ignorando o sarcasmo do primo, ela murmurou, pensativa:
       - Poderia se tornar uma casa adorvel! - Depois, em voz alta: -- Quando o senhor Pretende comear o trabalho de restaurao?
        s dele se apertaram, formando uma linha fina, depois respondeu, com voz contida:
       - Quando eu tiver fundos de novo, minha cara senhorita.
       - Ah, sim.... entendo. Ento, eu creio que isso significa uma espera da nossa parte, por muito tempo... - Calou-se, a testa alta franziu-se sob os cabelos 
dourados que a emolduravam, ento disse: - Tenho uma ideia muito melhor, primo Charles! Se pudermos vir morar aqui, comearemos imediatamente a recuperao de Wyenott 
Towers.
       O rapaz ficou a olh-la por alguns segundos, surpreso, depois ergueu o rosto para o cu e explodiu numa sonora gargalhada.
       - Duas mocinhas e um garoto com dezenove anos? - indagou, entre risos. - Olhe, eu gostaria muito de ver isso!
       - Seu desejo  uma ordem, primo! Vai ver isso, sim. Para comear, minha irm e eu podemos perfeitamente limpar esta sujeira. Temos um empregado que ficou 
at agora conosco... ele  muito habilidoso e poder fazer os consertos necessrios. Meu irmo no  um garoto, mas sim...
       - Um marceneiro de primeira ordem, talvez? - zombou o sr. De Michel, ainda rindo. - Ou um excelente pintor de paredes? Oh! Quem sabe  um exmio mestre encanador? 
Palavra! Estou ansioso por conhecer um cavalheiro da alta sociedade que saiba trabalhar com as mos!
       - E o senhor, meu caro primo, tem alguma habilidade com as mos?
       Ele ergueu o queixo, parando de rir, e respondeu, srio:
       - Tenho coisas bem mais importantes a realizar do que me dedicar a trabalhos de serviais, senhorita. E, desculpe-me, mas esta conversa tornou-se ridcula. 
No adianta insistir: no existe lgica no mundo que me faa permitir que a senhorita e seu bando invadam Wyenott Towers.
       Aquele primeiro e terrvel contato com o primo havia deixado os nervos de Valentina Ashford  flor da pele, mas nem por isso a inteligncia gil dela tivera 
maior dificuldade em perceber uma soluo. Em desespero de causa, lanou mo de um estratagema:
       - Para um homem que conquistou reputao nada invejvel, antes de alcanar os trinta anos de idade, est sendo muito imprudente, sr. De Michel. Quando seus 
vizinhos e conhecidos ficarem sabendo que renegou uma dvida aos rfos da sua famlia, no me surpreenderia se fosse untado com betume, rolado em penas de galinha 
e deportado para...
       Ele interferiu, plido:
       Quer dizer que a senhorita se encarregaria da divulgao dessa mentira, cara prima? Que moa mais encantadora! Ser que j ouviu falar em chantagem, minha 
jovem lady?
                Si .. sim! E... tam... tambm ouvi falar de in... integridade de ca... carter... de bon... bondade humana - respondeu ela, gaguejando no esforo 
de lutar contra as lgrimas que insistiam em subir aos enormes olhos castanhos.
                Bem, minha cara srta. Chantagista, creio que preciso admitir que venceu - disse ele, depois de uma pausa que parecia jamais ter fim. - Mas no pense 
que vai se mudar para c com sua gente e pronto! Eu virei verificar o que esto fazendo, direi o que devero fazer. Dentro de um ms, se alguma coisa no estiver 
como eu quero, iro todos para a rua e tero de esperar, quietinhos, pelo dinheiro. Aceita minhas condies, srta. Ashford?
       Muito plida, ela conseguiu responder, com um fio de voz:
       - Aceito, sr. De Michel.
       Charles de Michel atravessou sua encantadora casa de campo, indo at a varanda nos fundos onde sua me, madame Ru th, encontrava-se reclinada em um div. 
Por momentos, sem que ela o percebesse, ficou a observ-la. A senhora tinha os olhos fechados, abanava-se preguiosamente com um leque, a luz do sol infiltrando-se 
entre as ramagens das rvores, colocando pontos luminosos sobre sua graciosa figura. Aos quarenta e nove anos, Ruth de Michel ainda era muito bonita. Os cachos de 
cabelos quase negros, j salpicados de prata, ajeitados por detrs das orelhas, a pele clara quase sem rugas, o nariz aquilino e os lbios bem-feitos ainda chamavam 
ateno, tal como haviam chamado h trinta e cinco anos, em Londres, valendo-lhe o ttulo de Deusa, outorgado pela sociedade. Conservara o perfil firme da juventude 
e o decote discreto revelavam seios firmes, perfeitos, acima da cintura fina.
       Os olhos azuis da senhora abriram-se, devagar. Ela sorriu e estendeu a mo para o filho.
       - Voc veio dividir um pouco de seu tempo comigo! No imagina como me faz feliz, meu filho... - Sentou-se e indicou o assento a seu lado: - Sente-se aqui, 
mon chri. Estou cheia de tdio, Charles! Totalmente entediada... Este isolamento a que voc me condena  cruel. Estou enlouquecendo... - Interrompeu-se, pensou 
um pouco e prosseguiu: - Logo estarei completamente louca... Amanh, eu acho. Depois, no diga que no o avisei, filho encantador!
       Ele sentou ao lado da me, tomou-lhe a mo e beijou-a.
       - No desperdice seu carinho com um filho que no merece, chere maman. Com um filho que nem bonito ...
       - Voc  bonito, sim, meu querido! - protestou ela, com veemncia. - Principalmente quando sorri... Pena que sorri to pouco! Eu faria tudo para tirar voc 
do mau humor em que mergulhou... Por que est assim? A reforma da manso vai ficar muito cara? Os vizinhos andam falando de ns? O pastor queixou-se de que o teto 
da igreja tem goteiras? Conte-me tudo: acontecimentos to empolgantes me fascinam, serviro para quebrar o tdio em que vivo...
       - Tdio, maman? Esteve numa festa no Whitcomb Garden na quinta-feira, no sarau musical dos Luttrell no sbado, foi jantar e jogar bridge com lorde e lady 
Norton anteontem; ainda ontem...
       - Eles todos so to aborrecidos! Oh, Charles, mon amour, se soubesse como a civilizao me faz falta! Preciso das luzes, da agi
tao de Londres, seno morro!
       Os msculos dos maxilares  dele se contraram e o sorriso desapareceu-lhe do rosto, que voltou a ser sombrio.
       - No me provoque, maman - disse, e a linha fina formada pelos lbios contrados eram um aviso para ela. - Tem muita distrao aqui e eu sempre a levo  Corte, 
quando quer.
       - Eu jamais imaginaria que a encantadora criana que gerei iria se tornar meu algoz!
       - Eu procuro lhe dar tudo o que quer.
       - Menos o que mais desejo: meus velhos amigos, minha famlia.
       - Quer dizer, a famlia de meu pai...
       - Por acaso  crime eu ter adorado meu marido? - Os olhos azuis, agora, cintilavam, e a voz era firme. - Voc sempre teve cime de seu pai, desde pequenino... 
Eu j disse que sempre amei e vou continuar amando esses parentes.
       Ele cerrou os punhos. Disse, depois de alguns momentos de silncio:
       - Devo lembr-la de que eu tambm adorava meu pai? E j que sente tanta falta da famlia, vai gostar de saber que hoje conversei com algum que... hum, conheceu 
tio John...
       - Oh,  mesmo? - indagou ela, ocultando um bocejo.
       - No parece muito entusiasmada em saber disso, maman!
       - Sempre gostei muito de John...
       - Verdade, maman? Porque gostava, mesmo, ou porque ele lhe fez alguns emprstimos?
       Imediatamente madame Ruth endireitou o corpo, alerta, e comeou a ajeitar nervosamente os cabelos.
       - No por causa disso, claro... - Olhou para o filho, atenta. - Esse fato o desagrada, Charles?
       - Deveria desagradar, chre maman?
       - No sei... s vezes voc  to severo! Pobre John! Como tendemos a esquecer as gentilezas que nos fazem... O corao dele era to generoso! E acabou morrendo 
pobre...
       Os olhos quase negros do sr. De Michel brilhavam, atentos. Perguntou, firme:
       - Diga-me, por favor, maman, quanto tempo durou essa... relao financeira?
       - Oh, muitos anos!
       - Antes de irmos para a Itlia?
       - Sim... E mesmo depois de voltarmos. Seu pai nunca soube, mas quando John estava em dificuldades recorria a mim. E, quando eu ficava sem fundos, socorria-me 
com ele. Querido John, jamais me disse um no! - Levantou-se e ajeitou o vestido. - Vou jantar na casa do pastor, hoje... Preciso ir me arrumar...
       - Mamanl - chamou ele, quando ela ia entrando em casa. - Diga-me a verdade: estamos devendo aos Ashford?
       - Se existe dvida - respondeu ela, serena -  do outro lado. Realmente, eu nunca anotei nossas transaes, mas acho que meu pendent de esmeraldas inclina 
a balana a nosso favor.
       O rapaz respirou fundo.
       - A senhora... deu as es... esmeraldas Gatesford ao... ao tio John? Sabe o valor de... Ora, maman, que brincadeira de mau gosto! Usou o colar de esmeraldas 
no sbado  noite!
       - O que usei  uma cpia, meu querido. Vov Gatesford era vivo, na poca em que entreguei-o a seu tio para que arranjasse dinheiro a fim de fazer experincias 
com aquela mquina alem a vapor, pois seu av negou-se a ajud-lo... De qualquer modo, o dinheiro acabou indo para as mesas de jogo... Bem, o que h? Voc ficou 
aborrecido com isso?
       - No, no! O que acaba de me dizer faz-me ficar  vontade a respeito de uma obrigao...
       Ele sorriu e, de repente, caiu numa gargalhada.
       - Meu Deus! - assustou-se madame Ruth. - O que aconteceu? Por que ri desse jeito?
       - Oh, maman! - Ele enxugou as lgrimas provocadas pelo riso. - Acho que vou dar uma boa lio, merecida, a algum! Juro que vou!

       CAPTULO II

       - Meu... Meu... Deus!
       O sr. Leslie Ashford parou  entrada de Wyenott Towers e olhou ao redor. Era um rapaz alto, com feies regulares e simpticas, cabelos castanhos, bastos, 
e um ar natural, bem-disposto, enrgico. Seus olhos verdes refletiam, nesse instante, puro horror e o rosto empalidecera.
       - Eu achei que as coisas l fora j estavam suficientemente ruins!- murmurou, abafado.
       Sidonie, pequenina e adorvel, escondia-se atrs do irmo, mas no deixava de dar sua opinio em voz bem alta e clara:
       - Que horror, Tina! Voc no pode exigir que moremos nesta casa!
       - Alegrem-se, crianas! - exclamou Valentina, entrando no hall com um balde e um cesto com panos de cho.
       O criado, Horace, j havia varrido o cho e retirado as capas empoeiradas dos mveis, o que melhorara um pouquinho a aparncia da casa.
       - Nossos mveis chegaram inteiros e Horace trabalhou aqui como um louco - continuou ela, enfrentando o olhar chocado do irmo. - Claro, eu no diria que o 
ambiente est bonito, elegante...
       - Elegante? - gemeu Sidonie. - Tudo aqui dentro  medonho, Tina!  um horror e eu tenho certeza de que vou morrer se voc me obrigar a morar "nisto"!
       - Por favor, minha criana, no morra j, ento... - Lady Clara Rustwick entrou na sala com seu pequins embaixo de um brao, carregando a maleta com a outra 
mo. - Precisamos, pelo menos, limpar um dormitrio para organizar um velrio decente para seu corpo!
       - Oh! Como tem coragem de dizer uma coisa terrvel como essa, titia? - soluou Sidonie. - Estamos em uma... em um... em um pesadelo!
       Hum, pelo jeito sua irmzinha est revoltada, Tina! - comentou a senhora, depois chamou: - Horace!
       Ouviu-se uma alternncia de passos e tumps no piso, e logo um homem de certa idade, com uma perna de pau, entrou no hall, fazendo a poeira levantar.
       - Pois no, milady!... Presente e a postos - disse ele, arfando sobrecarregado pelo peso das coisas que carregava.
       - Na maior atividade, pelo que vejo... - resmungou o sr. Ashford, aproximando-se de uma janela e tentando enxergar atravs do vidro imundo. - Bom, j que 
no adianta reclamar, o que vamos fazer?
       - Primeiro as primeiras coisas - sentenciou lady Clara, colocando o pequins no cho e a maleta sobre uma cadeira no muito confivel. - Precisamos tomar 
nosso ch. Onde  a cozinha, Tina?
Horace, p fogo est aceso?
       - Sim, milady, e j temos uma chaleira com gua fervendo.
De repente, o cozinho comeou a latir histericamente e disparou na direo da escada.
       - Um rato! Um rato! - uivou Sidonie, tremendo incontrolavelmente.
       - Era, mesmo? - perguntou Leslie Ashford, parecendo se animar. - Aposto que o Mandarim vai peg-lo! - E saiu correndotambm.
       Ambos, o pequins Mandarim e o j no to pomposo sr. Ashford, dispararam escadaria acima, numa frentica caa ao rato.
       Ouviu-se mais alguns passos, estranhamente pesados, na entrada do hall e, voltando-se, Sidonie mal teve foras para dizer:
       - Oh, no! Isso  um absurdo!
       - No , no! - gritou o jovem Leslie, l do primeiro piso. - apenas um burrico, Sid. Repare como ele  simptico!
       Mandarim reapareceu, "m disparada, escada abaixo, perseguindo um rato bem gordinho. Passaram ambos pelos ps de lady Clara, provocando uma desesperada gritaria. 
Sidonie gritava e chorava,  beira de um colapso nervoso. FitzMoke ficou perturbado com aquela barulheira, virou as costas e saiu da casa, com a maior dignidade.
       Depois que o rato, o co e o burrico saram, um homem, que se pusera de lado para no ser atropelado por eles, entrou no hall.
       - Muito bem! - exclamou o sr. Charles de Michel. - Pelo que vejo, j esto se instalando...
       Controlando a raiva que fazia seus olhos fuzilarem, Valentina fez as apresentaes e, sorridente, o sr. De Michel cumprimentou a todos com uma mesura.
       -Lady Clara - indagou, ento -, devo presumir que a senhora tambm pretende ficar aqui? Conhecemo-nos muito pouco, mas no acredito que esta seja a... bem, 
o ambiente ao qual deve estar acostumada.
       - Quando as reservas financeiras so parcas,  preciso que nos adaptemos, meu caro... - respondeu a pacata senhora, enquanto examinava atentamente o notrio 
sobrinho que no via havia anos.
- Eu chamaria "isto" de uma runa e no de um "ambiente". Mesmo assim, s temos de agradecer sua generosidade em permitir que moremos aqui.
       O sr. De Michel ficou vermelho ao ouvir aquilo, mas no disse nada.
       - Minha irm contou-nos sobre... o acordo que o senhor fez com ela.
       No tom do sr. Leslie Ashford percebia-se que seu orgulho tinha sido ferido pelo acordo, mas ele se mantinha altivo. Estendeu uma das mos para o primo, enquanto 
com a outra puxava a irm mais nova para si e a abraava, protetor.
       O aperto de mo entre os dois rapazes foi firme e breve. Um brilho de diverso nos olhos escuros do sr. De Michel acompanhou suas palavras:
       - Parece que o senhor no gostou muito do trato, no?
Foi a vez de Leslie Ashford ficar vermelho.
       - De fato, no gostei, sir. Mas pedintes no podem fazer escolhas. Prometo que faremos tudo para cumprir as condies determinadas.
       - Espero que sim. Mas, como j avisei sua irm, o tempo  curto e meus padres muito exigentes.
       - Ainda nem terminamos a mudana, primo! - fez notar o jovem Ashford, ressentido.
       - Acho que  bom se apressarem - disse o dono da manso, depois olhou para a jovem Sidonie e completou: - No pretendo ampliar o prazo que lhes dei.
       Horace veio avisar que o ch estava pronto e, ao ver o sr. De Charles, parou, incerto, olhando-o. Valentina apresentou o velho e fiel criado, surpreendendo-se 
ao ver o primo aproximar-se dele, cordial, de mo estendida, enquanto dizia:
       - Voc esteve no Exrcito, no? Foi em batalha que perdeu uma perna?
       O criado perfilou-se, orgulhoso:
       - Sim, senhor. Campanha de 99, senhor.
       - De 99? Ento, participou do ataque s colinas de Egmont?
       O velho Horace abriu um amplo sorriso:
       - Exatamente, senhor. Participei, senhor.
       - Formidvel! Nesse caso, serviu sob as ordens de sir John Moore! Tenho certeza de que ele foi um esplndido oficial.
       - "Esplndido" o descreve bem, senhor. Foi o mais firme e generoso oficial que eu conheci, senhor. Foi ele quem organizou o Regimento 52 e mereceu muitas 
honrarias, senhor. Tenho certeza de que ele far o mesmo nesta guerra atual, senhor.
       Charles De Michel concordou com o criado, ento despediu-se de todos e foi embora.
       - Bem, querida... - disse lady Clara a Valentina, assim que ele saiu -, pelo menos voc conseguiu um teto para ns. Eu s gostaria de saber se a me dele 
sabe deste arranjo.
       Cansados, sem nimo nem coragem, acompanharam os passos claudicantes do velho Horace, at a cozinha, que, por sinal, era o local mais deteriorado da manso.
       - Por todos os santos! - exclamou lady Clara, ao ver o estado das coisas ali.
       -  uma verdadeira pocilga! - murmurou Leslie Ashford, revoltado.
       - Ch! - exclamou Valentina e, quando o criado a serviu, suspirou: - Muito obrigada, Horace.
       Sidonie fungou, engolindo as ltimas lgrimas de medo do rato, enxugou os olhos e comentou:
       - Voc nunca me disse que ele era to bonito, Tina!
       Ao final da semana j haviam limpado armrios, gavetas, cho, paredes, vidraas do hall, salas, cozinhas e quartos que iriam usar. Os quartos e a cozinha 
exigiram o uso de vassoura, gua e sabo vrias vezes, alm da expulso de andorinhas que l se haviam instalado. Por fim, ficaram razoavelmente limpos e em ordem. 
Acrescentaram os mveis que tinham trazido aos que ainda estavam em condies razoveis, dando um aspecto bem melhor aos ambientes.
       Ashford e Horace pregaram tbuas nas janelas onde faltavam vidros, para resolver o problema at a chegada das vidraas que haviam sido encomendadas. Consertaram 
o corrimo, a escada, portas e beirais do telhado, pois'de fato Leslie era muito habilidoso em lidar com madeira.
       Sidonie pouco trabalhava e muito chorava, lamentando-se, dizendo-se uma empregada no paga, isto , uma escrava, morrendo de saudade de Londres.
       Lady Clara e Valentina tinham tambm trabalhado duramente, de modo que, ao descer a escadaria no entardecer de sexta-feira, a moa sentiu uma onda de orgulho 
encher-lhe o peito.
       O cheiro de mofo e de poeira tinha cedido lugar ao delicioso odor da cera de abelhas e do perfume das flores que, num rasgo de entusiasmo, Sidonie tinha ido 
apanhar no campo e arranjado lindamente em vasos e jarros.
       A cozinha, bem limpa e em ordem, estava alegre com panelas, tachos reluzentes, o fogo crepitando no enorme fogo, enquanto o aroma gostoso de comida flutuava 
no ar, de maneira convidativa.
       - Bom, trabalhei como uma escrava, quebrei minhas unhas, estou com as mos speras e vermelhas, mas agora chega! - declarou a caula, ao ver a irm. - Vou 
passear um pouco pela propriedade... - E saiu, sem esperar permisso.
       Valentina suspirou. Gostaria muito de no ser obrigada a pedir tanto sacrifcio para Sidonie. Compreendia perfeitamente como havia sido duro para a mocinha 
ser arrancada da cidade, justamente na poca em que deveria participar da apresentao das debutantes  Corte.
       Quase no mesmo instante, Valentina ouviu passos no prtico e, em seguida, batidas na aldrava da porta, o que talvez anunciasse uma visita de Charles de Michel. 
Desceu depressa os ltimos degraus e correu para o espelho antigo que haviam pendurado no hall, sobre a arca chinesa que tinham trazido da cidade.
       Ficou desolada com a imagem que viu: cabelos em desalinho, uma mancha escura na face, talvez cinza do fogo, o vestido amassado sob o avental surrado. Arrumou-se 
o melhor que pde e abriu a porta. Surpreendida, viu-se diante de uma senhor^ alta, elegante, que trazia um guarda-sol aberto, provavelmente para proteger a brancura 
da pele bonita e leitosa. Usava um fino vestido de batista bege, chapu de palha marrom atado sob o pescoo por uma fita bege. O rosto de traos delicados era emoldurado 
por cabelos escuros com toques de prata. Dois enormes olhos azuis e um sorriso amigvel completavam o agradvel conjunto.
       Com voz suave, bem modulada, a elegante senhora indagou se a srta. Ashford estava e se poderia receb-la.
       - Eu... eu sou a srta. Ashford... - gaguejou Valentina, e olhou para o carto de visitas que a senhora lhe estendera: Madame Henri de Michel. - Ento... a 
senhora ... e a tia Ruth?
       Confusa por ainda estar de avental, Valentina ficou muito vermelha, com vergonha. Depois, percebendo o olhar meigo, bondoso, da visitante, sacudiu os ombros 
e riu.
       - A senhora deve estar me julgando uma desastrada, tia! Entre, por favor.
       Madame De Michel sorriu tambm, fechou o guarda-sol e entrou no hall, enquanto Valentina correu at o cordo da campainha e puxou-o, para chamar Horace. Assim 
que deu o puxo, o conjunto despencou, caindo sobre a cabea da moa. Madame soltou um grito, assustada, enquanto a jovem tentava se desvencilhar da fita e do cordo 
do puxador da campainha. Sentia-se to sem jeito que rezava para que o cho se abrisse e a engolisse de uma vez, acabando com aquela agonia.
       - Acho... - conseguiu murmurar, quase roxa, depois de se livrar da confuso - que no poderei chamar meu criado. Creio que o acompanhante da senhora - e olhou 
para o criado da madame, que observava a cena com olhos arregalados - deve ir at a cozinha, onde tomar um ch, se quiser...
       Depois de fazer a tia entrar na sala de visitas e acomodar-se numa poltrona, Valentina recobrou a calma e indagou:
       - Posso oferecer-lhe algo, senhora? Talvez uma limonada?
       - Em primeiro lugar, eu gostaria de receber um abrao da minha sobrinha - disse madame Ruth.
       Vermelha de novo, Valentina baixou os olhos e percebeu que permanecia com o cordo da campainha enrolado em uma das mos. Atirou-o ao cho e correu para a 
tia, sentindo um perfume suave, muito agradvel, enquanto era abraada com ternura. Depois, a gentil senhora afastou-a um pouco de si e comentou:
       - Voc  muito mais linda do que a descrio de meu filho me fez imaginar. Lembra, muito, a sua querida me e tem os mesmos olhos de John. Criana de sorte!
       Tornou a sentar-se e, depois de um momento, perguntou:
       - Voc se lembrava de mim, Valentina?
       - Mais ou menos... no me lembrava que era to linda! - murmurou a jovem, embaraada.
       O riso musical de madame encheu o ar de alegria.
       - Acaba de me escravizar com poucas palavras, minha querida!
-- disse, encantada. - Voc sempre estava no colgio, ou visitando amigos, quando eu ia a sua casa, anos atrs. Que atitude odiosa de Charles fazer vocs virem morar 
em um lugar assim! O que vai pensar de ns?
       Percebendo que o primo no contara tudo  me, Valentina achou melhor assim e tentou explicar a situao, sem compromet-lo.
       Nossa situao era desesperadora, madame... O primo Charles relutou em permitir que vissemos para c, mas acabou concordando diante da minha pres... de meus 
pedidos insistentes.
       Madame De Michel inclinou-se e deu uns tapinhas amigveis nas mos de Valentina. Ento, olhou-as, pegou-as e observou com ateno,
       - Meu Deus! O que aconteceu com suas mos, menina?
Valentina escondeu as mos atrs das costas, depressa.
       - Bem, a senhora compreende... nossa mudana de Sussex para c...
       - Sussex? Mas vocs no vieram de su casa em Chester Street, em Londres? No me diga que perderam tambm a residncia da cidade!
       - Eu... Bem... Sim...
       - Minha pobre criana! Como pde acontecer uma coisa dessas? Mas voc se referiu a um criado ou ser que eu entendi mal?
       - A senhora entendeu bem, tia Ruth... Como diria meu irmo, estamos ao deus-dar... Mas, apesar disso, temos um criado que, na verdade,  mais um amigo do 
que um servial. H muitos anos meu pai deu emprego a Horace, apesar de lhe faltar uma perna, e ele nunca mais nos deixou, quer receba por seus servios ou no.
       Olhando ao redor, madame De Michel arregalou os olhos, enquanto exclamava:
       - Mas isto aqui estava uma coisa horrvel, uma desordem e sujeiras inacreditveis... No posso crer que voc limpou e arrumou tudo! Fez esse trabalho braal, 
minha menina?
       - No, madame. No fui s eu. Minha famlia e Horace ajudaram muito.
       Os enormes e meigos olhos azuis brilharam mais.
       - Nunca ouvi falar uma coisas dessas. Charles devia, pelo menos, ter lhe emprestado alguns dos nossos empregados. Ele vai ouvir as coisas desagradveis que 
devo lhe dizer!
       Depois disso, a conversa enveredou para assuntos mais sociais e aos poucos Valentina percebeu que aquela mulher rica e maravilhosa era infeliz por se ver 
completamente s e isolada. Diante daquilo, achou que seus prprios pesares no eram assim to ruins, pois tinha o carinho dos irmos, de tia Clara, de Horace, e 
tratou de animar a tia. Quando chegou o momento de se despedirem, a jovem expressou esperanas de rev-la:
       -Eu gostaria muito de convid-la para jantar conosco, tia Ruth, no entanto, acho que por enquanto isso  impossvel.
       A inteno  o que importa, minha querida - respondeu a se nhora, acariciando o rosto da jovem. - Eu  que deveria promover uma festa em honra de vocs, mas 
no me permitem tais frivolidades...
       De novo os lindos olhos azuis demonstraram tristeza e Valentina no soube o que dizer. Atrapalhada, procurava palavras de conforto para a tia quando foram 
interrompidas por uma voz alegre:
       - Ruth de Michel! Mal posso crer em meus olhos!
       Lady Clara descia a escada e aproximou-se das duas, que se despediam no hall. Seus olhos brilhavam e o rosto mostrava-se corado de prazer.
       - Clara! - E madame trocou beijinhos com a velha parente. - H quantos anos! Difcil imaginar que voc ainda cuida dos nossos sobrinhos! E parece mais moa... 
Oh, est mais magra, elegantssima, querida!
       Lady Clara, que engordara cerca de vinte quilos desde a ltima vez que vira madame De Michel, ignorou a alfinetada e, sem mudar de expresso, sem alterar 
o luminoso sorriso, rebateu o golpe:
       - Obrigada, meu bem... E voc? Mal posso crer que tenha abandonado a agitao animada de Londres sem motivo algum... Ser que esteve internada, querida?... 
Est um tanto plida e abatida...
       "Oh, meu Deus!", pensou Valentina, aflita. "Tomara que elas no briguem!"
       O sol do entardecer brilhava num cu azul, fazendo reluzir o verde das plantaes, a mica nas pedras e realando o relevo da paisagem. As ovelhas pontilhavam 
o campo de branco e os soluos do pranto de Sidonie parecia um triste contraponto ao balir dos animais. A mocinha sentia-se desterrada longe de Londres e da vida 
animada, luminosa e elegante da capital inglesa, enquanto suas amigas Lucilla, Anne e Mnica, muito menos bonitas do que ela, iam debutar nessa temporada. J estavam 
at fazendo os vestidos que iriam usar na apresentao  Corte.
       E ela estaria ali, perdida no meio daquela solido, onde as pessoas mais finas no conseguiam distinguir as diferenas entre um minueto e uma valsa.
       Ah, que tristeza!, pensava ela, chorando. Ento, de repente, olhou ao redor e sentiu um sobressalto. Tinha se afastado demais de sua casa, pois via-se diante 
de um campo cultivado, que demonstrava estar tendo atenes especiais e mais adiante percebia um casaro de fazenda, onde provavelmente Leslie costumava comprar 
o leite,
       a manteiga e o queijo que eles consumiam. Percebeu que um cavaleiro se dirigia para o lugar em que se encontrava. Que vergonha!, pensou. Uma lady como ela 
ali, sozinha, sem um pajem a acompanh-la como mandavam as regras da sociedade.
       Ainda com um restinho de soluos alterando-lhe a respirao e lgrimas penduradas nos clios longos, ela observou o cavaleiro, admirando-lhe a elegncia. 
Com certeza ele sabia o que era cavalgar.
       Correu para se esconder atrs do tronco de uma rvore e, ento, reconheceu o cavaleiro. Era Charles de Michel. Imediatamente decidiu agir: deitou-se graciosamente 
no cho, com a cabea apoiada numa pequena pedra junto da rvore, ergueu o vestido at mostrar o comeo da barriga de sua graciosa perna, fechou os olhos e aguardou.
       Momentos depois comeou a se preocupar. Continuava a ouvir o barulho dos cascos do cavalo no mesmo ritmo, aproximando-se. Ser que seu primo era cego? Ento, 
lembrou-se de que usava um vestido verde, no mesmo tom do verde da relva sobre a qual se deitara. Isso deveria estar tornando-a praticamente invisvel... Se ele 
no a visse poderia passar por cima dela!
       Com um grito, levantou-se, apavorada.
       Uma ordem berrada e o relincho do animal soaram no ar tranquilo da tarde, depois o som de patas escavando o solo e em seguida um grito:
       - Oh, diabo!
       E o barulho de um corpo batendo no cho, enquanto ela fechava os olhos, para no ver. Quando os abriu, levou afetadamente as mo-zinhas ao peito, como se 
quisesse conter as batidas violentas do corao, e exclamou, os olhos arregalados:
       - Oh! Como fiquei assustada!
       Observou o cavaleiro levantar-se, desajeitado, e andar em sua di-reo mancando, com uma perna quase deslocada. O rosto, sujo de barro e escalavrado, no 
escondia o mau humor. Ele soltou uma imprecao ao ver que o sangue que saa de um corte na mo sujara sua alva camisa. Furioso, encarou a de fato assustada mocinha, 
enquanto a voz grossa troava:
       - Por quais pragas do inferno voc est aqui? Por acaso, est
fazendo um piquenique?
       Sidonie achava-o o homem mais fascinante e varonil que j vira. O machucado na face s servia para torn-lo ainda mais atraente. Conseguiu responder, com 
a voz tremula:
       - Sa... sa pa... para passear e me... me perdi. Fi... fiquei to cansada... Deitei-me para descansar um pouco...
       - E teve de se levantar como um fantasma justamente quando eu me aproximava, fazendo meu cavalo empinar de susto! Tem sorte, senhorita-mal-educada, do machucado 
ser eu!
       Ela, ento, recorreu s lgrimas, a melhor arma contra homens enfurecidos, enquanto balbuciava:
       - Me perdoe, primo Charles...
       - E pare de choramingar! De fungar desse jeito! Na primeira vez que a vi tambm estava fungando assim.
       Sidonie comeou a achar que talvez aquele homem no era assim to fascinante quanto pensara. Mas parecia romntico. Resolveu mudar de ttica e tentar de novo:
       - Por favor, primo, me ajude... - E cambaleou. - Estou me sentindo...
       Charles de Michel hesitou, imaginando o que estaria acontecendo com ela, mas ao ver que estava por cair, estendeu os braos e amparou-a. Como era de se esperar, 
a mocinha apoiou-se no peito dele.
       - Oh,   Deus   meu...   -   murmurou,   fechando   os   olhos   e entregando-se  sensao estranha de ser amparada por aqueles braos fortes e estar colada 
ao peito slido.
       Ele olhou para baixo e no pde deixar de pensar que ela era uma coisinha linda.
       - Eu no sabia que vocs eram amigas! - brincou Valentina, tirando os prendedores que mantinham o lenol no varal e comeando a lutar com o vento, que insistia 
em lev-lo.
       Na outra extremidade do varal, lady Clara recolheu uma toalha de rosto e cheirou-a:
       - Esta ainda no secou, querida. Precisa ficar um pouco mais. Hum, que cheirinho bom! Sempre imaginei como seria lavar a prpria roupa, depois recolh-la 
do varal... Pena no termos colocado o suporte para ergu-lo do jeito certo.
       - Pelo menos a grama evitou que a roupa sujasse, quando o bambu escapou e o varal desceu... Agora, tia querida, no desconverse: por que a senhora e tia Ruth 
no fazem as pazes?
       Lady Clara examinava com a maior ateno a cala de perninhas, com o babado, rendinha e cordo que as ajustava, nas extremidades.
       -Parece que ela ficou menor, Tina! Ser que devamos t-la posto para ferver?- Bom, pelo menos est bem limpa e seca. Eu no fao as pazes com Ruth de Michel 
porque  uma mulher... abominvel!
       Valentina parou de lutar com uma toalha de mesa e fitou a tia, surpreendida:
       - Nunca ouvi a senhora falar assim de ningum, titia! Ela me parece to adorvel!
       - E ela sabe que  adorvel. Os cavalheiros se tornam bonequinhos nas mos dela. Henri de Michel j tinha compromisso com sua tia Cecily... quando conheceu 
Ruth.
       -  por isso que tia Cecily nunca se casou? Pelo que me disse ram, tia Tuth e tio Henri amavam-se muito...
       - Ah, sim! Isso eu no nego. Mas... Oh, meu bolo! - gritou a senhora e correu o mximo que seu corpo volumoso permitia, na direo da cozinha.
       Valentina abanou a cabea, sorrindo. A tia conseguira escapar de novo. Colocou as roupas recolhidas num cesto de vime e iniciou nova luta: erguer o varal 
com o bambu, para evitar que as roupas mais compridas esbarrassem no cho. Jamais havia imaginado que aquilo fosse to complicado! Afogueada pelo exerccio, ergueu 
o cesto de roupas e arfou. Era um trabalho pesado, aquele. Encaminhou-se para a casa, perguntando-se quando tia Clara iria lhe contar como as coisas de fato haviam 
acontecido. Ela sempre defendera a irm caula e lamentava que ela tivesse morrido solteira, principalmente quando falava de seu prprio casamento, que fora muito 
feliz.
       - Deixe-me ajud-la, moa bonita!
       Um brao coberto por manga de tecido azul estendeu-se para o cesto. O senhor alto, forte, muito bem vestido, pegou-o com facilidade e passou a caminhar ao 
lado dela, com a admirao transparecendo nos bonitos olhos cinzentos. Suas roupas, de montaria, eram mais para a cidade do que para o campo, e um garboso cavalo 
o esperava junto da escada que dava para a porta lateral da manso. . Antes que Valentina se recobrasse do espanto, ele tornou a falar:
       - Sua patroa est em casa, moa?
       - Quer ver lady Clara Rustwick, senhor?
Ele ficou evidentemente surpreso:
       - Lady Rustwick tambm est aqui?
       - Sim, senhor - respondeu ela, irritada. - Lady Rustwick, o sr. Leslie Ashford, as srtas. Valentina e Sidonie Ashford moram aqui, eu sou miss Valentina Ashford.
       O homem parou e, de queixo cado, murmurou:
       - Por Jpiter! - Seu olhar passeou pelos lindos cabelos quase loiros, despenteados, pelo rosto corado ao sol, pelo vestido simples coberto por um avental. 
- Com mil diabos! Pensei que vo... que a senhorita fosse uma empregada! Valentina ergueu o rosto, com orgulho: -- Espero que tenha comentrios mais simpticos a 
fazer, sir!
       - Mil desculpas! - exclamou ele, curvando-se num cumprimentos, depois de colocar o cesto no cho.
       Em seguida, o cavalheiro tirou um cartozinho de um bolso e entregou-o a ela. Lia-se no carto "Derwent Aloysius Lock, Ba-ronete".
       - Sou seu vizinho, senhorita - explicou ele, sorrindo. - Quando ouvi dizer que uma famlia se havia instalado nesta... hum... na Manso Towers, pensei que 
De Michael houvesse mandado restaurar a propriedade. Se houver algo em que eu possa ajud-la...
       - O senhor  muito gentil. Aceitaria um copo de limonada? O dia est to quente...
       Ela tirou o avental enquanto se encaminhava para a porta da frente, seguida pelo inesperado visitante. Abriu-a, entraram e dirigiram-se  saa de visitas, 
onde a moa indicou-lhe uma poltrona. Ele s sentou depois que ela o fez.
       - Posso ficar apenas um instante, srta. Ashford...
Enquanto dizia isso, os olhos cinzentos, expressivos, percorriam o ambiente, depois detiveram-se nela, com evidente admirao. Era agradvel ser olhada assim, pensou 
Valentina.
       - Desculpe-me a indiscrio - disse ele - , mas seu irmo  adulto?
       - , sim, senhor. Por acaso est sendo gentil em se preocupar com a nossa segurana?
       - De fato, e tenho boas razes para isso, senhorita. - O rosto bonito do cavalheiro tornou-se sombrio. - Francamente, eu jamais poderia supor que De Michel 
impusesse esta moradia, no estado em que se encontra, a pessoas da famlia!
       O sorriso desapareceu dos lbios de Valentina:
       - Conhece meu primo, sir Derwent?
       Por momentos ele no respondeu, limitando-se a olhar para seu chapu, que tinha nas mos. Depois:
       - Infelizmente, senhorita, eu o conheo como traidor da ptria, velhaco e patife! No deixaria uma mulher desacompanhada num raio de um quilmetro ao redor 
dele!
       Valentina encarou-o, fria:
       -Temo que esteja esquecendo as boas maneiras, senhor. Charles de Michel'  meu parente e fez a gentileza de permitir que morssemos aqui. Devo pedir-lhe que 
no...
       - Que no fale a verdade? - interrompeu-a ele, amargo. - Acredita que um cavalheiro falaria mal de outro, sem boas razes? Percebe-se que, apesar das circunstncias, 
a senhorita vem de bero de ouro e, portanto, nem imagina a que perigos est se expondo.
       Valentina ergueu-se, uma ruga de contrariedade marcando a testa. O sr. Lock tambm se levantou, de imediato, e disse:
       - No  preciso pedir que me retire, pois j estou saindo. Mas minha conscincia me obriga a avis-la e implorar: retire-se desta casa de vilania antes que 
seja confundida com o proprietrio. Possa Deus proteg-la, srta. Ashford!
       E, fazendo um estranho gesto, que poderia ser tanto de bno quanto de adeus, retirou-se.
       - Por todos os santos! - exclamou lady Clara, vindo da cozinha com uma mancha branca de farinha no nariz altivo. - Quem era aquela infeliz criatura?
       Seguindo os passos da tia, tirando as luvas de esgrima, o jovem Ashford perguntou, ansioso:
       - Voc est bem, Tina?  s eu voltar as costas e malucos invadem esta casa?
       - Ento, vocs ouviram? - E Valentina estendeu o carto do visitante. - Aquele homem est se consumindo de dio!
       - Ah! - fez lady Clara, baixinho. - Ento,  isso! A lady que fugiu com o primo de vocs era esposa de sir Derwent Lock e ele quase morreu num duelo com Charles!
       - Leslie! Tina! Socorro - soou a voz desesperada de Sidonie, l fora.
       Leslie correu a abrir a porta e Valentina soltou um gemido de horror diante da cena que se apresentou diante dela.
       Com os olhos vermelhos, o rosto banhado por lgrimas, Sidonie se atirou nos braos do irmo, enquanto soluava sem conseguir falar direito. Pouco alm aproximava-se 
Charles de Michel, grotescamente montado no dcil burrico FitzMoke. Os cabelos dele estavam, como as roupas, em completo desalinho, o rosto sujo de terra e com arranhes 
que davam impresso de ter sido unhado.
       - Graas a Deus! Obrigada, Senhor, eu estou salva! - gemeu Sidonie, ainda agarrada ao irmo.
       - O qu... o que voc fez a ela? - gritou o jovem Ashford, fora de si.
       - Violentei-a,  claro! - respondeu De Michel, em tom spero e zangado. - O que mais poderia ser?

       CAPTULO III

       Valentina ficou sem respirao, tal a surpresa e, a raiva que lhe apertaram o peito. Leslie Ashford, soltando uma pesada praga, empurrou a irm para os braos 
da tia e saiu correndo para dentro de casa.
       - Que vergonha, sir! - conseguiu dizer Valentina, por fim.
       - Leslie! - chamou, angustiada. - Meus Deus... pa... para on...onde ele foi? - conseguiu dizer, entre os soluos.
       - Pegar uma arma,  claro, criana boba! - exclamou o sr. De Michel, desmontando do burrico e se aproximando das duas mulheres que o fitavam com ar temeroso 
e profundamente hostil.
       - Oh! No! - gritou a mocinha. - Ele vai mat-lo!
       - E se matar, a culpa ser toda sua, sobrinha sem juzo - admoestou-a lady Rustwick. - E o senhor, sir De Michel, que coisa mais horrorosa para dizer diante 
de uma senhora e duas senhoritas!
       Ele sacudiu os ombros, dizendo, sombrio:
       - Sou um homem horroroso... e vivido, milady. Se as ofendi, peo que me desculpem. Mas no poderia dar outra resposta  pergunta do sr. Ashford, pois era 
evidente o que estava pensando quando me interpelou. Depois de todas as tolices que suportei hoje, esta seria demais! - Aproximou-se de Sidonie, encarando-a e quase 
a matando de tanto horror. - No tenha medo, meu pequeno regador de plantas... pena que suas lgrimas abundantes sejam salgadas e voc as desperdice com tanta facilidade! 
Fique sossegada, que se eu quisesse seria capaz de matar seu irmozinho com meus olhos fe
chados.
       - E... e o dei... deixaria mo... morto aos seus he... hediondos ps? - indagou a mocinha, chorando mais ainda diante de tanta crueldade.
       - J que se importa tanto com isso, menina - disse De Michel, severo -, devia logo ter contado a verdade, simplesmente, assim que chegamos aqui.
       Acostumada com a tendncia teatral da irm, Valentina trocou um olhar de entendimento com a tia.
       - Ser, ento, que algum aqui pode fazer o favor de explicar direito o que... - comeou a dizer.
       - No fiquem perto desse monstro libertino! - gritou o jovem Ashford do alto da escadaria que levava ao prtico de entrada, parecendo o prprio anjo vingador 
com uma pistola apontada para Charles de Michel.
       Sidonie correu e se colocou diante do primo, com os braos abertos, e declarou, em voz to alta que chegou at a distante estrebaria:
       - Ele no fez nada, meu irmo querido!
       - Fale mais baixo - pediu De Michel. - Desse jeito todo mundo vai ouvir e voc estraga a reputao que consegui com tanto esforo!
       Surpreendido e aborrecido ao mesmo tempo, Leslie Ashford disse, impositivo:
       - Exijo uma explicao, sir! Por que o senhor se encontra nesse estado lamentvel?
       - No exige coisa nenhuma, enquanto estiver com essa arma apontada para mim. Alis, eu duvido at que o senhor saiba atirar!
       O jovem Ashford ficou vermelho at a raiz dos cabelos e respondeu:
       -  bom que fique sabendo, ento, que gozo da fama de ter boa pontaria.
       - Ah! Eis a uma atitude tpica dos jovens... S basfia! Garanto que no  capaz de acertar naquela rosa! Aposto o que quiser...
       - Ento, perdeu! - exclamou Ashford, mirando a flor cuidadosamente e disparando.
       A rosa desintegrou-se sob os olhos apavorados das trs ladies.
       - Ora, ora... - murmurou De Michel, com um meio sorriso. perfeito. Agora ambos sabemos que sua arma est descarregada.
       - Ento, lentamente, tirou um pequeno porm mortal revlver do bolso, explicando: - Veja, esta minha arma tem dois tiros...
       Dessa vez o rosto de Leslie Ashford ficou escarlate, enquanto Sidonie corria teatralmente para diante do irmo e se postava  frente dele, tambm com os braos 
abertos, em atitude de abnegado sacrifcio.
       - Piedade, senhor! - implorou. - No atire! Leslie  jovem demais para morrer!
       - Santo Deus! - gemeu Charles de Michel. - Cena trs da pattica Pantomima da Famlia Ashford!
       - Por favor, vamos levar esse drama ridculo para dentro de casa? - sugeriu lady Clara.
       - Muito obrigado, milady - agradeceu De Michel, com uma reverncia -, mas preciso ir embora.
       - No, senhor! Eu ainda quero saber o que aconteceu - interferiu o jovem Ashford.
       - Pergunte a essa atrizinha trgica. - E De Michel apontou para Sidonie. - Ela tem dotes para teatro bem melhores do que os meus.
       Enquanto lady Rustwick e o sr. Leslie levavam a mocinha para dentro de casa, Valentina disse, sria:
       - O senhor tem lngua maldosa, viperina mesmo, mas minha impresso  de que ainda lhe devemos desculpas. Sua casa  distante daqui, no quer levar o cavalo 
de Leslie, emprestado? Pelo que posso imaginar, parece que o seu fugiu, deixando-o a p...
       - De fato. Mas no  preciso, cara prima. Eu acho que meu amigo FitzMoke me leva at em casa, sem achar ruim.
       Vendo-o coxear at o burrico, ela perguntou:
       - Sua perna... Acha que est quebrada?
       - Oh, creio que no. Deve ter sido um mau jeito, apenas. - Montou o burrico, com uma leve careta de dor, e conduziu o simptico animal at perto de Valentina. 
- Graas  trapalhada da sua irm, hoje no vou fazer a inspeo, para ver o que conseguiram arrumar na manso. Ganharam um dia... Como sabe, sou um traidor e depravado, 
coisa que qualquer pessoa por aqui saber lhe informar. Por minha parte, devo reconhecer que seu pai soube educ-la muito bem, prima. Seu irmo tambm me parece 
excelente rapaz: vai ser um homem valoroso depois de crescer e adquirir experincia da vida. Ento, por que algum aqui no pega aquela pestinha da sua irm e a 
ensina a ser mais ajuizada e menos egosta?
       - Sidonie sempre foi uma criana de sade delicada... - explicou Valentina, abaixando a cabea. - Acho que talvez a tenhamos estragado com excesso de mimo 
e proteo, para compens-la, tambm, por no ter papai e mame a seu lado, como ns, os velhos, tivemos. E ela no passa de uma criana.
       - Criana? Pode ser! Mas com os encantos prprios de uma sereia e mentalidade  altura! No a deixe solta por a, sem acompanhante, senhorita!
       O burrico afastou-se com a pesada carga. Charles de Michel precisava manter os ps erguidos para que no arrastassem no cha. Era engraada a cena, mas Valentina 
no lhe viu a graa. Preocupada, entrou em casa.
       A famlia encontrava-se reunida na sala de visitas, os trs sentados, com Sidonie chorando perdidamente nos braos do irmo, enquanto tia Clara repreendia, 
com ar zangado e severo:
      - ... no apenas boba, mas tambm irresponsvel! Voc quase envolveu seu irmo em um duelo que, tenho absoluta certeza, seria intil e traria consequncias 
trgicas para o impetuoso Leslie.
      - Eu... eu jdi... disse que pe... peo perdo! - soluou a mocinha. - Mas Va... Valentina... e ... ela gosta de... dele! E... ela no se im... importa que 
ele me te... tenha insultado!
      - Pelo que me parece, voc encontrou o sr. De Michel em um passeio... alis totalmente imprprio! No devia ter sado pelo campo sem acompanhante!
      - N... no quero fa... falar nisso!
      - Mas vai falar, mocinha! - exclamou lady Clara, com uma firmeza insuspeitada na voz e no olhar, em geral to compreensivo e doce. - Charles de Michel  um 
homem perigoso, tem pontaria mortal. Agora, Sidonie, voc vai se explicar. Deu a entender que um homem desrespeitou sua honra e ps a vida de seu irmo em perigo 
com isso. Vamos, menina: explique o que o sr. De Michel lhe fez!
      A mocinha ficou angustiada, olhou para os trs e, como no viu um gesto sequer de apoio, suspirou, comeando:
      - Ele... ele quase me atropelou com seu cavalo.
      - Meu Deus! - assustou-se Valentina. - Quer dizer que voc saiu fugindo dele e...
      - Bem... eu ia fugir. Quando me levantei e sentei...
      - Senhor?! - surpreendeu-se lady Rustwick, no querendo acreditar no que ouvira. - Quer dizer que voc estava deitada menina?
      Sidonie atrapalhava-se cada vez mais.
      - Bom, eu estava embaixo de uma rvore e...
      - Como ? - estranhou Valentina. - Ser que o sr. De Michel  um cavalheiro to estpido que cavalga entre rvores?
      - Quer dizer, no era bem embaixo da rvore, entende. Era mais ou menos perto... - Ao perceber os olhares reprovadores dos trs parentes que a ouviam, ela 
acrescentou, rpida: - Ele disse que no me viu, mas...
      - Claro que no podia v-la, Sidonie! Seu vestido  cor de mato! - interrompeu-a o irmo. - E quem ia esperar que uma lady se encontrasse deitada no mato? 
Isso foi tudo o que ele fez?
      - Claro que no! Ele ficou dizendo improprios, palavres prprios da boca suja de um pirata... gritando que levou o tombo por minha causa!
      A essa altura, Leslie Ashford no pde deixar de sorrir, enquanto comentava:
      - Ah, sim... Quer dizer que voc levantou-se de repente e soltou um grito... o cavalo empinou, assustado, e l se foi o cavalheiro pelos ares!
      - ... Mas eu no gritei com ele! At procurei ser bem feminina, falei com meiguice, procurei amparo...
      Valentina entrecerrou os aveludados olhos castanhos e continuou:
      - ... nos braos dele! Muito bem, irmzinha! Homem de sangue quente como  Charles de Michel, como poderia ter resistido?
      - Sangue quente? Ele  mais frio do que um peixe! - exclamou Sidonie, sem tentar esconder a decepo.
      Lady Clara no conseguia mais se conter:
      - Voc quase desmaiou, ento, no foi? Uma mocinha, to indefesa e ele... aquele patife libertino! Ento, ele olhou para voc, to prxima dele, to desamparada 
e...
      - Foi o que eu pensei, titia! - Sidonie fez um gesto de profundo desalento. - Mas aquele insensvel apenas disse: "No tente me namorar, garota!" E, como se 
esse insulto no bastasse, acrescentou: "Eu no gosto de jardins-de-infncia!" Vocs imaginam o...
      Mas os trs explodiram em risadas.
      - Isso mesmo! Podem rir! - gritou a mocinha, batendo os ps no cho, furiosa. - Acho que vo rir mais ainda quando souberem que aquele grosseiro libertino 
veio montado no burrico e me fez andar toda essa distncia!
      Lady Clara parou de rir e comentou, com severa seriedade:
      - Ento, quer dizer que tudo aconteceu porque voc, desde o incio, estava errada?
      A mocinha fez biquinho, magoada, pensando que algum dia, de algum jeito, Charles de Michel iria pagar caro aquela humilhao. Ele ia ver quem era Sidonie Margaret 
Ashford e quem riria por ltimo!
      Enquanto a agitada reunio familiar se desenvolvia, o varal, mal apoiado no comprido bambu e pesado demais com as roupas, veio abaixo. Quando descobriram o 
desastre, Mandarim j havia passeado vrias vezes, com as patinhas sujas de terra, sobre as toalhas de mesa, de banho, as colchas, lenis e tudo mais. As mulheres 
teriam de comear tudo de novo, lavando as roupas e estendendo-as.
      Haviam feito planos de recuperao da casa pensando dedicar uma semana para cada piso. S que no tinham levado em considerao que no meio tempo era preciso, 
tambm, cuidar da sobrevivncia:
       comprar alimentos, cozinhar, lavar e passar roupas, limpar os aposentos que utilizavam... Nesse dia, por exemplo, deveriam tratar de limpar e arrumar a biblioteca, 
mas tudo j sara de controle.
       Era um dia bastante quente, de calor quase insuportvel. Valenti-na lidava para enxugar a colcha pesada, que j ensaboara e esfregara de novo, quando comeou 
a sentir as pancadas da bomba de gua acionada por Horace repercutirem dolorosamente em sua cabea. Suas mos, delicadas porm fortes, mal conseguiram torcer a pea, 
eliminando dela a gua e sabo, para enxaguar de novo, sem conseguir retirar muito o sabo de cada vez. Por fim, a gua da tina ficou limpa e ela colocou a colcha 
torcida no cesto de roupa para estender. Quando ergueu a tina para jogar fora a gua usada, cambaleou e derramou gua no prprio corpo.
       - Oh, diabos me levem! - exclamou, furiosa, olhando o avental e a frente do vestido completamente molhados.
       - Que  isso? Uma lady praguejando?
       Charles de Michel encontrava-se diante dela, todo sorridente, trajado com elegncia. O palet, em corte e padro da ltima moda, combinava com a obra-prima 
de uma gravata linda, presa com magnfico e resplandecente diamante. A cala era de um cinza-prola, contrastando com o cinza-grafite do palet, e as botas negras 
brilhavam tanto que pareciam espelhadas.
       Ficando srio, ele a olhou de alto a baixo, com ar crtico, o que a fez ter conscincia de como estava mal trajada.
       - Primo - suspirou a moa -, isso  o cmulo da falta de gentileza!
       A testa dele franziu-se e os olhos pareceram fuzilar, por um rpido instante.
       - Por que insiste em lutar sozinha? Cada vez que a vejo  voc que est fazendo o trabalho mais pesado ou revolvendo os problemas mais complicados! Onde est 
aquele rapaz forte e enorme, que  seu... irmozinho?
       - Foi a sua casa, primo, para pedir-lhe desculpas em nome de ns todos...
       - Ele foi, pediu desculpas e voltou. Deveria estar aqui, ajudando ou fazendo sozinho os trabalhos pesados.  grandalho o bastante para isso!
       Ela pegou uma ponta do avental, ainda seco, e limpou a espuma de sabo que lhe respingara no rosto.
       - Ele tambm tem trabalhado duro, acredite. Mas, infelizmente, h coisas rotineiras que no podemos deixar de fazer e tomam muito do nosso tempo...
       - Sua tia e sua irm  que cuidam dessas coisas "rotineiras", por acaso?
       Valentina ergueu o queixinho voluntarioso e evitou responder diretamente:
       - Minha irm, sir, no momento foi colher pras que sero a sobremesa do nosso jantar, hoje. E tia Clara deve encontrar-se no estbulo, com uma pobre gata 
que deu cria a vrios gatinhos e...
       - Incrvel! - interrompeu ele, brusco. - Desse jeito vocs nunca iro conseguir terminar de arrumar a casa no tempo combinado. Bem, no quero ser eu a atras-la 
ainda mais. Vou continuar a inspeo...
       E afastou-se, mancando, deixando Valentina ainda mais zangada.
       A moa voltou-se para a mquina de torcer roupa, que era um aparelho engenhoso, bastante fcil de se manejar: enfiava-se a roupa molhada entre os dois rolos 
de madeira, acionava-se uma manivela que os movimentava e eles iam empurrando-a para o outro lado, espremendo-a, de modo a retirar todo o excesso de gua que continha.
       Enfiou a colcha, que continuava teimando em molh-la mais, por uma das pontas. Vrias vezes teve de agir depressa, pois a danada da colcha parecia determinada 
em escapar-lhe das mos e cair no cho, sujando-se pela terceira vez. Dominou-a, corajosamente, enfiou a ponta entre os rolos e segurou-a com uma das mos, enquanto 
a outra girava a manivela, sem sucesso. O pano teimava em no entrar entre os roletes.
       - Que drama faz com as coisas mais simples, priminha! - Era a voz de Charles de Michel, de novo. - No  assim que se faz!
       Ela bufou. Como se no bastassem todos os seus pesares, l estava aquele bandido de novo. Conteve a raiva e procurou falar com calma:
       - De todas as pessoas que... - E interrompeu-se boquiaberta, ao ver que ele tirava o palet e arregaava as mangas da camisa.
       - Com licena, lady - pediu, aproximando-se do aparelho de torcer roupa. - Deixe que este tirnico senhor a ensine como se faz.
       - Oh, no, primo! Est bem-arrumado, to elegante e eu no queria que...E a senhorita est molhada, cansada, com o rosto afogueado por estar tanto tempo ao 
sol. No quero que se possa dizer que este libertino permitiu que uma linda senhorita se matasse de tanto trabalhar. O problema, querida lady Valentina,  que est 
querendo colocar tudo de uma s vez...
       Girou a manivela para trs; Valentina gritou e conseguiu segurar a ponta da colcha antes que ela casse no cho. Colocou-a no cesto, suspirando.
       - Bem... hum... - fez o sr. De Michel, j com a camisa molhada. - Claro... Precisamos dobrar a colcha. Voill Tudo se torna mais fcil quando tratado de um 
enfoque cientfico e lgico... Por favor, segure esta ponta enquanto eu giro esta... isto aqui...
       - Manivela, primo. O nome  manivela. Por favor, cuidado! No v sujar a colcha de novo, que eu morro!
       - Observe e aprenda, cara senhorita - disse ele, com ar de grandiosa superioridade. Guiando o tecido molhado para ajud-lo a entrar entre os rolos, inclinou 
para a frente, dizendo: - Todas as queixas femininas sobre o terrvel trabalho de uma casa no passam de...
       E ele parou de falar, abaixando-se mais a fim de ver melhor a juno dos rolos secadores.
       Valentina tratou de ajud-lo com a manivela, que no conseguia girar.
       - No est entrando mais, primo?
       Ele no respondeu e, quando ela forou, girando a manivela , ele gritou:
       - Socorro! - enquanto sua cabea aproximava-se dos rolos de madeira at encostar neles.
       - Charles! - exclamou ela, assustada. - O qu...
       - No! - berrou ele, enquanto ela lutava por continuar girando a manivela, sem perceber o que acontecia. - Pare! Voc... est... me estrangulando!
       Empalidecendo, Tina parou de girar a manivela. Com o rosto encostado nos roletes, enfiada nas dobras da colcha, ele ainda conseguiu dizer:
       - A... ma... manivela... ao con... contrrio...
Comeando a entender, ela girou a manivela ao contrrio e aos poucos o rosto do cavalheiro foi sendo descoberto, ao mesmo tempo que os roletes devolviam a colcha 
e a magnfica gravata dele.
       - Oh... meu Deus!... - exclamou a moa, lutando para no rir.
       Afinal ao sr. Charles de Michel ficou completamente solto e a encarou, com o rosto muito vermelho, enquanto, apertando a boca com as mos, Valentina era sacudida 
pelo riso irreprimvel, ao mesmo tempo que as lgrimas lhe corriam pelo rosto. Foi nesse momento que seu irmo Leslie chegou  porta de trs da casa e parou, surpreso, 
observando sem entender a irm molhada e o primo, descabela-
       do e no menos molhado do que ela.
       - Pelo amor de Deus! O que aconteceu agora? - perguntou, com os olhos arregalados.
       - Eu conto! - respondeu o sr. De Michel irado, tentando fazer-se ouvir entre os frouxos soluos de risos abafados de Valentina, que pareciam gemidos. - Falta 
de senso de gratido da sua irm! - E enquanto ela, sem suportar mais, explodia em uma gargalhada regada de lgrimas, ele ergueu ainda mais a voz sonora. - Estou 
inclinado  a  pensar,   meu   caro  Ashford,   que  a  sua  famlia   completamente sem juzo!  um desastre, mesmo!
       Lady Clara reuniu-se aos sobrinhos quando o enfurecido cavalheiro j havia ido embora. Comentou, toda emocionada:
       - A gata teve seis gatinhos, Tina. Lindinhos!... E eles... O que  isto? Que balbrdia, santo Deus! Era disto que o primo de vocs, Charles de Michel, estava 
rindo? Ele saiu daqui s gargalhadas, rindo como se tivesse ficado completamente doido.
       O anoitecer era deprimente, com pesadas nuvens negras acumuladas no horizonte, relmpagos iluminando-as sinistramente a intervalos regulares, numa evidente 
ameaa de temporal. Apesar disso, Sidonie e Leslie haviam sado para dar uma voltinha rpida com Mandarim, enquanto lady Clara e Valentina, sentadas uma de cada 
lado de um candelabro, para aproveitar a luz das duas velas, remendavam roupas e conversavam.
       - Titia, no acabou de me contar sobre madame Ruth de Michel... - disse a moa, de repente. - Por que a detesta tanto?
       - No seria nada cristo eu comentar isso, menina - respondeu lady Rustwick, fria. Depois, bufou e, espetando raivosamente a agulha na almofada para alfinetes, 
colocou os princpios cristos de lado. - S porque sempre foi linda ela pensa que o universo foi criado para ela! Voc pode estar achando que sou velha invejosa, 
mas...
       - Parece que vai chover! - exclamou o jovem Ashford, entrando espalhafatosamente com a irm mais nova. - Vimos os gatinhos, titia. Parecem ratinhos molhados!
       Olhando para a pilha de roupas que aguardava conserto, Sidonie foi logo dizendo:
       - Esse ar pesado, deprimente, da tempestade se formando, me deu dor de cabea. Acho que vou me deitar e dormir um pouco...
       - Coitadinha!  uma daquelas dores de cabea terrveis, a enxaqueca? - perguntou Valentina, preocupada e com pena da irm. Ainda no e espero que no! - respondeu 
Sidonie, beijando-a.
       Lady Clara bocejou e ps a costura de lado.
       - Acho que no vou subir com voc, meu bem - disse para a mocinha e, olhando ao redor: - Onde est Mandy?
       Acomodado numa poltrona, lendo o Times do dia anterior, Les-lie Ashford respondeu:
       - Mandarim no quis entrar, tia. Eu acho que ele est com muito calor.
       Valentina prometeu  lady que iria procurar o cozinho, quando terminasse as costuras, e continuou trabalhando, enquanto o irmo lia as notcias em voz alta, 
para ela. De vez em quando, opinava a respeito.
       - Este comentarista diz que o general Wellington est sendo criticado por se deslocar com muita lentido, rumo aos Pirineus. Ser possvel que nunca se est 
satisfeito? Esse militar tem sido genial em suas batalhas!
       - Isso  verdade - concordou Valentina.
       "Ser que ele amou, mesmo, lady Locks? Eu no havia notado que h uma marca no queixo dele..." pensava, no entanto, em vez de prestar ateno no que o irmo 
dizia.
       - O que eu no daria para estar lutando com ele! - exclamou o rapaz, fechando o jornal e jogando-o de lado.
       - Lutando com quem? - perguntou a moa, que se distrara. - Ah, sim!... na Espanha, no ?
       - O general no ir ficar muito tempo na Espanha. Aposto que logo ir cruzar a fronteira. Eu devia estar fazendo algo pelo nosso pas, no entanto fico aqui, 
sentado, quietinho como uma mulher!
       Valentina ergueu os olhos e disse, contrita:
       - ... Deve ser muito duro para voc, querido!
       - Duro? Estou preso numa jaula! - O rapaz levantou-se e comeou a andar de um lado para o outro. - Estava certo de que o tio Silas ia me arranjar um lugar 
na Marinha. Eu contava muito com isso. Mas ele nada fez e eu no tenho dinheiro suficiente para comprar uma patente... Que vou fazer? Apodrecer neste fim de mundo, 
junto com Charles De Michel?
       - Eu entendo que isto deve ser muito triste para voc... - concordou ela, aflita.
       De repente, o rapazinho se aproximou e ajoelhou-se aos ps da irm.
       - Como eu sou horrvel, Tina! Vivo me queixando... S fico aqui, pensando em mim mesmo, enquanto voc no pra de trabalhar por ns. Seus olhos esto vermelhos 
de tanto cansao. Voc no parou desde que se levantou, ao amanhecer! Ela sorriu e acariciou o rosto de Leslie, respondendo com ternura:
       - No era to cedo assim... Gosto muito do campo, o que me ajuda; no entanto torna-se tudo mais difcil para vocs. Mas as coisas vo melhorar, eu tenho certeza.
       Ele abaixou a cabea, enquanto dizia:
       - Se, pelo menos, eu conseguisse um jeito de sustentar vocs! -Suspirou, erguendo-se, inclinando e beijou-a. - Perdoe-me, Tina...
       - No tenho o que perdoar. Voc  jovem, Leslie, cheio de vida, de esperana, de sonhos e de coragem.  natural que sinta vontade de escalar suas montanhas, 
estejam onde estiverem e por mais altas que sejam. Tenha um pouco mais de pacincia, querido. Alguma coisa boa vai nos acontecer, eu sei que vai!
       Ela ainda pensava nessas palavras quando, uma hora mais tarde, saiu em busca de Mandarim. A tempestade passara ao largo, mas deixara um vento morno, que movimentava 
as nuvens no cu e elas escondiam de vez em quando a lua em quarto crescente.
       Valentina chamava, bem alto, de quando em quando, mas o cozinho no atendia. Procurou no jardim, no bosque atrs da casa, na estrebaria, no estbulo e nada. 
Se o animalzinho tivesse se perdido e sumisse, tia Clara iria ficar muito magoada. Estava ficando tarde e a moa sentia cada vez mais o cansao do trabalhoso dia, 
mas estava ansiosa pelo cozinho, no queria voltar para casa sem ele.
       Quando chegou ao topo de um outeiro  que percebeu o quanto se distanciara, distrada com a busca. No dia anterior repreendera severamente a irm por ter 
sado sozinha, durante o dia, e agora ali estava, altas horas da noite. Com Mandarim ou sem Mandarim, precisava voltar.
       Ao virar-se e ver a manso a distncia, a srta. Ashford sentiu-se invadir por um medo sbito. Desceu do outeiro e procurou andar junto da cerca viva, como 
se isso a protegesse.
       Parou, de repente, ao ouvir tropel de patas de cavalo. Para sua mente em pnico, apavorada como se encontrava, nem sequer pensou que poderia ser simplesmente 
um pacfico senhor indo para a casa dele.
       Pelo barulho, percebia que o cavaleiro j se encontrava bem prximo. Conseguiu v-lo, ento. Devia ser um bom cavaleiro e estava com pressa, pois inclinava-se 
sobre o cavalo, com a capa tremulando atrs dele, que parecia voar no rpido galope.
       Mais assustada ainda, Valentina se encolheu na sombra e o cavaleiro passou to perto dela que teve impresso de que se esticasse o brao sua mo o teria tocado.
       No momento em que ele passou a lua saiu de trs de uma nuvem e iluminou a paisagem. O chapu do cavaleiro tinha aba voltada para trs, devido ao vento, e 
ela pde ver o rosto plido, contorcido pela raiva, os olhos semicerrados e os cabelos esvoaando sobre a testa alta.
       Era Charles de Michel.

       CAPTULO IV

       -Ora, veja s! Pegamos a traa devorando um livro, meu caro Stane!
       Sidonie, sentada no cho e encostada na estante, deixou o livro que tratava de artes cair sobre o colo, tal foi o susto que levou. Diante dela, muito altos 
vistos assim de baixo, estavam seu primo De Michel e um rapaz forte, de cabelos ruivos e olhos azuis com expresso meiga. Ele lhe estendeu a mo, num gesto atencioso, 
a fim de ajud-la a levantar-se.
       -Apresento-lhe a srta. Trabalhadeira... - comeou Charles, depois corrigiu: - Isto , a srta. Sidonie Ashford. Senhorita, este  meu primo, lorde Samuel Stane.
       A mocinha lanou um olhar mortfero ao sr. De Michel e, fazendo uma reverncia delicada, murmurou para o rapaz, que ameaava derret-la com o intenso calor 
de seu olhar.
       -  um prazer, milorde.
Ele curvou-se, gentil:
       - O prazer  deste seu criado, milady.
       -Hum, hum - pigarreou o primo Charles. Depois, falou: - Ser que posso pedir-lhe que interrompa seu... trabalho, cara prima, e chame sua irm?
       Por instantes, os lbios da mocinha se apertaram, suas mos se fecharam, com fora, em punhos ameaadores, e por um momento ele pensou que seria atacado. 
Mas no instante seguinte Sidonie saiu correndo da biblioteca, deixando ouvir seus soluos.
       - Primo, foi duro demais com ela e a fez chorar! Ainda  quase uma criana...
       - Filhote de tigre seria a definio mais apropriada para ela, rapaz. Cuidado, Sam, para no ser devorado!
       Enquanto isso, a "filhote de tigre" entrou correndo na lavanderia, onde Valentina encontrava-se passando uma montanha de roupas. Parou e, com entonao teatral, 
exclamou:
       -Prepara-te, empregada de pedinte! O Sapo Sujo, mais irritante e mais mal-educado do que nunca, te espera na biblioteca.
       Valentina encarou-a, sria, colocando o ferro de engomar sobre o descanso.
       - Por acaso - indagou - est se referindo ao nosso benfeitor?
       - Refiro-me ao sr. Charles de Michel, que no considero nosso benfeitor. Refiro-me quele monstro meio francs em cujas mos sabe-se l quantas almas j pereceram!
       - Sidonie, chega! - Os olhos castanhos de Valentina soltavam fascas. -  uma infantilidade xingar dessa maneira nosso primo, alm de ser uma coisa vergonhosa 
e injusta acusar um cavalheiro de coisas que voc no tem a menor certeza!
       E, sem nem sequer olhar de novo para a irm, saiu do quartinho, mas voltou em seguida. Tirou o avental e deu um jeito nos cabelos, com as mos mesmo. Ento 
foi para a biblioteca. Quando entrou viu o sr. De Michel andando, ainda bastante manco, de um lado para outro, vestido com roupas de montar. Parado perto de uma 
janela estava um rapaz muito bonito, forte a ponto de parecer que os ombros largos iriam romper as costuras do palet a qualquer instante.
       - Eu trouxe um amigo para me proteger... - exclamou Charles de Michel, com ar zombeteiro. - Tenho medo de que um dia algum aqui me faa em pedaos...
       Valentina observou melhor o rapaz, muito alto, alm de forte, e comentou brevemente que seu visitante havia escolhido muito bem seu protetor.
       Ao ouvir aquilo o sr. Stane corou de prazer, principalmente ao perceber que Sidonie encontrava-se parada  porta, lanando-lhe olhares significativos.
       - No acredito que Charles precise de alguma proteo diante de senhoritas to encantadoras! - comentou, galante.
       - Realmente, os receios dele so infundados, pelo menos por enquanto - retrucou a srta. Valentina.
       Foi nesse momento que, suado e muito vermelho, o jovem Leslie Ashford entrou na biblioteca, com uma escada.
       - Meu caro Ashford! - exclamou o sr. De Michel. - Bom dia!
Acredito que j conhece Samuel Stane. - E, sem esperar resposta, prosseguiu: - Ainda bem que est aqui, ajudando um pouco. Da maneira como os trabalhos vo indo, 
acredito que estas senhoritas jamais o terminaro... Nem sequer a poeira - e passou um dedo em cima da escrivaninha, mostrando-o sujo - foi eliminada!
       - Eu gostaria que no falasse conosco dessa maneira! - revelou-se o jovem Ashford. - O que pensa que somos, afinal? Minhas irms e minha tia so ladies, sabe 
que somos de uma excelente famlia da alta sociedade e eu...
       - E o senhor acha o trabalho que faz deprimente? - completou o sr. De Michel, batendo com a ponta do rebenque de leve, no prprio queixo. - Gostaria, talvez, 
com seu profundo zelo patritico, de estar na frente de batalha, defendendo seu pas?
       - Pela minha alma - explicou o rapaz -, juro que sim! Eu queria demais estar lutando, estar em ao. H pouqussimo a ser feito por aqui.
       - Nem to pouco assim - comentou o sr. Stane, com seu sorriso aberto, agradvel. - Na noite passada tivemos mais um ataque...
       O sr. De Michel indagou:
       - Outro ataque? De quem, o Cavaleiro Misterioso de novo? Desse jeito a cabea dele vai ser colocada a prmio... Quem ele atacou desta vez?
       - Lock... - A expresso do sr. Stane tornou-se grave. -Roubou-lhe uma bolsa cheia de dinheiro e outros valores. Como se no bastasse, insultou-o, dizendo-lhe 
que ele no passava um covarde boca suja. E quando o sr. Lock zangou-se, perdendo a pacincia, o assaltante desafiou-o para um duelo ali, naquele mesmo instante, 
diante da dama que acompanhava o cavalheiro e que, alis,  esposa dele.
       - Que romntico! - entusiasmou-se Sidonie, os olhos bonitos muito abertos de emoo.
       - Que estpido! - contraps o sr. De Michel. - O assaltante poderia ser preso enquanto perdesse tempo duelando.
       - Pois duelaram e o Cavaleiro Misterioso demonstrou ter excelente pontaria: simplesmente, arrancou a pistola da mo do sr. Lock, depois, na maior calma, roubou 
um beijo da esposa dele, quase o matando com um ataque de apoplexia.
       Sidonie, no conseguindo se conter, comeou a aplaudir, encantada com a narrativa.
       - Felizmente - comentou Charles de Michel, muito srio -, no sa ontem  noite. Caso contrrio, o sr. Derwent no hesitaria em me acusar de ser o Cavaleiro 
Misterioso!
       Valentina olhou-o, entre surpresa e curiosa, enquanto o sr. Stane dizia:
       - Hoje, na taverna The Snow's Ear, no se falava em outra coisa.
       - Preciso contar essa novidade a minha me para mostrar-lhe que no campo h muito mais movimento do que ela pensa! - exclamou o sr. De Michel. Fez um cumprimento 
geral com a cabea e foi embora, acompanhado pelo amigo que fez o mesmo.
       - "Estas duas senhoritas jamais terminaro..." Esse De Michel  muito grosseiro e desagradvel! - comentou Leslie Ashford, ainda zangado. - Eu bem que gostaria 
de saber o que ele faz na vida, como passa o tempo dele!
       - Endeusando Napoleo,  claro! - respondeu Sidonie, com uma careta de desprezo.
       - Sim? E eu vi muito bem como lorde Stane endeusou voc...- retrucou Valentina.
       - Aquela enorme criatura boba? - escarneceu a mocinha, sacudindo os ombros. - Bom, na verdade ele  um amor! E eu sei que fui maldosa, de novo, com nosso 
primo. Desculpe, Tina. Prometo que no vou mais cham-lo de Sapo Imundo!
       - Da ltima vez era apenas Sapo Sujo - lembrou a irm mais velha, sorrindo.
       Mas pensava em outra coisa: ele saiu, sim, ontem  noite... por que mentiu, ento?
       O cu, de um azul de porcelana, parecia ter um suave brilho prprio, mas o sr. De Michel parecia no ver nada disso, mergulhado nos pensamentos, enquanto 
seu amigo lorde Stane cavalgava ao lado dele.
       - Sua conscincia est doendo, Charles? - perguntou o rapaz.
       - Pelas salamandras todas do inferno! Estou deixando essa famlia viver na minha casa, por que minha conscincia iria doer? -E, percebendo que se trara, 
respondendo ao "por qu" da pergunta sem este ter sido formulado, exclamou, com raiva: - Diabo, Sam! Voc me conhece bem demais...
       - No entendo voc, meu caro. Poderia fazer tudo que est fazendo com um sorriso nos lbios e ser adorado por isso. No entanto, prefere ser agressivo e odiado. 
Voc  o seu prprio pior inimigo!
Seria bom que lembrasse de uma coisa: no se apanha moscas com vinagre, mas sim com mel.
       Por longos momentos, Charles de Michel deixou que apenas os sons dos cascos dos cavalos quebrassem o silncio do radioso dia. Depois, falou, quase num murmrio.
       - Tenho muitos motivos para no querer a famlia Ashford na Wyenott Towers. O fato  que a srta. Valentina me forou a permitir que ficassem e estou retribuindo 
do mesmo modo. Aquela moa tem um orgulho que se iguala a sua beleza.
       - Voc reparou, quando ela se ergueu, zangada, para ir chamar a irm, como seus pezinhos so pequeninos e lindos?
       Eu me referia  irm mais velha, Sam! - respondeu o sr. De Charles e sorriu. - Hum... Parece que desta vez voc caiu, meu amigo!
       Valentina provou um gole da limonada fria e suspirou de prazer. Com as faces ainda afogueadas pelo exerccio recente, encarou o sr. De Michel, que se encontrava 
do outro lado da mesa. Mas seu olhar estava distante, pensativo. O sol j estava bastante baixo, no cu, a sombra de enormes e antigos carvalhos os protegiam, pois 
encontravam-se acomodados a uma das mesinhas externas da taberna The Snow's Ear.
       - Como elas gritavam! - comentou a moa, por fim olhando mesmo para ele, que virou o rosto para o outro lado. - Nunca imaginei que as crianas do povoado 
gostassem tanto do senhor, primo! E nunca pensei que poderamos brincar com elas da maneira que fizemos.
       - A verdade  que aquela molecadinha insuportvel me obrigou a isso. No sou mais dono da minha vida, principalmente nestes ltimos dias! - E olhou-a com 
expresso acusadora.
       - De qualquer modo, gostei muito de v-la aceitar meu convite e entrar na brincadeira. Sabe, corre muito bem, prima! E tem uma resistncia, um flego incrveis.
       - Tenho bom treino: o trabalho rude desenvolve a resistncia -explicou a moa, retribuindo a agresso.
       Ele pareceu no sentir a alfinetada.
       - Assim mesmo, tenho a impresso de que gostaria mais de estar em Londres...
       - E por que pensa isso?
       -  evidente! Todas as jovens adoram bailes, movimento e diverso. O auge da ambio das ladies  escolher vestidos, jias e enfeites que as tornem mais lindas 
do que as outras, depois exibi-los em reunies e festas!
       - S que existem ladies como eu, caro primo, que preferem a pera, o teatro ou um bom livro em vez de bailes e reunies sociais... Rarssimas, minha cara! 
A maioria das senhoras e senhoritas
vai  pera para ver quem est l acompanhando quem, vestida como... enquanto os senhores preocupam-se com as pernas das bailarinas. No teatro, ento, chega a ser 
difcil escutar o que os atores dizem, to agitada e barulhenta  a plateia. Duas horas de cordas arranhadas muitas vezes fora do tom, acompanhando sopranos que 
gemem agudamente... - Ele simulou um arrepio, enquanto exclamava: - Um verdadeiro purgatrio!
       Ela no pde deixar de rir do jeito engraado como o sr. De Michel fizera os comentrios.
       - Pelo jeito, nada o agrada, senhor! Que me diz do famoso White Club, do Waltier e outros famosos refgios dos homens?
       Imediatamente o rosto dele se tornou escuro e frio, o simptico brilho de ironia e bom humor abandonou os olhos negros.
       - A ltima vez que transpus o sacrossanto umbral do White, cara prima, fui educadamente... Bem, no to educadamente assim, convidado a sair.
       Ao ver a expresso de raiva e dor que o primo no pde esconder, ela tratou de comentar, depressa:
       - Papai sempre dizia que os melhores lugares para se conversar eram os menos concorridos pela sociedade... E meu irmo Lincoln ia sempre  taberna junto do 
Tamisa, chamada... Oh, como era, mesmo? Alguma coisa como fantasmas felizes...
       - Espritos Alegres, talvez? E, acredite, ele estava certo. Que noites sensacionais eu passei naquele local de reputao duvidosa... E os frequentadores? 
Atores exibindo seus dons sem outro motivo que o prazer de representar. Poetas declamando suas ltimas poesias, certos de que ali se encontravam pessoas capazes 
de lhes dar o devido valor. Msicos tocando, descontrados, felizes por mostrarem sua arte sem compromisso de ganhar ou agradar... Precisaria estar l para v-los, 
ouvi-los tocar e cantar, srta. Valentina! Cada um apresentava alguma composio prpria, cantava uma balada composta por ele mesmo... - Suspirou, nostlgico. - L, 
em torno da lareira, nas noites de inverno, era muito melhor do que no teatro, na pera.
       Valentina observava o primo, surpreendida com o Charles de Mi-chel que conhecera naquela tarde. Por mero acaso, haviam se encontrado na praa central do povoado. 
Ele estava brincando com um bando enorme de meninos e meninas, que pareciam ador-lo. Ento, o primo a convidara para participar da gritaria e do corre-corre. Havia 
sido mais de uma hora de jogos e brincadeiras... Agora, esta outra faceta da personalidade dele...
       - Ento, se o seu irmo ia  taverna Espritos Alegres talvez eu o conhea - comentou ele. - Lincoln, no ? Ele ainda est em Londres?
       - No... Est lutando, na Espanha.
       Toda animao desapareceu do rosto do sr. De Michel.
       - Oh...
       - Vivo rezando para ele voltar logo - continuou a moa. - Ele  um rapaz muito bom, encantador e sentimos muito a falta dele, em casa e... Oh, meu Deus! Por 
falar em casa, eu vim aqui por causa do Mandarim e me esqueci completamente dele!
       - Mandarim? Hum... Acho que conheci essa coisinha minscula e maluca!
       - Ele desapareceu ontem  noite, l de casa. Tia Clara est muito triste, deprimida. Passou a manh inteira  procura dele. Por isso vim at a vila, perguntar 
se algum, por acaso, viu Mandy. Preciso ir, primo. Boa...
       - No, espere um pouco, Eu acho que...
       Dez minutos depois, o sr. De Michel estalava as rdeas, inutilmente, tentando animar a velha gua que puxava a estropiada charrete em que se encontravam, 
aos solavancos provocados pela estrada cheia de buracos.
       - Peo que me perdoe, cara prima, mas na certa esta velha gua foi a me do cavalo de Alexandre, o Grande. Aposto que nenhuma tartaruga perde uma corrida 
para ela! Eu devia ter pedido a algum para ir buscar meu carro leve, de uma parelha de cavalos.
       - No faz mal, estamos quase chegando, no ? - perguntou ela. A um aceno positivo dele, falou: - Por que acha que Mandy caiu no grande buraco da pedreira? 
Ser que ele morreu? Ah, meu Deus, espero que no! Tia Clara morreria de tristeza se isso acontecesse!
       - So apenas suposies - comentou o sr. De Michel e deu alguns estalos com a lngua, disse umas palavras ininteligveis, tentando animar a velha gua. - 
Vamos falar claro, querida prima? Eu acho que est se sacrificando inutilmente... - Ela abriu a boca, mas ele no a deixou falar, prosseguindo: - Suponha que no 
termine a reforma de Wyenott Towers no tempo estipulado... Suponha que sua irmzinha v embora com Samuel Stane...
       - Oh, por que diz isso? - conseguiu perguntar a moa.
       - Porque vi que a senhorita tambm percebeu, hoje de manh, os olhares que aqueles dois trocaram. Bem, continuando: suponha que eu seja, mesmo um sapo sujo, 
ou seja, um bonapartista nojento e suponha, tambm, que eu seja o Cavaleiro Misterioso!
       Valentina abafou uma exclamao e ele riu, irnico.
       - Sim... Eu percebi tambm isso no seu rosto, hoje de manh, assim como percebi que ontem  noite estava escondida junto  sebe e me viu passar!
       - Eu no me escondia, senhor! Procurava Mandarim e ao v-lo sa do caminho, para no ser morta por um cavaleiro louco em disparada!
       - Se eu fosse o seu irmo no admitiria essas loucuras. Ladies de respeito no andam sozinhas, muito menos depois do anoitecer.
       - E, mudando de tom, indagou: - No vai me perguntar o que eu fazia, cavalgando  noite e depois negando esse fato?
       - No! - retrucou ela, num impulso. Ento, depois de pensar
um instante, tornou a falar. - O senhor  o Cavaleiro Misterioso?
       Ele inclinou a cabea para trs enquanto soltava uma sonora gargalhada.
       - Prima, sempre faz perguntas assim, diretas?
       - Fao, quando sou provocada. E tenho certeza de que me disse aquilo tudo justamente para me provocar.
       - E tinha razo, pois fica linda quando se zanga... - Os olhos negros brilharam intensamente.
       Valentina enrubesceu e ficou zangada consigo mesma por isso, o que a deixou mais confusa ainda. Ia dizer alguma coisa quando Charles de Michel deteve a gua.
       - Por fim, chegamos! - exclamou, saltando da charrete e segurou-a no ar, por instantes, enquanto dizia, sorrindo:
       - No fique a, parada desse jeito, moa! - E colocou-a no cho. - Precisamos encontrar Mandarim antes que escurea...
       Ela no respondeu e afastou-se dele, ento levou um susto: estavam  beira de uma enorme escavao, com uns duzentos metros de largura e uns quatrocentos 
de comprimento. A profundidade devia ser de uns dez metros. Apenas um mato rasteiro alastrava-se pela beirada, entre as pedras. Havia uma escada de madeira, feita 
para se chegar ao fundo, e percebia-se que alguns degraus estavam se desmanchando, podres.
       Valentina olhou ao redor, estremecendo.
       - Que lugar horrvel! Se em vez dessa destruio tivessem feito um jardim, aqui, seria lindo!
       - Tem medo de altura, senhorita? Restez vous tranquille ma chere. Eu no a deixarei cair... - E segurou-lhe a mo, com fora.
       - Merci, monsietir - respondeu ela e, confiante, aproximou-se mais da beirada.
       No fundo da imensa escavao, pedras roladas, seixos e terra vermelha misturavam-se ao acaso. Era um lugar desolado, estranho e deprimente.
       -  claro que Mandy no seria estpido a ponto de ir l para baixo - comentou ela.
       - Ao contrrio da crena popular, os ces so criaturas relativamente estpidas... - contraps ele. - Ele pode, perfeitamente, ter se enfiado a, onde nem 
os anjos se atreveriam a descer...
       - Mandarim  um cozinho muito inteligente! - protestou ela.
       - Mesmo? Ento, acho que podemos ir embora.
       - Como assim? No vamos nem procur-lo?
       - Para qu? A senhorita acha que ele  inteligente demais para ter vindo para c, descido ou cado, portanto...
       - O senhor  o homem mais antiptico e irritante que eu conheo! Mandarim - gritou, nervosa. - Venha, Mandy! Aqui, Mandarim! - Mas no houve nenhuma resposta 
e ela se afligiu. - Oh, meu Deus! E se ele tiver cado l embaixo, se estiver machucado...morrendo?
       - Comeou, de novo, com suas suposies! Incrvel a imaginao frtil que a senhorita tem! Mandy! Venha, Mandarim, aqui! - chamou ele e, no instante seguinte, 
algo mido encostou-se na mo dele. Era a gua, que o cheirava. - Oh, animal estpido! O seu nome  Mandarim ou Mandy, por acaso? - Mas acariciou o pescoo do velho 
animal num gesto de profundo carinho.
       Valentina esforava-se por enxergar alguma coisa l embaixo quando, de repente, viu um bichinho peludo passar correndo e desaparecer, em seguida, sob pedras.
       - Viu aquilo? Viu? - perguntou, trmula de excitao. - Ele est l embaixo, sim!
       Sem pensar, ela se inclinou perigosamente e teria cado se ele no passasse um brao por sua cintura, segurando-a e afastando-a da perigosa borda.
       - Cuidado, moa! - exclamou, preocupado.
       - Ser que ele sobe sozinho? - perguntou, aflita.
       Charles de Michel no respondeu e ela ergueu os olhos, notando que o primo a fitava com uma expresso diferente. Nos olhos negros havia uma luz... Sim, uma 
luz que parecia ser de ternura, de amor. E um sorriso extremamente suave entreabria os lbios bem-feitos. Ela sentiu que um estranho arrepio lhe percorria o corpo 
todo.
       - Primo Charles, eu... Por favor, me solte... No vou cair l em baixo...
       Em vez de solt-la ele puxou-a mais para perto de si. Os profundos olhos escuros pareciam hipnotiz-la, de modo que ela esqueceu completamente o cozinho 
pequins e de sua deprimida tia. Tinha conscincia apenas daquele rosto moreno to perto do seu, da incrvel doura da expresso dele, da suavidade daqueles olhos 
s vezes to sofridos... Teve absoluta certeza de que el ia beij-la e num instante de loucura chegou a desejar que o fizesse.
       Parecendo vindos de muito longe, percebeu uns latidos de Mandarim.
       - Oh, no... - balbuciou, num fio de voz. - O que o senhor pretende fazer?...
       - No seja bobinha. Sabe muito bem o que pretendo fazer e tambm est querendo... - respondeu ele, com a respirao ardente acariciando-lhe a fronte.
       - Solte-me! - ordenou ela, sem muita convico. - Agora mesmo!
       - Claro que no!
       E os lbios firmes tocaram os dela, por alguns instantes, mas foi como se estivessem em brasa. Valentina quis protestar e se debateu, procurando libertar-se, 
enquanto exclamava, muito vermelha:
       - Vo... O senhor  um... um devasso!
       - Bem, eu no colocaria assim. Sou uma pessoa franca, honesta, que demonstra e faz o que quer. E no vejo nada demais em dar um bom beijo numa parente...
       - No o achei assim to bom! - retrucou ela, zangada.
       - , mesmo? Curioso, jamais algum se queixou, antes, que meu beijo no  bom... Neste caso, s me resta aceitar seu julgamento cruel, abaixar a cabea e 
aceitar o infortnio!
       E assim dizendo, com o ar mais desconsolado do mundo, dirigiu-se para a precria escada que mergulhava no buraco. Valentina correu atrs dele e segurou-o 
por um brao.
       - Espere! O senhor est com uma perna machucada... no pode descer essa escada...
       - J que aquele animalzinho estpido no consegue subir, eu preciso descer.
       - No h outra maneira, mesmo?
       - H mais duas: aparecer uma escada nova, a, ou eu voar. Mas como no h outra escada e no tenho asas...
       Mandarim, que tentara inutilmente subir pelos degraus muito distantes um do outro da escada, sentara-se l embaixo e olhava para cima, chorando continuada 
e lamentavelmente.
       Juntando as mos ao peito, Valentina olhou-o, aflita. Depois voltou os olhos ansiosos para o sr. De Michel, que comeava a descer, confiante, uma das mos 
apoiando-se na parede vertical de pedra. De repente, parou, fitou-a e comentou, com uma expresso indefinvel:
       - No entendo por que deso em busca daquela ferazinha boba, deixando-a a em cima to... to...
       - To, o qu? - perguntou ela, num sussurro.
       - To pouco... prima! - concluiu ele, e desceu mais um degrau.
       - Tome cuidado! - pediu ela, notando que ele chegara ao fim dos degraus reforados.
       Os cabelos negros revoltos pelo vento, ele ergueu a cabea:
       - Est rezando por mim?
       - No! - mentiu ela.
           - Que pena! Eu pensei que...
       Nesse instante o degrau se desfez sob os ps dele, que desabou, acompanhado por uma verdadeira chuva de p, pedras e madeira.

       CAPTULO V

       Valentina chegara ao ltimo degrau reforado quando o sr. De Michel gritou:
       - Nem se atreva! Volte l para cima!
       Ela, ento, deu liberdade ao choro, descontraindo-se. Ele estava vivo, sentara-se!
       - Graas a Deus! Pensei que estivesse morto... Ficou muito machucado?
       - Mais ou menos... E, a menos que volte imediatamente l para cima, ir se machucar muito! Volte agora mesmo!
       Ele comeou a praguejar e Valentina obedeceu. Voltou para a beirada da escavao e olhou para baixo. Charles de Michel pegara Mandarim e, com extremo cuidado, 
subia pela rampa, muito inclinada, que ficava a alguns metros da escada em parte destruda. A cada passo ele provocava uma verdadeira chuva de pedras e muitas vezes 
escorregava para trs, at que conseguia, com esforo, recuperar o equilbrio. Ento, recomeava a penosa subida.
       Numa escorregadela mais longa e perigosa, a moa cobriu o rosto com as mos, apavorada, no querendo ver o que estava acontecendo. Depois de alguns momentos, 
entreabriu os dedos e espiou por entre eles. Ento, ansiosa, viu-o chegar  altura em que a escada estava firme, deslizar quase que grudado  rocha, at ela, iar-se 
para o primeiro degrau e comear a subir. Retirou as mos do rosto e logo depois as estendia para pegar o cozinho que ele lhe oferecia, antes de chegar em cima. 
Ps o animalzinho no cho e estendeu as mos de novo, sentindo uma vibrante satisfao quando os dedos sujos dele seguraram-lhe o pulso fino.
       Ajudou-o a subir para a beirada da cratera imensa.
       - Venha... assim... Apie-se em meus ombros - disse, ansiosa.
Ele assim o fez at que chegaram  charrete. Ento, de repente, o sr. De Michel desabou no cho. Escorria sangue de algumas esfo-laduras no rosto, tornando-o ainda 
mais plido. Amedrontada, Valentina ajoelhou-se ao lado dele, enquanto Mandariam corria para perto dos dois e comeava a farejar animadamente seu salvador.
       - Oh, cozinho mal-educado! - ralhou a moa. - Veja o que aconteceu por sua culpa!
       - Dei minha vida por voc... animalzinho estpido... - murmurou o rapaz, com voz fraqussima e suspirou. - Acho que... quebrei a... espinha...
       - No quebrou, no! - protestou Valentina, aflita. - Se tivesse quebrado no conseguiria subir at aqui.
       - Ento, foi a cabea... ... - gemeu ele. - Meu crnio estpurou... Vou entregar minha alma ao Criador aqui... nos seus doces braos... - A cabea dele pendeu 
de lado, num desmaio, s que um dos olhos negros entreabriu-se para observar a moa. Ento, ele perguntou, com voz fraca: - Ser que beijaria um moribundo... se 
ele lhe pedisse, prima?
       - Claro que sim! Mas acontece que o senhor no est morrendo e eu jamais beijaria um patife fingido e mentiroso, primo Charles!
       Ele fechou os olhos e comeou a gemer de maneira a cortar o corao. Valentina sabia que de um lado aquilo era teatro, mas, de outro, ele devia estar tentando 
se recuperar, deitado ali. Notou que um profundo ferimento na mo dele sangrava sem parar. Ele tornou a abrir os olhos, que a fitaram, brilhantes e esperanosos:
       - Pensou melhor no meu pedido?
       Ela mordeu os lbios, indecisa, depois, num gesto muito rpido, deu-lhe um beijinho fio rosto.
       - Ora! - reclamou o moribundo esperto. - Isso foi um beijo "parente" demais!
       - Foi a recompensa por sua coragem!
       De repente, os braos dele a envolveram, puxando-a para si.
       - No, primo! Que  isso? Comporte-se! - protestou ela, tentando se livrar.
       Sem dar a menor ateno aos esforos de Valentina, ele comeou a se queixar:
       - Toda vez que me aproximo de voc... Pare de me chamar com o antiptico senhor, est bem? Pois , cada vez que me aproximo de voc acabo machucado! Quando 
tentei amassar a colcha...
       - Amassar, no! Torcer a colcha, seu homem bobo!
       - Quando amassei a colcha para voc - teimou ele, sem nem sequer piscar -, quase morri enforcado, enquanto voc tambm quase morria, s que de tanto rir! 
Agora, olhe para mim: eis-me em pedaos, quase morto, implorando consolo sem conseguir!
       Era evidente que alguma coisa mudara no relacionamento entre eles dois, pensou Valentina. E, curioso isso, ela bem que estava gostando daquela mudana. Nesse 
momento, sentiu que o corpo dele afrouxara em seu colo. Percebeu, ento, que ele realmente no estava bem. Disse, com suavidade:
       - Por favor, levante-se... Tente...
       Ele virou a cabea para o lado do buraco assustador, suspirou e disse, entre gemidos:
       - No posso... Estou me sentindo nas lt...
       E, de repente, o corpo dele enrijeceu. Soltou um grito que mais era um verdadeiro uivo, aterrorizando-a. No mesmo instante, ps-se de p num salto e berrou:
       - Seu canalhinha!
       Ela afligiu-se mais ainda. Ele devia estar delirando, talvez tivesse batido seriamente a cabea. Sem saber o que fazer, a moa ergueu-se e aproximou-se do 
primo, que se encontrava perigosamente na bei-radinha da cratera.
       - Ingrato! - uivou o sr. De Michel, de novo, furioso.
Valentina acompanhou-lhe o olhar e viu l no fundo, Mandarim correndo entre as pedras, todo alegrinho, atrs de uma codorna.
       - Quer saber de uma coisa! - berrou o rapaz, fora de si. - Pode ficar a embaixo para sempre, criaturinha repelente!
       - Mandarim! - chamou Valentia, rspida. - J aqui!
       Fosse por reconhecer que havia passado dos limites, fosse por pura coincidncia, o fato  que o pequins parou, olhou para cima e sem esforo aparente subiu 
correndo a encosta pedregosa, com a lin-ginha de fora, todo sujo, mas, pelo jeito, muito feliz.
       Sem olhar para o primo, ela pegou o cachorrinho e foi para a charrete. Acomodou-se, pegou as rdeas e perguntou:
       - Acha que consegue subir?
       - No na companhia desse animal abominvel! Fora com ele da, seno eu no subo! Um de ns dois vai ter de ir a p para casa!
       Muito sria, Valentina colocou o animalzinho no cho e ficou observando a dolorosa ginstica do primo para subir na charrete. Mal ele se sentara, o pequins 
fez a mesma coisa: sentou-se no cho, comeou a chorar e, quando eles olharam, ergueu uma das patinhas da frente, pedindo ajuda.
       - Nada disso! No adianta, seu chins maquiavlico! - rosnou o sr. De Michel, em resposta. - Dessa vez, no!
       Na semana seguinte a famlia tratou de redobrar os esforos para conseguir ajeitar a manso dentro do prazo dado por Charles de Michel. Quer dizer, trs quartos 
da famlia, at que Sidonie, vendo que o tempo passava depressa demais, resolveu ajudar de verdade. Lady Clara, que havia ficado encantada com a volta de seu querido 
cozinho, tinha mandado um bilhete de agradecida admirao ao "querido Charles" que, intrpido, corajoso, salvara o aventureiro Mandarim.
       O sr. De Michel no aparecera em Wyenott Towers durante a semana inteira. Em compensao, lorde Samuel Stane cavalgara todos os dias at l, a fim de informar 
a famlia sobre o estado de sade do amigo depois da desastrosa aventura na pedreira. Durante esse "servio de informao", os olhos azuis no abandonavam Sidonie, 
coisa que Leslie Ashford achava hilariante e vivia brincando com ela, dizendo que se no tomasse cuidado iria se transformar na lady Stane.
       - No acredito - disse a mocinha, depois de o irmo fazer uma dessas observaes brincalhonas, mais uma vez. - Nenhum lorde fino e rico como sir Stane iria 
se casar com uma senhorita pobre como eu. Garanto que ele sabe da nossa situao, pois tenho certeza de que o primo Charles lhe contou tudo sobre ns... principalmente 
sobre mim! - acrescentou, com uma ponta de ressentimento e raiva.
       - Besteira, menina - disse lady Clara. - Seu primo  um cavalheiro e no faria comentrios grosseiros a nosso respeito.
       Sidonie apertou os lbios ao ouvir aquilo, nada respondeu, mas assim que a tia saiu da mesa do caf da manh para ir ajudar Hora-ce nos quartos e salas do 
piso superior, ela comentou, sarcstica:
       - Um cavalheiro! - disse, com ar srio e profundo. - No  o que se diz por a do sr. Charles de Michel! O sr. Roger Vokes diz que todos os vizinhos comentam 
que nosso primo  um bonapartista, um traidor, e que no vai levar muito tempo para ele ser preso.
       - Preso?! - Valentina ergueu os olhos alarmados para o irmo. - Voc ouviu alguma coisa a esse respeito, Leslie?
       O jovem Ashford, que no dia anterior cavalgara at Leominster, a fim de ir  biblioteca pblica para trocar uns livros, sacudiu os ombros, ao mesmo tempo 
que respondia!
       - No vou mentir para voc, Tina... Ouvi alguma coisa, sim. Mas eu no daria muita importncia ao que o jovem Vokes anda dizendo. Ele s sabe contar vantagens, 
espalhar mexericos. Por outro lado, acredito que o primo Charles sabe se defender.
       Joan Lock disse que o primo Charles vive saindo, todas as noites - informou Sidonie, querendo reforar o que j dissera. - Contou, tambm, que ele  muito 
cruel com a prpria me! No a deixa sair de casa, com medo que ela diga alguma coisa que o incrimine...
       -  claro que a srta. Lock tem de falar mal dele! - rebateu o jovem Ashford. - Lady Lock, a tia dela, fugiu com ele, lembra?
       Com ar de triunfo, Sidonie retrucou, de imediato:
       - O que no  nada abonador para o carter dele, no acha? -indagou, olhando para a irm.
       Valentina era obrigada a concordar.
       Naquela noite, Valentina estava to calada e pensativa que o irmo a venceu em duas partidas de damas. Tia Clara, notando que ela no estava em seus melhores 
dias, comentou que a sobrinha trabalhara demais e pediu-lhe que fosse se deitar mais cedo, para descansar. A moa concordou e retirou-se para seu quarto, mas no 
conseguiu dormir.
       Ficou pensando no enigma de Charles de Michel do qual conhecera uma outra face naquele dia, na aldeia, quando brincava com as crianas, cheio de bom humor 
e de carinho. A dona da taberna murmurara, em certo momento, ao ouvido dela: "As crianas o adoram, no largam dele quando aparece por aqui..." Depois, mais tarde, 
embora falasse mal da velha gua, quando se distrara acariciara o pescoo do animal com infinita ternura. Depois, fora o espe-tculo provocado por Mandarim. Uma 
verdadeira palhaada! No entanto, o sr. De Michel, mesmo com uma perna machucada, no hesitara em descer a perigosa escada para salvar o animalzinho, isso sem falar 
no terrvel tombo e na penosa escalada de volta  superfcie da terra...
       Vrias vezes percebera que ele no era grosseiro, mal-humorado e intransigente, como queria aparentar. Por que Charles de Michel tentava esconder seu lado 
melhor? Ser que ele tinha medo de que o julgassem um fraco porque gostava tanto de animais e crianas?
        essa altura dos pensamentos, Valentina parou e fez a si mesma uma pergunta ainda mais importante: o que fazia ela, esse tempo todo, pensando nele? O fato 
de ele lhe ter roubado um beijo, naquele entardecer ensolarado, no deveria apagar o fato de que o sr. De Michel fugira com a esposa de outro homem, que quase matara 
o infeliz e trado marido num duelo. No devia apagar o fato de ser um homem sobre o qual pesavam as acusaes srias de ser um traidor da ptria, de maltratar a 
prpria me... um homem que cavalgava misteriosamente,  noite, com uma expresso de estranha violncia e rancor impressa no rosto plido e contrado.
       Revirou-se na cama vrias vezes, inquieta. Precisava admitir: o primo Charles era um homem mau e, o que era pior, s vezes apai-xonante, muito atraente. Ainda 
bem que ela sabia com quem estava lidando! No havia dvida: precisava mant-lo a distncia e era o que ia fazer, dali por diante.
       Uma vez decidida, fechou os olhos e adormeceu com a impresso de ouvir a frase: "...Isso foi um beijo "parente" demais!"
       O domingo amanheceu radioso, com o cu estonteantemente azul e um vento forte o bastante para ameaar desarrumar os finos trajes das ladies que se dirigiam 
para a Igreja de So Pedro e So Paulo.
       Ao ver mais uma vez a igrejinha, Valentina perguntou a si mesma se apenas um santo no bastaria para um edifcio to pequeno.
       Comeado o ofcio, ela pensou em como o coro, de apenas seis vozes, era harmonioso, bem afinado, e ergueu o rosto para ele, reconhecendo uma carinha entre 
as das crianas que cantavam. Era um meninozinho, que a encarava com a maior seriedade. Reconheceu-o como uma das crianas com as quais brincara naquele dia, no 
povoado, junto com Charles de Michel.
       O tema do sermo daquele domingo versava sobre "A Pacincia de J" e o pastor estava determinado a colocar em prtica a extenso da pacincia de cada uma 
de suas ovelhas, to prolongado ele era. Por fim, terminado o culto, todos saram e os Ashford foram cumprimentar o pastor  porta. Ele lhes apresentou a filha mais 
nova, uma jovem de ctis plida, enormes e profundos olhos castanhos herdados do pai, voz suave, maneiras delicadas e contidas. Muito bonita, mas dessa beleza emprestada 
pela juventude e no devido  real constituio.
       A famlia se dispersou, enquanto Valentina conversava com o pastor e, pouco depois, quando passou a procur-los, foi encontrar o irmo com uma mocinha, miss 
Abigail Tembury. Havia uma preo-cupante expresso de encantamento no rostinho bonito da moa.
       Linda e simptica, pensou, mas no  o tipo de namorada que eu escolheria para meu irmo...
       No muito longe do irmo, Sidonie parecia uma flor radiante rodeada por beija-flores atrados por sua beleza e doura. Ela conversava com o jovem lorde Lock, 
enquanto os lordes Vokes e Stane, juntamente com outros admiradores, esperavam a vez de trocar algumas palavras com ela.
       Valentina foi arrancada da profunda admirao da irmzinha por uma voz suave e melodiosa, que pronunciou seu nome.
       Era madame De Michel que, linda como sempre, trajava um vestido yerde-claro, de seda, com gola alta bordada, assim como a barra, de arabescos de um verde 
mais escuro. As luvas, que iam at pouco acima do cotovelo, eram gelo, combinando com um chapu da mesma cor, que abrigava elegantemente os cabelos cacheados.
       - Minha querida jovem! Est lindssima nesse vestido de musselina azul-plida! Um primor, mesmo. E os seus olhos, ento? Mara vilhosos, brilhantes como duas 
jias de mbar!
       - Por favor, tia Ruth! No exagere. Sidonie, sim,  linda. Ao lado dela, sua irm mais velha desaparece, sem a menor chance...
       - De modo algum, querida! Sua irm  uma encantadora gatinha, mas voc...
       - Bem, isso quer dizer, ento, que eu sou uma gata! - disse a moa, rindo.
       - , mesmo, meu bem e no tome isso como uma ofensa. Eu j fui chamada assim muitas vezes e me orgulho disso.  um elogio, pois que outro animal  to gracioso, 
to cheio de mistrios, to bonito e to sensual?
       Valentina riu mais ainda, alegre, enquanto a elegante senhora lhe dava o brao e saa caminhando com ela pela alameda que levava ao jardim diante da igreja.
       - O dia est to bonito, to agradvel, agora que o vento amainou! Estou com vontade de voltar para casa caminhando. Gostaria tanto que voc me acompanhasse, 
querida! H muito tempo que estou querendo conversar com voc, mas no sei quando me permitiro... isto , quando poderei ir de novo at Wyenott Towers.
       Ao ouvir aquilo uma ruga se formou na testa de Valentina. "Me permitiro?", pensou, ser que esta senhora  uma prisioneira?
       Concordou em acompanhar a madame Ruth de Michel, que se mostrou muito agradecida por isso. Enquanto, elegantes, graciosas, caminhavam lado a lado, percebiam 
os olhares interessados de vrios cavalheiros.
       Realmente, o dia estava lindssimo, dourado, o profundo azul do cu contrastando com o verde brilhante da vegetao e o colorido forte, variado, de diversas 
flores campestres.
       - Como este lugar  maravilhoso! - exclamou Valentina, encantada com a beleza da paisagem.
       - Eu tambm acho... Gosto muito daqui, mas sinto uma falta enorme da cidade! - exclamou a madame. - No imagina a falta imensa que sinto da minha querida 
Londres... s vezes tenho medo de morrer, de tanto tdio e solido!
       Comovida e preocupada com tanta angstia, a srta. Ashford voltou-se para a bonita senhora:
       - Mas, tia, por que no vai? Tem uma casa em Londres e acredito que o primo Charles no se recusaria a abri-la para a senhora.
       - Ah, como eu desejo que ele faa isso! Mas no h esperana, meu filho odeia a cidade.
       Valentina achou que talvez o motivo fosse outro. Econmico, por exemplo, e que ele no queria preocupar a me com sua situao financeira.
       - Bem, eu acredito que fica muito caro manter uma casa, grande como a da senhora, em Londres... - comentou.
       - Foi o que Charles lhe disse? - indagou a madame e, depois de uma pausa, sorriu com certa amargura. - No posso me queixar. Charles  muito carinhoso e generoso 
comigo...
       - S que a mantm prisioneira, no? Obriga-a a ficar enterrada no campo, contra sua vontade...
       - De fato. E eu nada teria a lamentar se pudesse ver meus amigos, pelo menos uma vez ou outra, entende? Quando meu amado marido era vivo, no imagina como 
amos a festas! Eram maravilhosas! - Os enormes olhos azuis animaram-se e pareciam soltar fascas de entusiasmo. - As festas que dvamos, ento! A fila de carruagens 
chegando em nossa casa... As jias, os vestidos, as risadas felizes, as conversas alegres! Ah, como  terrvel viver sem alegria, sem risos... Era um mundo de encantamento, 
um mundo que pensei ser eternamente meu... - Seu rosto escureceu ao perder a animao. - Bem, o fato  que tive meus anos de felicidade, de alegria... Mas, veja 
voc, coitadinha! To jovem e linda, estragando as mos delicadas naquele trabalho bruto, condenada a este medonho isolamento!
       - Mas no estou sofrendo, tia Ruth! Gosto muito do campo e estou feliz com a vida que levo. S que de vez em quando sinto saudade de meus amigos de Londres, 
mas  s. O restante no me preocupa. Alis, minha grande preocupao  no poder apresentar Sidonie  sociedade. Ela tambm vive triste, porque gosta de festas 
e... - Parou de repente e os olhos castanhos iluminaram-se com uma ideia. - Tia, que acha de darmos uma festa "m Wyenott Towers?
       - Voc acha que... voc poderia?... - Madame Ruth mal podia acreditar naquela possibilidade. Apertou o brao da sobrinha, tensa. - Seria maravilhoso!Tambm 
acho! Teria de ser uma festa simples, porque nossos fundos so muito limitados, mas a casa j est bonita, com outra aparncia, d para recebermos convidados sem 
corrermos o risco de nos envergonhar.
       - Eu colaboraria para a festa, querida! H uma firma de fornecedores, aqui em Hereford,  qual poderemos encomendar vrias coi sas, inclusive vestidos novos 
para vocs! - Madame ficava cada vez mais encantada. - Ser que eu poderia convidar alguns amigos?
       - Claro! Era o que eu pretendia dizer  senhora. Mas Charles...
       - Ah! - riu a sra. De Michel. - Vamos guardar segredo dele!
Meu filho s poder saber dessa festa na ltima hora, quando j for tarde demais para ele interferir. No se esquea de me dar as suas medidas e as de Sidonie, para 
eu fazer o pedido dos vestidos!
       Nesse momento chegavam ao enorme porto da alameda que ia dar na entrada da casa dos De Michel. A elegante senhora abraou e beijou a jovem, despedindo-se 
e dizendo:
       - Minha menina, no imagina o quanto voc me fez feliz!
       Valentina ergueu-se, empurrando o chapu de enorme aba larga para trs e suspirou:
       - Ufa! Isto  que  um trabalho duro! - Respirou fundo e passou a mo na testa suada.
       Pertinho dela, de joelhos no cho, Leslie Ashford continuou a cavar furiosamente, enquanto dizia:
       - Impressionante o que tem de mato e de erva daninha por aqui! Olhe s quanto eu j tirei, Valentina!
       -  mesmo... incrvel - concordou a irm, procurando no desanimar.
       - A srta. Tembury contou-me que a fazenda de Wyenott Towers era uma das mais lindas da regio, a no ser pela pedreira, claro, que ela acha um lugar ttrico, 
terrvel. E eu concordo. Pela quantidade de flores que h neste jardim, agora que a gente pode ver, limpando esse mato todo, devia ser um lugar bonito, mesmo.
       - Eu tambm acho... - concordou Valentina.
       Ela estava esperando que a qualquer momento seu irmo fizesse alguma comparao do lugar em que estavam com algum outro muito melhor, claro, de Londres, mas 
enganara-se. Ele continuava a falar, mas seus comentrios estavam longe dessa ideia.
       - Vamos, saia da, sua planta daninha teimosa! - bufou ele, lutando com uma raiz recalcitrante, que se agarrava desesperadamente  terra. - pa! Enfim consegui... 
Pois , miss Tembury me disse, tambm, que os olmos que existiam aqui devem estar doentes. Tina, voc no pode imaginar quanta coisa interessante aquela moa sabe!
       - Ah, sim!? A filha do pastor, no ? - perguntou a irm, como se no soubesse a resposta.
       - ! Voc precisava ver! Devia conversar com ela... Outra planta teimosa! - ofegou ele, puxando com toda fora que tinha. -Vamos, saia-da, planta idiota!
       O rapaz puxou, ofegando, colocando todo peso do corpo e, de repente, a planta cedeu e ele foi de costas para o cho.
       A queda foi acompanhada por gargalhadas. Sidonie, que trabalhava mais adiante, aproximou-se correndo, ps um p sobre o peito do irmo cado e bradou, erguendo 
o ancinho, que manejava para recolher as folhas cadas, como uma espada:
       - Tendo morto este drago com valentia, reclamo sua carcaa, por So Jorge e pela Inglaterra!
       Leslie, rindo, puxou-a pela perna, fazendo-a cair, e amparou a queda da mocinha, reclamando:
       - Como tem a audcia de me confundir com um drago quando eu sou o prprio So Jorge?!
       Ela segurou o nariz dele entre dois dedos e torceu-o, clamando:
       - No se iluda, pensando que todos ns enxergamos voc do mesmo modo que a srta. Abigail Tembury enxerga, meu caro irmozinho! - E, levantando-se num repente, 
jogou um monte de mato arrancado na cabea do jovem Ashford. - "So Jorge" j contou a voc, Tina, por que est to interessado em ajudar o primo Charles no trabalho 
que ele est fazendo l na pedreira? Ou onde ele vai, quando sai para cavalgar, todas as tardezinhas? - O irmo tentou segur-la de novo, mas a garota escapou, agilmente, 
continuando a falar: - Ou que ele anda gastando seu rico dinheirinho em flores e bombons... Em outros "presentinhos" que oferece para uma certa senhorita que...
       Ento, a mocinha percebeu que o irmo se levantava e tratou de sair correndo, rindo perdidamente, enquanto ele disparava atrs dela, muito vermelho e sem 
jeito, tentando peg-la para dar-lhe um castigo pela lngua solta.
       Ao ficar s, Valentina continuou a trabalhar no jardim, pensando no irmo e na srta. Tembury. Ela era uma moa simples, tmida, muito diferente das desembaraadas 
e elegantes beldades que haviam tentado inutilmente chamar a ateno de Leslie, em Londres e Sus-sex. Achava o irmo muito jovem para que comeasse a se preocupar 
com os namoricos dele. Ainda no fizera vinte anos e era cedo para se interessar por uma moa com ideias de casamento. Em todo caso, no seria demais ter uma conversinha 
com ele a respeito da srta. Abigail Tembury, pois no era adequado estar dando presentes para uma moa sem estar comprometido com ela. Na certa a sra. Tembury no 
iria aprovar isso.
       CAPTULO VI

       Os nervos do sr. Charles de Michel ficaram tensos quando ouviu uma voz cham-lo l de cima, do alto da pedreira. Onde teria errado?
       O coronel, que estava na beira do imenso buraco,  espera dele, deveria ter pouco mais do que cinquenta anos, era magro, alto, com os cabelos de uma cor indescritvel, 
que no era amarela, nem castanha. O empertigado militar desmontou, entregou as rdeas de sua montaria ao ordenana que o acompanhava e aproximou-se, com a mo estendida:
       -  o sr. De Michel, acredito. Disseram-me que o encontraria aqui.
       - Sou, sim, senhor. Mas  melhor no pegar minha mo, est suja de terra.
       - Chamo-me Herbert Card, senhor. Sou tenente-coronel. Estou conduzindo uma investigao para a Guarda Montada desta regio.
       - De fato? E veio me procurar? Serei suspeito, por acaso? Ser que estou escondendo cavalos dentro da minha pedreira?
       O coronel sorriu ao responder:
       -Acredito que se o fizesse levaria tempo demais para desc-los... Desculpe a curiosidade, senhor, mas o que pretende fazer nesse buraco?
       O sr. De Michel achou que o coronel no estava interessado, realmente, em saber o que ele pretendia fazer ali, mas fizera a pergunta para disfarar sua verdadeira 
finalidade. Comeou a descrever de-talhadamente o que pretendia fazer naquela verdadeira desolao. Para sua surpresa, o coronel Card demonstrava um autntico interesse, 
tomando notas, fazendo uma poro de perguntas concernentes ao assunto, at que, por fim, estendeu para ele o caderninho onde tomava notas e o lpis, pedindo-lhe 
que fizesse um esboo da obra.
       - Desculpe, mas eu no tenho o menor jeito para desenhar - desculpou-se o sr. De Michel. - Alis, acho que no existe sequer uma gota de qualquer pendor artstico 
no meu sangue.
       - Talvez no, mas um esboo simples... Alis, por falar em sangue, ouvi dizer que o seu  misturado... Verdade?
       Afinal, pensou Charles de Michel, aquele militar comeava a demonstrar seu objetivo.
       - Oui, monsieur le colonell - respondeu ento, sorrindo. - E tenho muito orgulho de meu pai francs. Ser que esse fato poderia me condenar  morte?
       O brilhante olhar do coronel era divertido e muito bem-humorado.
       - No estou aqui para det-lo, sir. Simplesmente, vim para perguntar-lhe se por acaso notou algo estranho ultimamente. Quero dizer, algo que possa fazer pensar 
em espies e espionagem...
       - Aqui, mon colonell Neste lugar de mato rasteiro e ralo?
       O coronel Card saiu andando pela beirada da imensa escavao, acompanhado pelo sr. De Michel, que exibiaa maior boa vontade em ajud-lo. Depois de andarem 
durante alguns momentos em silncio, o coronel comeou a falar:
       -  o seguinte, meu caro De Michel: estvamos a ponto de prender um grupo de espies, em Londres, mas de repente eles desapareceram.  essencial que descubramos 
onde eles se esconderam, pois apropriaram-se de papis muito importantes para ns. Estvamos desenvolvendo um novo tipo de arma, um mosqueto muito eficiente... 
e algum se apoderou dos planos. Eles desapareceram ao mesmo tempo que o grupo de espies que amos desmascarar.
       - Esses espies e os planos da arma desapareceram em Londres, de Whitehall, e o senhor vem procur-los aqui, to longe, em Leominster?
       - Curioso isso, no ? Pois bem, os planos desapareceram e, a princpio, achamos que simplesmente algum os guardara na gaveta errada, por distrao. No entanto, 
um jovem aspirante a oficial, muito inteligente alis, veio aqui para Leominster, visitar seus pais. Fez a viagem na carruagem do correio e, a pedido dos passageiros, 
o cocheiro parou o veculo no local onde, na noite anterior, um cavalheiro havia sido assaltado pelo Cavaleiro Misterioso...
       O coronel fez uma pausa e como o sr. De Michel nada comentasse, prosseguiu seu relato.
       - Enquanto o cocheiro contava aos passageiros os lances dramticos do assalto, nosso aspirante desceu para esticar um pouco as pernas. Enquanto caminhava 
 beira do caminho, percebeu um papel. Apanhou-o, desdobrou-o e constatou que havia nele um desenho detalhado do que reconheceu uma arma de fogo. Procurou-nos imediatamente, 
em Londres, e foi feita uma comparao com os primeiros planos da nova arma, quase um esboo, e no restou dvida:  o desenho do mosqueto secreto!
       De novo o coronel Herbert Card calou-se e fitou o sr. De Michel, intensamente, depois indagou:
       - Creio que agora pode perceber as ligaes, no , meu caro senhor?
       - Quer dizer - comentou o cavalheiro, ento - que o senhor deduziu que os planos foram copiados, que algum, possivelmente, pretende vend-los e que o provvel 
comprador  Bonaparte?
       - Isso e ainda mais: meu superior estranhou muito que aquele pedao de cpia fosse encontrado aqui, neste pedao aprazvel e bonito da buclica Inglaterra 
rural...
       Depois de prolongado silncio, o coronel Card indagou:
       - O senhor tem uma casa em Londres, no ?
       - Tenho, sim, senhor. E h muita gente que acha que eu sou bonapartista, coronel. Acredito, mesmo, que uma dessas pessoas, provavelmente inimiga minha, resolveu 
me denunciar n 'est-ce pas!
       O coronel fitou-o intensamente, bem dentro dos olhos, e Charles de Michel sustentou-lhe o olhar sem nem sequer pestanejar. Ento, o militar disse, com suavidade:
       - Devo apenas comentar, sir, que se  inocente deve observar seus vizinhos com mais cuidado e reportar-me qualquer coisa de suspeito que venha a notar. Enquanto 
este caso no encontra soluo, sr. De Michel, eu o aconselharia a no deixar esta rea. - Cumprimentou com fria cortesia, j se afastando. - Passe bem, sir.
       O coronel caminhou at seu cavalo e montou. Ento, como se houvesse lembrado alguma coisa de ltima hora, fez o animal caminhar at junto de Charles de Michel 
e observou, com voz calma e olhar atento:
       - Esqueci de lhe contar um detalhe importante: no verso do desenho do mosqueto havia uma mensagem apagada, impossvel de se ler. A assinatura, que pudemos 
perceber, era uma coroa partida em dois pedaos: o mesmo smbolo usado pela rede de espies que agiam em Londres. Interessante, no?
       Fez um aceno e dessa vez foi mesmo embora, com o cavalo a passo.
       - Maldio! Maldio e mais maldio! - murmurou o sr. De Michel, profundamente irritado.
       Lady Clara chegou com uma bandeja cheia de copos com limonada e foi recebida com gritos de alegria vindos dos jardineiros improvisados.
       -Como isto est ficando bonito! - exclamou a velha senhora, olhando ao redor. - Mas acho que deviam parar um pouco, crianas. A tarde est quente demais!
       - No h jeito, titia! O trabalho precisa ser feito - respondeu Sidonie. - Queremos que os amigos de tia Ru th fiquem bem im pressionados com a casa.
       - E os meus amigos tambm, no? - retorquiu a lady, sorrindo.
       - Claro! O nico entre ns que no pode citar seus amigos. Charles de Michel! - exclamou a mocinha. - At mesmo lorde Samuel Stane ir afastar-se dele quan... 
- calou-se de repente, ao perceber o olhar fuzilante que o irmo lhe lanava.
       Mas Valentina ouvira as palavras dela, percebera a troca de olhares. Colocou a planta com que lidava no cho, endireitou-se e perguntou:
       - O que voc ia dizer, Sid? Ser que algum andou lhe contando mais mentiras sobre nosso primo?
       - Ele no  nosso primo! - saltou a jovem, como se tivesse sido espicaada. - O pai dele nada tinha a ver conosco e a me dele  apenas meio-irm de papai! 
Por que voc acha que ele no tem ido trabalhar na pedreira, nos ltimos trs dias? Claro! Foi a Londres e garanto que no para ver o prncipe regente!
       - Sid! - interferiu o jovem Ashford. - Eu j no lhe disse para ficar com essa boca fechada?!
       - No sei por que voc no quer que eu fale, mano! Alm de contar as coisas, posso dizer at quem me falou, pois ele no se esconde. Eu e sir Derwent Lock 
temos tido conversas muito esclarecedoras. - Ela ergueu o narizinho, com ar de atrevido desafio. - E eu tenho certeza de que ele sabe o que diz!
       - Eu gostaria muito de saber quando voc teve essas "esclarece
doras conversas" - interferiu lady Clara Rustwick - com um homem que tem idade suficiente para ser seu pai!
       - Ele  um perfeito cavalheiro, titia! - exclamou a mocinha, j comeando a fazer beicinho para chorar. - Muito melhor do que esse nosso falso primo, de sangue 
mestio e traidor!
       - Basta, menina! - explodiu tia Clara, surpreendendo a todos, pois era de natureza tranquila e delicada.
       - Veja o que diz, Sidonie! - advertiu Valentina.
       - Para o seu quarto, imediatamente, menina! - ordenou o jovem Ashford, vermelho de ira. - No quero mais ver o seu rosto na minha frente, hoje!
       O ar de desafio e arrogncia desapareceu do rosto da mocinha, que correu para casa, soluando.
       O sol ia se pondo quando Valentina chegou na beirada do imenso buraco da pedreira. O sr. De Michel encontrava-se sentado numa pedra, olhando pensativamente 
para o espao, como se estivesse tentando solucionar um problema. A seu lado havia uma caixa com mudas de plantas. Ao ouvir o leve rudo dos passos da moa, ele 
voltou a cabea e abriu um sorriso ao v-la.
       - Por favor, no interrompa seu trabalho - pediu ela, depois de cumpriment-lo.
       Mas o cavalheiro subiu os degraus rapidamente, enxugou o suor da testa com um leno e explicou:
       - J plantei vrias mudas em diferentes lugares, mas no me sur preenderei se as tiver perdido entre essas pedras todas.
       - Parece que decidiu, mesmo, transformar esta desolao num jardim... - comentou ela, sorrindo.
       - E vou transformar. Espero transformar esta paisagem rida, que  um marco de cobia humana, em algo muito lindo... Desculpe minha aparncia, Tina, mas no 
esperava que viesse me visitar.
       Ele procurou pelo menos ajeitar as roupas velhas, sujas de terra. Daquele modo, Charles de Michel parecia mais natural, mais msculo do que quando se vestia 
elegantemente.
       - No acha que deveria contratar alguns empregados para virem trabalhar aqui? Vai levar anos para esse jardim ficar pronto...
       - Vou contratar, sim, mas quando chegar a hora.  que eu precisava plantar logo as mudas que o pastor me mandou, seno elas poderiam morrer. O trabalho de 
colocar terra aqui, entre as pedras, foi duro, mas consegui... , sei que vai demorar para isto ficar bonito, mas vai ficar.
       - Eu trouxe algumas doaes para o seu jardim, primo. Vrias qualidades das plantas que existem no jardim de Wyenot Towers.
       - Muito obrigado! Vou plantar todas elas com o maior carinho e tenho certeza de que vo pegar.
       - Quando penso na trabalheira imensa que ser transformar isto num jardim, Charles! Falei nisso brincando, sem levar a srio... Vai ser um esforo tremendo, 
principalmente daquele lado mais distante, onde o buraco afunda de repente... J pensou em criar um lago ali?
       - Por Jpiter, que grande ideia! Voc  uma excelente colaboradora. Como prmio, dou-lhe mais uma semana de prazo para colocar Wyenott Towers em ordem.
       E, de repente, pegou-a pelos braos, girou-a e deu-lhe um beijinho na ponta do nariz.
       - Oh! - exclamou ela, vermelha. - Como se atreve?
       - Desculpe, prima! Eu esqueci que voc detesta que a abracem e beijem... Coitadinha! Espero que no seja uma pobre mulher insensvel, frgida...
       - Eu no sou frgida, nada! - protestou ela, vermelha. - Voc  que ...
       Os lbios dele encostaram-se nos dela, fazendo-a calar-se. Ela ficou paralisada, tendo a impresso de que havia sido atingida por um raio ou algo parecido.
       J afastado dela, Charles de Michel a observava, atento, depois disse:
       - Pelo jeito, esse teste no deu resultado. Vamos tentar de novo...
       - De modo algum! - gritou a moa, procurando livrar-se dele, mas sem muita convico.
       Pela primeira vez depois de muito tempo ele lhe parecia, como naquele dia em que haviam brincado com as crianas, na aldeia, livre, contente, sem nenhum trao 
de amargura ou cinismo na expresso do rosto, nos olhos negros que brilhavam, felizes.
       Em vez de brigar com ele, depois de recusar o segundo "teste", ela disse, rindo, que achava-o um caso perdido e se despediu, agradecendo pelo prolongamento 
do prazo.
       Na quarta-feira seguinte madame De Michel dirigiu-se a Wyenott Towers para tomar um ch. Valentina e Sidonie a aguardavam ansiosamente porque, alm do ch, 
 claro, iriam combinar os ltimos detalhes da festa, que deveria acontecer na noite de quinta-feira da semana seguinte.
       Ao chegar, a elegante senhora cumprimentou as duas irms, pois tia Clara, felizmente, havia aceitado o convite de ir tomar ch com a esposa do pastor e Leslie 
havia sado para cavalgar. Conversaram, primeiro sobre alguns assuntos de casa, de famlia, mas logo, impaciente, madame Ruth comeou a falar sobre a festa, toda 
entusiasmada. Chamou o criado que viera dirigindo sua carruagem e pediu-lhe que trouxesse umas pastas. Apressou-se a abri-las, explicando:
       -, Quanto aos vestidos que vocs escolheram, achei-os muito engraadinhos, mas, realmente, tomei a liberdade de encomendar outros, que achei mais apropriados... 
Este aqui, em seda azul-pastel deve ficar uma beleza em voc, Tina, querida! No concorda?
       Ao ver o desenho do vestido, elegantssimo, Valentina quase engasgou, mas por fim conseguiu falar.
       -  lindo, tia Ruth, mas acho que fica melhor para uma reunio  noite e no para um ch  tarde, como tnhamos pensado...
       - Ch  tarde? - indagou madame De Michel, erguendo as bem-feitas sobrancelhas. - Ento, acho que entendi errado! Pensei numa reunio depois do jantar, com 
talvez uma ou duas mesas para jogo de cartas, um pouco de msica... E voc usaria o colar de safiras que eu vou lhe emprestar: ficar maravilhoso com este vestido.
       - Pegou, ento, o desenho de outro vestido.
       - Este eu escolhi para voc, Sidonie...
       - Ohhh! - exclamou a mocinha e perdeu a fala.
       O vestido, lindo, era de um suave tecido leve, de um rosa-salmo, de corpete alto, decote quadrado, discreto, mas insinuante.
       - Vai combinar maravilhosamente com uma simples volta de prolas, meu bem! - exclamou a simptica senhora. - Voc vai ficar irresistvel!
       Ao que parecia, por fim, tudo estava mais do que decidido: a recepo seria na quinta-feira, s oito e trinta da noite. Quatro criados de madame viriam com 
os canaps e bebidas, ficando para servir e atender os convidados.
       Valentina viu-se obrigada a aceitar tudo, com uma sensao esquisita de angstia, no sabia explicar por qu. Havia algo que no se encaixava bem naquele 
atropelo todo... Mas parou de pensar para ouvir o que madame De Michel dizia:
       - Adoro os bravos rapazes que esto lutando no estrangeiro, pela nossa terra e o nosso rei! Ento, tomei a liberdade de convidar alguns oficiais que... - 
piscou marotamente m dos lindos olhos azuis - no iro deixar de perceber os encantos de vocs duas, minhas flores!
       Madame Ruth de Michel declarou que cuidaria, tambm, de enviar os convites para todas as pessoas que elas tinham decidido que deviam participar da reunio. 
Ento, s restava a elas se prepararem para receber os convidados.
       Dois dias depois, a um certo momento, Valentina lembrou-se das palavras de madame De Michel com aquela sensao estranha, mas disse a si mesma que era cisma, 
nervosismo por dar uma recepo depois de tanto tempo. Por mais simples que fosse, era sempre uma alterao dos hbitos da casa...
       Mais tarde, quando chegou depois de vrias horas fora de casa, fazendo compras arregalou os olhos, sem acreditar no que via amontoado no hall de entrada.
       Mas o qu... o qu... - gaguejou. - De onde veio isso tudo?
Tapetes turcos, cortinas de veludo e brocado, cadeiras, mesas e um div elengantssimos, candelabros de prata e quadros de pintores renomados, que Horace desembrulhava 
naquele momento, com o maior cuidado.
       - O entregador disse que se tratava de uma compra feita por De Michel, para ser entregue em Wyenott Towers - explicou o velho ex-marujo, sem jeito. Acrescentou, 
com um olhar preocupado e contrito: - Eu devia ter esperado a senhorita chegar, para comear a desfazer os pacotes?
       - Que coisas mais lindas! - gritou Sidonie, maravilhada. - Tudo escolhido com tanto bom gosto!
       - Quando primo Charles faz as coisas, faz mesmo direito! - comentou lady Rustwick, os olhos brilhantes de animao, erguendo um pequeno quadro e admirando 
o trabalho.
       - Isso  uma surpresa... - disse Valentina, aturdida. - Saio com Sidonie e quando volto  como se uma fada tivesse passado por aqui...
       - No  fantstico? - perguntou Leslie, tambm no maior entusiasmo, entrando com uma caixa nos braos. - A casa vai ficar linda com essas coisas.
       - Linda? Um paraso, meu irmozinho! - E Sidonie fez uma pirueta, rindo. - A no ser que o primo Charles aparea aqui para estragar tudo!
       - Voc est sendo injusta e mal-agradecida mais uma vez, Sid!
- repreendeu-a Valentina, zangada. - Como pode falar desse jeito depois de Charles nos mandar tudo isto?
       Sidonie sacudiu os ombros, mostrando que dava pouca importncia ao comentrio da irm, e deixou-se cair no div forrado com brocado de estampa floral, em 
cores muito delicadas.
       De repente, a mocinha saltou de p, com ar preocupado.
       - Oh, Deus! Onde mandaremos os convidados estacionarem as carruagens?
       Os demais riram da ideia e o jovem Ashford comentou:
       - Como sempre, sua imaginao voa, irmzinha! Vamos receber uns poucos amigos, no a sociedade londrina, sua bobinha! Pois eu garanto que tia Ruth tem centenas 
de amigos! - retrucou a mocinha e enfiou-se num canto, amuada.

       CAPTULO VII

       -...e ele no jantou em casa nas ltimas seis noites! - concluiu lady Rustwick, com voz abafada, pois se encontrava meio enfiada num armrio que limpava, 
na sala da torre leste. - At parece que ele mudou para a igreja! De qualquer modo, eu me surpreendo pelo fato de o pastor deixar sua filha acordada, at to tarde, 
em companhia de um rapaz!
       - Duvido que ele fique com Abigail, titia! - retrucou Valentina, lavando a pedra de mrmore da lareira. -  mais certo que ele fique por l conversando com 
o sr. Tembury.
       - Claro. Voc tem razo, Tina. Deve ser isso mesmo, O fato  que o rapaz anda com tanto sono de manh que mal pra de p. E c estamos ns... Leslie namorando 
uma moa muito boazinha, bonita, mas que no tem fortuna! Espero que no seja nada srio...
       - Veremos, titia! E, pior, por outro lado - brincou, para fazer a velha lady rir -, Sidonie parece que vai rejeitar lorde Samuel Stane, um baro riqussimo, 
pelo jeito indiferente que o trata... Mas, em compensao, temos uma tia que  um amor... embora goste de falar da vida alheia... e outra que  o mximo da elegncia, 
da sofisticao e da generosidade!
       - Isso  o que voc pensa, meu bem! Est muito entusiasmada por causa dos presentes e da festa, mas a verdade  que Ruth s faz o que a agrada e o que lhe 
convm! - exclamou lady Clara, um tanto zangada.
       - Pode ser, tia... - concordou Valentina, com ar pensativo, enxugando o mrmore que brilhava, de to limpo. - Mas ela est feliz com a festa, fez Sidonie 
mais feliz ainda e por isso estou contente. Ela  bondosa, tia Clara, pois Charles a adora. E toda vez que tia Ruth fala do falecido marido, uma sombra escurece 
aqueles olhos to azuis e percebe-se que ela gostou muito dele, que ainda sente sua falta.
       Nesse momento, a voz do dedicado Horace as interrompeu, da porta:
       - H uma carruagem, senhoras...
       - Vamos ver que novidade  agora! - exclamou Valentina, animada, arrancando o pano que lhe protegia os cabelos e o avental. Correu at a porta, parou, voltou-se 
e disse  tia: - Eu estava brincando, titia! Sidonie no vai recusar lorde Stane, se ele a pedir. Agora, ela decidiu que ele  um cavaleiro das Cruzadas, ao qual 
s falta o elmo e a armadura...
       Lady Clara Rustwick sacudiu a cabea, rindo.
       - Hum... Pode ser que aquela menina tenha um pouquinho de inteligncia debaixo de todo aquele cabelo bonito!
       - Assim espero! Deixe-me ir,  capaz de ser tia Ruth que vem nos avisar de alguma coisa... - E saiu correndo.
       Quando chegou ao andar trreo a carruagem j parara diante da casa e, quando assomou a porta, no viu madame De Michel, como esperava. Uma senhora de estatura 
mediana, o rosto oculto por um pesado vu, subia a escada, acompanhada por umlacaio de libr branca.
       Horace aproximou-se de Valentina e entregou-lhe o carto que o lacaio lhe havia dado. A moa pegou-o da salva de prata e leu, surpreendida: "Lady Derwent 
Lock".
       Sem dizer uma palavra, levou a visitante para a saleta de visitas, onde ela sentou-se e s ento ergueu o vu, mostrando um rosto jovem, porm muito plido. 
Ela devia ter mais ou menos a idade de Valentina.
       - Sei que deve estar intrigada, lady Ashford - comeou ela, com voz suave, recusando o ch que lhe era oferecido. - Foi muita bondade sua receber-me. Poucas 
pessoas, hoje em dia, fazem isso.
       Valentina forou um sorriso:
       - Acredito que estejamos mais ou menos na mesma situao, senhora. Somos pouco visitados: todos sabem que no temos dinheiro e que moramos graas  generosidade 
de meu primo.
       - Eu vim visit-la justamente por causa de Charles, o seu primo - disse Jennifer Lock, apertando nervosamente as mos enluvadas uma na outra. - Posso ficar 
apenas alguns minutos. Se meu marido descobrir que vim aqui... - Os lbios dela apertaram-se tanto a ponto de se tornarem brancos. - Nenhum dos que foram meus amigos 
a vida toda fala comigo em pblico, embora alguns se dignem a demonstrar uma piedade discreta e muito em particular. O pobre Charles tambm foi coberto de oprbio, 
de lama e vergonha...
       Interrompeu-se e estava to nervosa, to agitada, que Valentina props:
       -No fale mais, por favor, se isso a perturba tanto, lady Lock.
       -Chame-me apenas de Jennifer, por favor, e peo-lhe que me escute. Charles costuma me visitar, ocasionalmente, em casa de meus pais e algo que ele me disse 
convenceu-me a vir aqui. Preciso contar nossa triste e verdadeira histria. A histria de um grande amor, porm sem ttulos e sem dinheiro... Um rapaz cheio de sonhos, 
galante, que foi para a ndia na tentativa de encontrar a fortuna... mas acabou encontrando a morte, na epidemia de clera que se alastrou no ano seguinte... - A 
voz dela rompeu-se num soluo.
       Valentina, num impulso, tomou entre as suas uma das delicadas e nervosas mos da lady.
       - Veja, eu no condeno meu primo pelos boatos que correm por a! Se  por isso que est se forando a reviver coisas que a fazem sofrer, no  preciso, minha 
amiga!
       Assim que disse aquilo descobriu que, de fato, jamais dera grande importncia queles falatrios.
       - Fico muito feliz com isso - disse lady Jennifer, sorrindo. - Mas quero que conhea toda a histria. Desde que fui apresentada  sociedade, sir Derwent procurou 
aproximar-se de mim. Eu tinha apenas dezessete anos e sentia muito medo dele. Vivia rezando para que meu Percy, que fora para a ndia, voltasse e pedisse minha mo 
a papai. Quando soube da morte dele, fiquei doente, muito mal, durante um ano. Quando recobrei a sade, o sr. Derwent tornou a se aproximar, encantador, atencioso, 
gentil...
       Ela calou-se, fazendo uma longa pausa, e seus grandes olhos verdes ficaram enevoados, perdidos, como se estivessem vendo as cenas do passado. Depois, com 
um sobressalto, voltou ao presente e continuou:
       - Eu no tentei engan-lo, Valentina... Expliquei-lhe meus sentimentos e ele riu, dizendo que com o tempo iria aprender a am-lo.
       Outra pausa prolongada, ento lady Lock suspirou, para depois continuar falando:
       - Mas no aprendi. Descobri que me casara com um homem brutal, violento. Descobri que ele se sentia humilhado por eu t-lo recusado por tanto tempo e, mais 
ainda, ao dizer sinceramente que no o amava. Por isso, ele se tornou muito cruel, procurando me humilhar, sempre, mesmo diante dos empregados. E quando no consegui 
lhe dar um herdeiro, ele se tornou mais agressivo ainda. As humilhaes passaram de palavras e atitudes para se tornarem agresses fsicas. Ele me batia de repente, 
nos momentos menos esperados, parecendo no conseguir controlar o dio venenoso que o sufocava.
       - Meu Deus! - exclamou Valentina, horrorizada. - Por que no voltou para a casa de seus pais?
       - Eu tentei. Ele me apanhou fazendo as malas e me bateu terrivelmente, acusando-me de ser amante de Charles, o que  uma mentira terrvel. Charles de Michel 
era o melhor amigo de Percy... As coisas foram ficando cada vez piores...
       A voz dela sumiu, no conseguindo passar pela garganta presa, enquanto seus olhos marejavam de lgrimas. Dominou-se a custo e prosseguiu, fazendo um gesto 
para Valentina, que ia de novo pedir-lhe que parasse.
       - Uma noite Derwent perdeu a cabea e surrou-me com tanta brutalidade que uma das criadas ficou apavorada e fugiu, indo chamar Charles. Disse-lhe que meu 
marido estava me matando, o que no era uma mentira, pois se eles demorassem a me socorrer provavelmente eu seria morta de pancada... Charles chegou a galope, invadiu 
a casa e atracou-se com Derwent. Foi uma coisa terrvel! Eles lutaram como feras e, por fim, furioso, Charles limpou as botas no corpo cado de meu marido. Os empregados 
que, atrados pelo barulho, tinham assistido  briga, aplaudiram o final...
       - Ento, Charles fugiu com voc?... - indagou Valentina, sentindo-se mal depois de tudo que ouvira.
       A moa morena fez que sim com a cabea.
       - Ele me levou para a casa de meus pais, onde fiquei morando desde ento. Quando Charles contou o que acontecera  minha famlia, meu irmo quis ir desafiar 
Derwent para um duelo... Meu marido atira muito bem e Charles sabe disso. Declarou ao meu irmo que, primeiro, Derwent tinha o direito de fazer um desafio a ele, 
pois invadira-lhe a casa e levara sua esposa embora. Convenceu meu irmo a esperar e, de fato, ele o desafiou.
       - Sim. Ouvi dizer que Charles ganhou...
       - ... Depois, quando Derwent recobrava-se do ferimento, Charles foi visit-lo e avisou-o para nunca mais se aproximar de mim ou de qualquer parente meu, 
seno ele terminaria o que comeara, matando-o de uma vez. Desse dia em diante, Derwent no economizou esforos ou dinheiro para denegrir a honra de Charles. Seu 
primo est pagando um preo muito alto por ter sido cavalheiro!
       Valentina sentia-se feliz ao ouvir aquilo e no conseguia esconder que estava alegre, por mais que se esforasse. Ento, lady Lock ps uma das mos num ombro 
dela e perguntou:
       - Ser que podemos ser amigas?
Valentina respondeu, sorrindo:
       - Terei grande honra! Mas, se somos amigas, permita-me uma pergunta: por que voc no apela para uma corte de divrcio? Tem mais do que argumentos e motivos 
para isso!
       - No posso. Todo mundo acredita que Charles e eu roubamos os diamantes Lock quando "fugimos" juntos... So jias magnficas: um anel, brincos, colar e bracelete. 
Meu marido espalhou que roubamos essas jias a fim de fugir para o exterior. Mas eu juro, Valentina: no roubamos nada!
       Quando, na tarde seguinte, madame De Michel chegou com os vestidos novos e a modista, para fazer os ajustes necessrios, houve uma verdadeira festa. As duas 
irms vestiram-nos imediatamente e trataram de mostrar-se para a animada benfeitora.
       Lady Clara Rustwick detestava dever para algum, principalmente para uma pessoa que desprezava, mas seu corao amoleceu ao ver a alegria das queridas sobrinhas. 
Hbil desenhistas, alis fora ela quem criara os modelos dos vestidos para as jovens, a madame pediu ao seu criado que fosse pegar os crayons e o caderno de esboos 
na carruagem, pois queria captar os "momentos felizes das beldades da famlia Ashford", explicou.
       Aguardando, com pacincia, enquanto a costureira enfiava alfinetes aqui e acol, ajustando o vestido, Valentina admirava a prpria imagem no espelho. Esquecera-se 
da incrvel diferena que um vestido pode fazer, mesmo quando uma moa  razoavelmente bonita.
       Quinze minutos depois, Leslie, que resmungara o tempo todo sobre como as mulheres so complicadas para se vestir, deu um pulo, surpreso, quando viu as irms 
entrarem na sala.
       - Bravo! Que maravilha! - exclamou ele, batendo palmas com estusiasmo.
       - No  uma viso encantadora? - indagou madame De Michel.
Indicou a delgada e graciosa figura de Valentina no vestido de seda azul-pastel e a leveza de Sidonie, quase etrea no vestido de tafet rosa-salmo, parecendo uma 
delicada flor desabrochada.
       As duas precipitaram-se para madame De Michel, mas ela pediu que ficassem paradas, enquanto rabiscava rapidamente em seu grande caderno.
       - No me beijem agora, por favor... Esperem - tornou a pedir. - No vou demorar muito...
       O jovem Ashford, curioso, olhou por cima do ombro da madame e os olhos dele se arregalaram de surpresa.
       - Por Deus, senhora! - exclamou. - Que dom precioso o seu!
       Desenha maravilhosamente! Nesse momento, Horace surgiu  porta e anunciou:
       - O coronel Card pede para ser recebido, srta. Ashford.
Espantado, Leslie voltou-se para a porta enquanto, sem saber por qu, Valentina sentiu um frio na boca do estmago, que se contraiu doloramente. Sidonie ficou olhando, 
imvel, ao mesmo tempo que a mo de madame que empunhava o crayon detinha-se no ar. Ela virou a cabea, sem esconder a curiosidade.
       O alto oficial da Cavalaria entrou rapidamente, apertou a mo do jovem Ashford, depois bateu fortemente os calcanhares e cumprimentou cada uma das senhoras 
com uma rgida mesura.
       - Senhoritas, so lindssimas! - exclamou, sem conseguir conter o comentrio.
       - Esta senhora  a minha cunhada, madame Henri de Michel -apresentou lady Clara.
       A madame encarou-o e o militar acusou o violento golpe que os profundos olhos azuis lhe causaram. Com suave e provocante sorriso, madame Ruth estendeu a mo 
delicada, fitando o coronel por entre os longos clios semicerrados.
       Por instantes, o cavalheiro pareceu ficar petrificado, depois aproximou-se, tomou a mo, beijou-a e disse, quase sem flego:
       - Seu humilde criado, madame!
       Ela sorriu mais luminosamente, murmurando com sua voz de veludo:
       - O senhor veio visitar lady Rustwick?
       - Na verdade, minha senhora, estou procurando o sr. Charles de Michel. Ele est em casa?
       - Ns no moramos aqui, meu caro coronel. Estamos na nossa casa de campo, que fica a cerca de um quilmetro daqui... - E, com um arquear de sobrancelhas, 
continuou: - Se o senhor aguardar que eu termine o desenho, poder me acompanhar at em casa.
       - Enquanto isso, coronel - props lady Clara -, tome um ch conosco.
       - Com imenso prazer... - respondeu o coronel, ocupando o lugar que lhe era indicado.
       - O senhor se encontra aquartelado nas vizinhanas, coronel Card? - indagou madame Ruth, enquanto desenhava.
       - Apenas temporariamente. Estou realizando umas investigaes para a Guarda Montada. Na verdade - ele fitou madame diretamente -, j tive uma conversa com 
seu filho, h poucos dias.
       Por uma frao de segundo a mo da sra. De Michel imobilizou-se e seu sorriso tornou-se fixo.
       Curioso... - A voz dela era quase um murmrio. - Ele no me disse nada.
       Aquela tarde tambm estava quente e, depois da sada do coronel Card, Charles de Michel foi para a varanda dos fundos.
       As flores, logo adiante da grade branca, enchiam o ar com seu perfume e o zumbido das abelhas criava um suave rudo de fundo. Mas o sr. De Michel no parecia 
ver toda aquela paz, aquela beleza. Seus lbios se encontravam quase retorcidos, numa expresso angustiada, e a voz soou baixa, rouca, sem que ele percebesse que 
falava alto.
       - Que diabo vou fazer? Quanto tempo ainda me resta? - E, enquanto murmurava, acendeu uma cigarrilha, tirando uma longa baforada.
       - Ser que voc precisa, mesmo, empester a tarde com esse seu charuto? - queixou-se madame Ruth, aproximando-se.
       - Desculpe, maman. Pensei que estivesse l em cima, trocando de roupa... - Ao voltar-se, notou que a me estava com ar zangado e procurou brincar: - Parece 
que a senhora fez mais uma conquista!
       - E isso o aborrece, por acaso?
       - Claro! - respondeu o rapaz, rindo.
       Mas madame De Michel no riu. O ressentimento brilhou nos bonitos olhos azuis.
       - Voc agiu de um modo errado, primrio, meu filho! Pode at ter levantado suspeitas! Por que no me contou que ele j o havia procurado?
       Charles de Michel respondeu, de modo evasivo:
       - Estou de olho nele, maman.
       - Ah, Charles, Charles! - exclamou ela e havia desespero na voz bonita. - No posso mais viver desse jeito! Por favor, eu imploro! Deixe-me voltar para Londres!
       - Gostaria de poder fazer isso, maman, mas a senhora no me deu alternativas!
       Ela tentou esconder o soluo que lhe transpareceu na voz, quando se lamentou:
       - Como pode ser to desleal, mon fils?
       -  uma questo de ponto de vista... Eu fao o que posso, como a senhora.
       - Palavras, apenas palavras! Minha segurana nada significa para voc?
       Ele abaixou a cabea e, ao ver aqueles cabelos escuros e fartos, ela se enterneceu. Disse, com voz quebrada pela emoo:
       - Charles, je teprie, pare de querer ser heri! A sua causa est per dida! Pelo bem de ns dois, pare antes que seja tarde demais.
       Depois de um momento de silncio tenso, os ombros dele se retesaram. O rapaz ergueu a cabea e seus olhos brilhavam como se estivessem em brasa.
       - No posso! - exclamou com voz apertada, como se as palavras lhe rompessem o peito.
       A expresso da linda senhora tornou-se dura, os olhos azuis pareceram dois pedaos de gelo. Num gesto rpido, ela esbofeteou o filho, enquanto dizia:
       - Traidor! Ingrato sans coeurl
       E, sem esperar a reao, ela correu para dentro da casa, deixando-o sozinho diante do bonito jardim ensolarado.
       Os empregados extras chegaram ali pelas duas horas da tarde da quinta-feira marcada para a reunio. Mas o que madame quisera dizer com "eles traro tudo", 
os Ashford nem sequer desconfiavam. Chegaram seis carroas, quatro carretas, duas carruagens, trazendo os empregados e vrios serviais, cada qual com sua especialidade: 
montar mesas, tratar de cavalos, preparar ponches, salgadinhos etc.
       Um imponente mordomo-mor entrou, altivo e, ao deparar com Ho-race, lanou-lhe um olhar fulminante, misto de descrena e averso. Voltou-lhe ento as costas, 
com ar de enfado para ento, estarrecido, ver a sala ao redor. Quando entrou na cozinha no pde conter um gemido de sofrimento e quando pensou que as surpresas 
haviam terminado o jovem Ashford irrompeu como um vendaval, mal conseguindo andar com as calas muito apertadas. Gritava, furioso:
       - Onde esto aquelas bruxas? O que elas fizeram com as minhas cal... - E, ao perceber os inmeros rostos estranhos, voltados para ele com os olhos arregalados, 
fugiu como se fossse seguido por mil demnios.
       O mordomo-mor comeou a achar que aquela seria uma noite memorvel em sua vida e ficou mais alegre.
       O sol j estava bem baixo no horizonte quando madame De Michel desceu de sua carruagem, diante da porta principal de Wyenott To-wers. Era uma belssima viso 
em seu vestido de tafet creme, com decote ousado e uma capinha marrom-acastanhada. Os cabelos magnficos estavam arranjados no alto da cabea. Assim que entrou 
no espaoso hall foi para diante de um espelho, ajeitar os cachos e o magnfico colar de jade que ornamentava o colo de pele lisa, sedosa e macia.
       Antes que Valentina, aproximando-se, pudesse agradecer-lhe o emprstimo do colar de safiras, madame disse:
       - No quero agradecimentos, ma flel Esto muito lindas em voc. - E, suspirando: - Mas minhas esmeraldas me fazem falta... Ah, no me julgue grosseira. Seu 
querido papa me desejava apenas o melhor e se o plano dele tivesse funcionado hoje ns todas seramos trs riches!
       Valentina sentiu o peito se apertar.
       - A senhora est falando das esmeraldas Gatesford? Quer dizer que as emprestou ao meu pai?
       - Oui! John e eu sempre emprestvamos dinheiro um ao outro. Acho que ramos meio... irresponsveis. Jamais fizemos qualquer controle, mas imagino que as esmeraldas 
pagaram at mais do que os emprstimos que ele me fez.
       - Pa... pagaram? Tia Ruth, essas esmeraldas deviam valer uma fortuna!
       - Mas seu pai precisava dessa fortuna, chre! Para investir naquele projeto alemo de luz, de aquecimento... no sei bem. Vamos esquecer isso, sim? Os convidados 
devem estar por chegar e precisamos for mar a fila de recepo... - Voltou-se para o mordomo-mor e falou com ele em francs: - Meu caro Jean-Paul, no tenho como 
lhe agradecer. Voc fez tudo to bem e em to pouco tempo! Providenciou, tambm, os cuidados com os cavalos? Creio que...
       Valentina foi para o piso superior, chamar a tia e a irm. No conseguia esquecer das esmeraldas Gatesford. Tia Ruth as havia dado a seu pai.
       No pde deixar de pensar, angustiada, que nesse caso encontravam-se ali sem nenhum direito. Compreendia, agora, por que Charles ficara to aborrecido com 
ela. Ele deveria saber que a famlia dela era quem devia...
       Sentiu-se profundamente deprimida. E os acontecimentos comearam a se desenrolar como se fossem um sonho. Ela parecia no fazer parte daquele cenrio estranho.
       A cada momento que uma carruagem parava diante da escadaria do prtico, ela achava que era a ltima, mas s nove horas ainda havia convidados chegando e quando, 
s dez, ainda chegavam carruagens, Valentina ficou como que em estado de choque.
       No centro de um grupo de admiradores, Sidonie segurava a taa de champanhe com uma das mos enquanto com a outra abanava-se com um leque, os olhos radiantes 
de felicidade. Ruth de Michel deslocava-se de um grupo para outro, trocando cumprimentos, to amvel e graciosa quanto linda.
       O alto e elegante coronel que as visitara havia alguns dias encontrava-se presente, elegantssimo em sua farda de gala, e o jovem Ashford murmurou ao ouvido 
de Valentina:
       - Olhe s o coronel Card! Veja a expresso dele... O homem nem est abobalhado.
       Um criado em libr aproximou-se, oferecendo champanhe.
       - Meus ps doem tanto - surrurrou Leslie, com cara de sofrimento -, que mereo mais uma. E outra para voc, maninha. Beba rpido, antes que algum testemunhe 
sua depravao!
       Depois de apenas dois goles Valentina resolveu deixar a bebida; achara-a muito forte. Quando o irmo afastou-se, ela notou que tia Clara parecia aborrecida, 
sentada ao lado da esposa do pastor, com quem conversava. Ser que a tia estava zangada porque a vira beber?
       s onze e meia, saiu um pouco no jardim. Um vento suave comeara a soprar e ela sentiu-se melhor ao frescor da noite.
       Depois de tantos dias de trabalho duro, pensou, deveria estar descontrada e feliz, como sua irm. No entanto, sentia-se cansada, desanimada, com dor de cabea... 
Enfim, sentia-se miservel. Se pelo menos Charles tivesse ido  festa, talvez conseguisse tirar as esmeraldas Gatesford da cabea. Mas ele no viera... Provavelmente 
se zangara por s ter sabido da festa na ltima hora.
       Deu alguns passos pela alameda do jardim e ouviu que um cavalo aproximava-se a passo e parava ao lado dela. Voltou-se e o cavaleiro disse, com voz grave:
       - No se assuste,  apenas o proprietrio tirano que acaba de chegar. - Ele desmontou e aproximou-se. - Voc est linda demais, prima, para ficar aqui sozinha. 
Parece que as mulheres Ashford tm uma estranha tendncia a sarem perambulando  noite, sozinhas... ou ser alguma loucura familiar?
       - Se for, s recentemente eu a descobri - riu ela.
Charles riu tambm e disse:
       - Touchl Como sou da famlia, portanto... - Fez uma mesura - estamos na mesma situao.
       Valentina o admirava. Como era alto, forte e gil. Movimentava-se com tanta facilidade e... De repente, notou que havia dois alforjes pendendo da sela do 
cavalo.
       - Vai viajar primo? - perguntou.
       Ele segurou-lhe o brao, enquanto indagava, por sua vez:
       - Isso a incomodaria?
       Ento, percebendo que incomodava, mesmo, ela respondeu com sua franqueza habitual:
       - Sim.
       Estavam muito prximos e ele olhou para baixo, para o rosto dela, erguido para ele, e o corao de Valentina disparou.
       - Tina... - a voz de Charles era incrivelmente suave, carinhosa.
Os lbios dele roaram a fronte dela, fazendo-a estremecer.
       - N... no, Charles. Eu gostaria de dizer que...
       - No, no diga! - Os dedos dele passearam pelo contorno do rosto de Valentina, numa doce carcia. - O que fazia aqui? Um encontro romntico, talvez?
       Ela conseguiu recuperar a voz:
       - Por qu? Acha que no tenho admiradores?
       Ele a afastou um pouco de si, fitando-a com um brilho irritado nos olhos negros.
       - No  isso! Mas se voc acha que pode sair assim,  noite, para se encontrar com um jardineiro apaixonado, eu...
       - J sei! Voc me colocaria de bruos no seu colo e me daria umas boas palmadas! Depois, quebraria o nariz do apaixonado, apontaria sua pistola para ele! 
- Afastou-o mais de si, brava. - Por que acha que s poderei despertar paixo em um jardineiro e no em um nobre?
       - Porque s um nobre sem escrpulos viria encontrar-se com uma senhorita depois do anoitecer, estando ela a ss e ele nem se importando com a honra da senhorita 
em questo!
       - Bem, para sua informao, cavalheiro, h diversos nobres na nossa festa, lindos oficiais da Cavalaria e...
       - Na sua o qu? - berrou ele, agarrando-a pelos braos e quase sacudindo-a.
       - Na nossa festa! Voc no veio para ela?
       - Maldio do inferno! - rugiu ele. - O que est acontecendo?!
       - No pragueje desse jeito, Charles! E me largue: est me machucando!
       - Pois eu deveria  enforc-la! - exclamou ele, com raiva. - Voc e minha me  que inventaram esse negcio de festa, no foi?
       Ele voltou-se com tamanha fria que ela quase caiu e o cavalo recuou, assustado.
       Charles de Michel praguejou de novo e saiu andando, quase correndo, na direo da casa.
       Alarmada, Valentina esqueceu-se das convenes sociais e saiu correndo atrs dele.
       - Charles, espere! - gritava. - O que voc vai fazer?
       Ele rosnou a resposta, entre os dentes, por cima de um ombro:
       -Venha comigo e ver!

       CAPTULO VIII

       Quando entrou na casa e atravessava o hall com passos largos e apressados, Charles de Michel viu o jovem Ashford sair do salo de festas e vir a seu encontro 
com passos trpegos, cambaleantes. Encontraram-se no meio do caminho e foi a sorte do rapaz, que iria ao cho se o primo no o amparasse.
       - Onde pensa que vai? - perguntou o recm-chegado.
       - Para o inferno! - respondeu Leslie, tentando livrar-se das mos que o seguravam.
       No conseguiu soltar-se e, ao contrrio, procurou mais apoio no brao forte do primo, enquanto dizia, com a lngua enrolada dos bbados, as palavras saindo 
confusas:
       - Foi ela, shabe? Abigail Tembury dishe que shou chovem demais para ela... E o pashtor!... Ele... ele dishe que no tenho nem onde cair morto! Entende?... 
Fui recushado antes de pedir a mocha em cashamento! Mash eles vo ver... vou ficar rico, logo...
       Conseguiu livrar-se das mos de Charles e dirigiu-se quase caindo, para a escada, tentando ir para seu quarto, no piso superior. No terceiro degrau, porm, 
tropeou e quase caiu de rosto no cho. Aprumou-se e, com a dignidade duvidosa de quem abusou demais da bebida, recomeou a difcil subida. Ento, um criado em libr 
aproximou-se de Charles de Michel.
       - Senhor, se me der seu carto, por favor...
       - No seja inconveniente! Para que preciso me apresentar com carto em minha prpria casa?
       - Mas... as suas roupas, senhor...
       - Estou at bem vestido demais para o que vou fazer daqui a instantes! - retrucou Charles, com voz ameaadoramente baixa e seca.
       Nesse instante Valentina o alcanou:
       - Charles... - comeou, ofegante. - No entendo! Voc aprovou esta festa e, agora...
       - Aprovar?! Nem sabia dela e vou temin-la agora mesmo!
       - Como? - Ela segurou-o por um brao. - Ento, quem mandou todos esses mveis, tapetes, cortinas, quadros?
       - Santo Deus! - exclamou ele, s ento reparando nessas coisas. - Isso tudo ficaria timo em Versailles, no numa manso campestre! Isso  coisa de minha 
me!
       J se encontravam quase no meio do salo  essa altura, pois Valentina no conseguia fazer Charles parar, e as pessoas ao redor comeavam a observ-los, calando-se 
aos poucos. Em momentos o salo tornou-se completamente silencioso.
       Madame Ruth encontrava-se sentada entre dois militares, rindo, quando a voz grave e rspida do filho chegou at ela:
       - Maman\
       O copo de vinho caiu da mo delicada, tal o susto que ela levou. Os olhos azuis, muito abertos, fixaram-se no filho.
       - Charles! - murmurou.
       - Est na hora de dormir, maman.
       - Ainda no - desafiou ela. - V embora, Charles! O coronel,  direita de madame, levantou-se.
       - Creio que basta, senhor - disse, severo, com as sobrancelhas erguidas em sinal de irritao.        
       Os olhos negros e ameaadores de Charles fitaram-no por instantes, voltando imediatamente para a me.
       - Maman, sabe perfeitamente o que seu mdico disse sobre festas e agitao. Vamos!
       - No seja ridculo! - exclamou madame, altiva, e num sussurro entre os dentes, completou: - Todos esto olhando, Charles!
       - Sua maman disse que no quer se retirar, sr. De Michel - avisou, intencional.
       - Claro! Caso os cavalheiros se disponham a se responsabilizar e cuidar dela se tiver outro enfarte...

       - Oh! Bem... - murmurou o coronel, recuando.
Charles voltou-se de novo para a me:
       - No queremos um escndalo, no  querida?
       O olhar de ambos se cruzavam como espadas de fogo, atravessando o ar carregado de tenso. Por fim, madame abafou uma exclamao e atravessou o salo, em direo 
 sada, seguida por Valentina, muda de espanto. No hall, ela jogou-se nos braos da jovem, soluando.
       - Nun... nunca fui t... to mi... humilhada!
       Valentina olhou o primo por cima de um ombro, com desdm.
       -Pelo menos uma vez ela se divertia! Como teve coragem de fazer isso?
       - Exijo que esta casa esteja desocupada at o fim do ms, srta. Ashford! - disse ele, em tom cido.
       Nesse instante lorde Stane entrava com Sidonie, que disse, toda feliz:
       - Veja quem encontrei l fora, titia! Eu... - Ento, percebeu que havia algo errado. - O que aconteceu?
       Lorde Stane encarou o amigo, surpreso:
       - Charles, voc ficou louco?
       - Sem dvida, fiquei - respondeu ele, seco, puxando a me por um brao. - Vamos, mamanl
       Sentindo-se sufocar, Valentina interferiu:
       - Como pode ser to grosseiro, primo? Sua me est...
       - Est me fazendo esperar e eu no gosto disso!
       Madame Ruth compreendeu que no adiantaria lutar e deixou-se levar pelo filho, chorando. Lorde Stane disse a Sindonie:
       - Eu vou com ele... No se preocupe, senhorita. Charles  spero quando fica nervoso, mas  o melhor homem do mundo!
       - Como o senhor tem coragem para defender um monstro que trata a prpria me com tanta brutalidade? - indagou Sidonie, com os olhos rasos de lgrimas.
       - Charles teve... - comeou o rapaz. - Bem, desculpem, mas h coisas que as senhoritas no podem saber.
       - Mas sei agora, claramente, a quem o senhor d sua lealdade! Se for com ele, senhor, no se d mais ao trabalho de me procurar!- exclamou Sidonie, com a 
voz erguendo-se  medida que falava.
       O lorde encarou-a com firmeza. Com o rostinho erguido, afogueado, os olhos brilhantes de raiva, a mocinha estava linda! Depois de hesitar um instante, ele 
disse:
       - Espero que no se arrependa de suas palavras, senhorita... - Depois, plido e muito srio, fez uma mesura para Valentina e saiu.
       Sidonie disparou escada acima, chorando e repetindo o que os jovens sempre disseram e continuaro dizendo:
       - Ningum se incomoda comigo nesta casa! Quero morrer!
       O primeiro impulso de Valentina foi correr atrs da irm e consol-la, mas como poderia deixar lady Rustwick sozinha com os convidados?
       Lembrou-se, ento, da rspida determinao de Charles e fechou os olhos, tentando dominar a dor que lhe rasgava o peito. Respirou fundo, abriu os olhos, forou 
um sorriso nos lbios plidos, que os olhos brilhantes de lgrimas contidas desmentiam, e entrou no salo.
       - Eu avisei o senhor de que nunca mais viria ao seu encontro!
       - disse Sidonie, ajeitando a capa com os olhos fixos em sir Derwent Lock.
       A expresso e o sorriso do cavalheiro no eram nada agradveis, porm a mocinha no pde perceber isso, na penumbra que reinava naquele pavilho do jardim 
de Wyenott Towers.
       "Como ela  bobinha!", pensava o homem. "S que  uma bobi-nha linda e eu a quero para mim..." Falou, ento, suave:
       - Esperei tanto por sua vinda que quase fiquei desesperado... Est to bonita! Agradeo-lhe por ter vindo!
       - Bem, eu no devia. Mas preciso tanto de um amigo! O senhor disse que  meu amigo, no?
       - Disse, sou e trouxe algo para provar isso!
Ela continuou, sem ouvir o que ele respondera:
       - Estou em apuros, sir Dewrent! - Segurou-o por uma das mangas e lgrimas comearam a correr-lhe pelo rostinho aflito. - Meu primo Charles expulsou-nos da 
casa dele.
       Somente o dio por Charles de Michel podia superar a repulsa que sir Lock sentia por mulheres chorosas. Aproximou-se mais e amparou-a, murmurando:
       - Meu Deus, que infmia!
       - O que a pobre me dele deve sofrer nas mos daquele monstro! - continuou ela, soluando.
       O homem passou um brao pelos ombros da mocinha e, no sentindo resistncia, animou-se:
       - Deixe-me ajud-la! Deve haver alguma casa disponvel em minha propriedade.
       O rosto dele encontrava-se bem prximo ao dela. Seu sorriso assemelhava-se a um esgar horrvel de se ver e havia um brilho nos seus olhos profundos que Sidonie 
no teria apreciado.
       - No quer ver o que lhe trouxe? - indagou ele, com voz insinuante.
       Num sbito impulso, ela afastu-se do homem que tinha idade bastante para ser seu pai.
       - Oh... eu... Bem... - balbuciou, incerta.
       -  apenas uma coisinha adorvel para uma moa adorvel...- murmurou ele, colocando uma caixinha na mo da jovem. - Um testemunho da minha amizade.
       Sindonie sabia que era errado aceitar presentes de um cavalheiro com quem no se tinha compromisso ou que no era um parente. Poderia dar uma olhadinha, pensou, 
e depois recusar, se fosse inconveniente.
       Retirou o papel prateado e abriu a caixinha: era um broche delicado, em forma de gato, com olhos verdes.
       - Que lindo! - exclamou. - Parece de ouro e os olhinhos parecem esmeraldas!
       - Um momento em sua companhia vale mais do que jias! -declamou sir Lock, teatral.
       Dessa vez a mocinha notou a alterao das feies do cavalheiro quando ele dissera a palavra "jias".
       - O senhor lembrou do Cavaleiro Misterioso? - indagou, insegura. - Ele roubou coisas de muito valor, naquela noite?
       - Se eu estivesse armado, teria acabado com o mistrio dele! A Guarda Montada chegou pouco depois do assalto e eles acharam que o alcanariam... mas aquele 
cavalo negro desse criminoso  veloz, bem treinado. Deve valer uma fortuna!
       Sindonie lembrou-se de algo e disse, rindo:
       - Charles tambm tem um puro-sangue negro... - Bateu palmas, divertida. - E se meu primo fosse esse bandoleiro? Uma noite, Valentina o viu cavalgando em disparada. 
- Ficou empolgada com a ideia. - Vai ver que  por isso que ele prende a me em casa: tem medo que ela o denuncie! Por isso obrigou-a a ir embora da festa! Ah! Ele 
estava com roupas de viagem e seu cavalo negro! Aposto que vai assaltar o Correio Noturno! Ao ver a expresso maldosa que se instalara no rosto de sir Derwent, ela 
se calou, assustada. Rpido, ele tomou-lhe a mo, beijou-a e despediu-se:
       - Adeus, minha pequena jia. Preciso ir, agora.
Ela estendeu a mo, querendo devolver o broche.
       - No posso ficar com isto, senhor! - gritou, mas era tarde, ele j se afastara. Ela sacudiu a cabea: - Parece que todos esto ficando doidos!
       Charles de Michel foi para a varanda, levemente clareada apenas pelo luar, onde lorde Stane o esperava. Sentou-se ao lado do amigo e disse:
       - Obrigado por ter vindo comigo e me esperado.
       O lorde ofereceu-lhe uma cigarrilha, que ele recusou.
       - Pode contar sempre comigo, Charles. Como est ela? Parece que ela o machucou, meu amigo...
       O rapaz passou, de leve, os dedos por arranhes que lhe marcavam o rosto.
       - ... Estava fora de si. Consegui faz-la deitar-se... Eu no devia ter deixado os Ashford irem morar l. Foi estupidez... - Depois de uma pausa, acrescentou: 
- O jogo est terminando, meu caro. Card desconfia de mim. Stane tambm achava isso, mas tentou acalmar o amigo:
       - Ele parece fascinado por sua me. Deve ter se apaixonado. Quem sabe vai fechar os olhos...
       - No.  daqueles homens cujo maior amor  a carreira militar - ponderou o sr. De Michel pegando seu cachimbo e colocando fumo no fornilho. Acendeu-o, tirou 
umas baforadas e s ento indagou: - E voc? Apaixonou-se por aquela menina mimada?
       O lorde pensou um pouco antes de responder.
       - Acontece que voc v em Sidonie apenas uma criana, mas para mim ela  uma mulher lindssima. Alis, parece muito com a irm.
       Charles de Michel apertou na boquilha do cachimbo:
       - Por que no escolheu a irm, ento?
       - Para acabar garroteado e entregue a ces famintos? - riu o lorde. - Pensa que sou cego, meu amigo?
       O sr. De Michel ficou vermelho, tanto que isso era visvel at ao luar.
       - No vamos falar em mim... - E, lembrando-se da cena da festa, pediu: - Perdoe-me pelo que aconteceu. Caso Sindonie o ame, ela vai passar por cima de tudo.
       O outro abaixou a cabea e procurou sorrir.
       - Tentarei saber disso, caso ela me comunique seu novo endereo... Ela  muito jovem, teramos de ter um noivado longo, durante o qual eu pretendia faz-la 
largar as infantilidades que ainda conserva. Se ainda der, pretendo fazer isso.
       - Tem razo... Diga-me, voc tinha marcado encontro com ela, esta noite?
       - No. Acontece que quando ouvi falar na festa em Wyenott Towers, achei que voc tinha ficado maluco e resolvi ir at l. Ento, encontrei-a no jardim, voltando 
para a casa.
       - Hum... Mais um dos misteriosos passeios noturnos das mulheres da famlia Ashford, pelo jeito.
       - Tambm no. Ela me disse que tinha sado  procura de Horace, para que ele fosse at a vila. Queria que o velho despachasse uma correspondncia pelo correio 
noturno e...
       O sr. De Michel deu um pulo da cadeira, pondo-se de p, e fitou o amigo, com os olhos cheios de horror:
       - Correio noturno? Por Deus, como sou idiota! Fui ludibriado, quando me cumprimentava por ter sido esperto!
       No instante seguinte, descia correndo os degraus da varanda e encaminhava-se para a estrebaria, com o amigo em seu encalo, dizendo esbaforido:
       - No pode ter certeza disso, Charles! E se aconteceu o que pensa, se tambm o coronel Card suspeita de voc, deve estar vigiando e vai apanh-lo!
       - S se ele tiver um cavalo muito rpido!
       Charles de Michel aproximou-se de uma baia onde seu puro-sangue negro relinchou, como se o cumprimentasse. Em poucos minutos o magnfico animal estava com 
os arreios.
       -    - Venha, Vento-da-Noite - disse Charles, carinhoso. - Temos uma misso, meu velho.
       - Com certeza eles esto com os homens redobrados, Charles! - afligia-se lorde Stane. - Vou com voc.
       - No! Prefiro que voc fique aqui, Sam. Por favor, tome conta dela para mim, meu amigo.
       E, montando agilmente, ele desapareceu noite adentro, deixando o amigo desolado. Triste, lorde Samuel Stane foi para o interior da casa.
       Sem flego, lady Clara Rustwick parou no patamar do primeiro lance da escada e voltou-se para Valentina, comentando entre ofegos:
       - Nossa casa estava parecendo um quartel! Tantos militares! Acho que sua tia Ruth se tornou muito patriota!
       Valentina tentou sorrir, mas o cansao tirara o brilho dos olhos meigos.
       - ... Estou exausta, titia! Ainda bem que Horace est cuidando da arrumao e da embalagem de tudo que vai embora com os criados de tia Ruth...
       A lady olhou-a com ateno.
       - Alm de exausta, voc est muito triste, filha...  por causa do espetculo horrvel de Charles, no? Eu sei. O condado vai ter o que comentar durante meses... 
Bem, vamos dormir, querida.
       Quando Valentina entrou no seu quarto, sentou-se na cama, sem coragem sequer para tirar a roupa. Em seu crebro as imagens desfilavam, com incrvel clareza 
e velocidade. O rosto de Charles contrado pela fria quando lhe dissera para ir embora de Wyenott Towers, o riso cnico de lorde Lock, o rosto bonito e preocupado 
de tia Ruth ao dizer-lhe que no julgasse Charles um dspota, o beijo de "parente", naquela tarde, na pedreira... e a ltima dele, o rosto selvagem, a fria que 
lhe deixava os lbios brancos, quando arrastara a me da festa...
       No comeo, achara o primo um enigma; agora tinha de reconhecer: no era normal uma pessoa mudar de jeito, quase que de personalidade, como acontecia com ele. 
Havia algo errado.
       Um drago... Lembrou-se de repente, do irmo cado no jardim e Sidonie com p no peito dele.
       Onde estaria o "drago"? Lembrava-se de que no comeo da festa Leslie parecia estar se divertindo muito. Depois, mais tarde, desaparecera e ela notara que 
a filha do pastor tinha os olhos vermelhos, como se tivesse chorado.
       Tratou de ir ver o irmo. Chegou  porta do quarto dele e bateu, mas no conseguiu resposta. De sbito, um medo inexplicvel apertou-lhe o peito. Abriu a 
porta e percebeu,  fraca luminosidade da vela que levara consigo, que a cama dele no fora desarrumada.
       Precisava procurar Leslie. Mas onde?
       Primeiro, pensou, embaixo da cama. Olhou e sentiu-se ridcula. De repente, lembrou-se das palavras de Sidonie, no jardim, que Leslie andava gastando dinheiro 
em flores, bombons e outros "presenti-nhos" para uma certa senhorita... Corou, envergonhada com o que pensava fazer, mas precisava estar a par das coisas. Era a 
mais velha, respondia pelos irmos na ausncia de Lincoln. Tinha de procurar para ver se havia alguma coisa, ali, que o irmo pretendesse dar para a srta. Tembury. 
Ele ficara muito zangado naquela tarde...
       Abriu, remexeu e fechou gavetas, examinou o grande armrio, os bolsos das roupas. Nada. Comeou a sentir um certo alvio, achando que aquele seu impulso desconfiado 
no tinha razo de ser, mas continuou procurando, j ento na estante de livros. Retirava-os e passava a mo nas prateleiras de cima... Sim, havia alguma coisa. 
Um pano de limpeza esquecido ali, talvez? Segurou-o, puxou.
       Era uma espcie de saco de tecido negro, com dois buracos de utilidade bvia: abertura para os olhos de quem o enfiasse na cabea. Tornou a procurar e retirou 
.do fundo da prateleira trs pequenos sacos de pano, cheios com alguma coisa, bastante pesados. Rezando para que no fosse algo ruim, levou-os at a cama e despejou 
o que havia dentro deles. Ficou paralisada de horror, olhando sem conseguir acreditar no que via. A porta abriu-se atrs dela, mas a moa no se voltou.
       - Oh, desculpe, Valentina... - comeou Sidonie, quando viu o que havia em cima da cama. - Oh, meu Deus!
       Ento, Valentina voltou-se pensando em perguntar a irm onde estivera, pois no a vira mais no salo, mas a mocinha aproximou-se, balbuciando:
       - Di... di... diamantes?! De on... onde eles vieram?
Sem uma palavra, Valentina ergueu a mscara negra.
       - Leslie?! - guinchou Sidonie, engasgada. - Nosso irmo  o Cavaleiro Misterioso?
       - Eu... eu temo que si... sim - conseguiu dizer Valentina. Depois, forando-se a ter calma: - E estes devem ser os diamantes Lock.
       - Mas... Mas Charles e lady Lock no roubaram esses diamantes.
       - No. Lady Lock procurou-me e contou toda verdade, hoje  tarde. Eu ia dizer a voc, mas os preparativos da festa... Os diamantes no foram roubados por 
eles, foi mentira!
       Nesse momento, atrada pelas vozes, Lady Rustwick entrou no quarto e apavorou-se ao ver os diamantes.
       - O que  isso?! - E depois que Valentir^a lhe explicou como os encontrara perguntou: - O que faremos agora, meu Deus?
       Ouviram, ento, uma tossezinha discreta  porta.
       - Algum problema, srta. Ashford? - indagou Horace.
       - Oh, entre, Horace! - disse a moa, procurando manter-se calma. - Sim, temos problemas bem mais graves do que a festa interrompida... - E ps o dedicado 
homem a par do que acontecera.
       - Isso quer dizer que Charles de Michel  inocente das terrveis acusaes com que lorde Lock denegriu sua reputao! - exclamou lady Clara, penalizada.
       - Oh... Santo Deus! - soluou Sidonie, apavorada. - O que eu fui fazer?! - E passou a chorar perdidamente.
       - Pare com essa mania de fazer drama! - repreendeu-a a tia, com rispidez. - No pode ter feito nada que...
       - Fiz, sim... Eu... eu disse a lorde Derwent que Charles  o Cavaleiro Misterioso! - Os dentes da mocinha batiam, de tanto que ela tremia.
       - Lorde Derwent? - indagou lady Clara, cismada. - E onde o encontrou?
       - No nosso jardim. Eu tinha ido para dizer a Horace para levar uma carta de tia Ruth  aldeia, para seguir no Correio Noturno. Oh!. Acho que tra meu prprio 
irmo!
       Lady Clara abriu os braos, num gesto desalentado:
       - No entendo! Voc disse que Charles era o Cavaleiro!
       - Mas eu tambm disse que Charles ia assaltar o Correio Noturno de hoje! E Leslie no est aqui... e se ele  o Cavaleiro Misterioso, ento...
       A voz da mocinha afogou-se em lgrimas e Valentina murmurou, apavorada:
       - Nesse caso, sir Lock deve ter avisado a Guarda Montada.
       -  melhor eu atrelar a charrete e... - comeou Horace, mas interrompeu-se. - Ouam, passos! Algum se aproxima.
       - Mancou rapidamente para a porta e quando chegava a ela Leslie Ashford entrou, segurando um saco preto com uma das mos, o outro brao cado, inerte, ao 
longo do corpo, enquanto o sangue pingava pelos dedos da mo.
       Lady Rustwick correu encher a bacia sobre a penteadeira com gua que havia no jarro, dizendo:
       - Menino louco! Por que fez isso? Foi voc, meu filho, que assaltou lorde Lock no? E, hoje, assaltou o Correio? - perguntou a velha senhora, engolindo a 
dor e as lgrimas.
       O rapaz deixou-se cair sobre a cama, dizendo com voz fraca:
       - No podamos... explorar o... Charles para sempre... Eu queria... ficar rico...
       - Menino louco! - exclamou Valentina, contendo as lgrimas e tratando de tirar o casaco do irmo. - Se era isso, por que no se contentou com os diamantes?
       O rapaz tentou sorrir.
       - Esses eu... eu pretendia devolver... para limpar o nome do primo... provando que ele no os roubou, como aquele... canalha disse...
       - Oh! - gemeu Sidonie, muito plida. - A manga est toda ensanguentada!
       Com um suspiro, o jovem Ashford perdeu os sentidos.
       - Coitado do meu irmo... - murmurou Valentina. Estou ouvindo tropel de cavalos - disse o dedicado Horace.

       CAPTULO IX

       Lady Clara e Sidonie correram para seus quartos, enquanto Horace descia para ir atender  porta, que algum esmurrava com impacincia evidente. Na ponta dos 
ps, apesar de temerosa por deixar o irmo sozinho, Valentina aproximou-se do incio da escada e ps-se a ouvir, para saber o que se passava l embaixo. Escutou 
o velho empregado dizer:
       - Oh,  o senhor?
       No houve nenhuma resposta. Em seguida, ela ouviu o rumor de passos entrando, correndo. Apressou-se a descer a escada, correndo tambm, com o corao batendo 
descompassado.
       Encontrou Charles de Michel ao p da escada.
       Ele estava sem chapu, vestido do mesmo modo que o vira antes, s que uma capa negra pendia-lhe dos ombros e segurava uma pistola de cano longo, de aspecto 
assustador e mortfero, na mo direita.
       A moa parou, ofegante, e ele tambm. Ficaram frente a frente, encarando-se, por talvez uns cinco segundos que lhes pareceram uma eternidade. E naquele espao 
de tempo Valentina teve uma sensao estranha e ao mesmo tempo deliciosa, que no saberia explicar. Por fim havia compreendido: amava aquele homem selvagem e imprevisvel. 
No importava o que ele tivesse feito, o que fosse, o que pensasse, ela o amava. Simplesmente amava e no podia, nem queria, evitar isso.
       No instante seguinte a essa revelao que a angustiava e tornava feliz, Valentina percebeu uma sombra escurecer ainda mais os profundos olhos negros de Charles 
e teve outra compreenso fulminante: ele tambm a amava. Tinha absoluta certeza: seu amor era correspondido.
       O silncio era pesado, o candelabro que Horace segurava, no muito longe deles, fazia as sombras danarem ao sabor do movimento das chamas das velas.
       Charles de Michel franziu as grossas sobrancelhas e disse, quase num murmrio:
       - No me diga que ele no est aqui. H sangue nos degraus da escada.
       - Ele est no quarto vermelho... - sussurrou ela, e seguiu-o, quando ele subiu a escada, quase correndo.
       O sr. De Michel abriu a porta do quarto de Leslie Ashford sem nenhuma cerimnia. Apenas uma vela  cabeceira do ferido o iluminava, deixando o restante do 
quarto no escuro. Valentina tinha coberto o irmo com uma colcha e o primo arrancou-a de cima dele, descobrindo-o. O rapaz abriu lentamente os olhos, enquanto o 
homem o examinava, fitando primeiro o rosto extremamente plido e o peito manchado de sangue.
       - Maldito jovem idiota! - murmurou ele, sem nenhum trao de rancor na voz. - Onde est o que voc roubou?
       O jovem Ashford esforou-se por sentar-se, apoiando-se no cotovelo do brao bom.
       - Ento... sabe que eu sou o Cavaleiro? - indagou, com voz quase inaudvel.
       - Claro que sei que voc no \ - respondeu o outro, quase num rugido. - Ele andou atacando muito antes de voc mudar para c, menino! O coronel Card tambm 
sabe disso, o que vai salvar seu pescoo, rapaz maluco! Voc no passa de um assaltantezinho de carruagens!
       Valentina, com os olhos arregalados de espanto, gaguejou:
       - Cha... Charles, en... ento voc ...  o Cavaleiro?
O sr. De Michel voltou-se para ela.
       - Eu era, at que seu irmo invadiu meu territrio! - Voltou-se de novo para Leslie. - Vamos, menino, temos pouco tempo. Uma tropa dirige-se para c. Pensei 
que a tinha despistado, mas Lock est com os guardas e acho que vai traz-los aqui. Onde est?
       O jovem Ashford deixou-se cair no travesseiro e fez um sinal para a irm, que puxou os sacos que escondera embaixo da cama.
       - Que esconderijo mais original vocs escolheram! - ironizou De Michel.
       Depois, impaciente, esvaziou os sacos jogando de lado envelopes, relgios, anis, braceletes e o pequeno saco que continha os diamantes de lorde Lock. Ignorando 
tudo isso, pegou o mao de cartas despachadas e passou a examin-las, uma a uma, at que pegou um dos envelopes e, depois de ler atentamente o nome do destinatrio, 
entregou-o a Valentina, dizendo:
       - Queime isto imediatamente! Vamos!
       Tornou a enfiar as outras coisas dentro do saco, mal levantando os olhos quando Sidonie e lady Clara Rustwick entraram. Valentina, ento, aproximou-se e pegou 
o saquinho com os diamantes, dizendo:
       -Espere, Charles! Meu irmo tirou isto de...
               No h tempo, Valentina! - Pegou o saquinho, jogou dentro de um dos sacos, pegou-os e, enquanto ia saindo, disse por cima do ombro. - Horace, sele 
o cavalo do sr. Ashford. Vou deixar o meu aqui e seguir no dele. Sidonie, limpe a escada, que est suja de sangue, depressa! Lady Clara, por favor, procure tratar 
o mais depressa possvel desse seu sobrinho maluco!
       Ningum discutiu. Todos correram para obedecer as ordens, enquanto ele descia rapidamente a escada, acompanhado por Valentina. Quando chegaram embaixo, ele 
parou para falar:
       - No acredito que interroguem Leslie, mas, se o fizerem, diga a ele para fingir que est bbado.
       - Sim, mas...
       Ele segurou-lhe o queixo, com delicadeza, e olhou-a com amor enquanto dizia, em tom de selvagem revolta:
       - Eu no devia ter deixado vocs ficarem aqui! Perdoe-me, por favor!
       - Charles, eu n...
       Ento, ele curvou-se e beijou-a na boca com a violncia do desespero. Valentina sentiu como se uma chama a consumisse por dentro. Abraou-o com uma sensao 
de profunda felicidade que apagou qualquer outra sensao. Quando suas bocas separaram-se, precisou apoiar-se naquele peito viril para no cair. Por um segundo, 
ele a manteve bem junto de si, fitando-lhe o rosto, sem disfarar o que sentia, e ela percebeu nos olhos negros uma angstia to profunda que teve certeza de que 
aquilo era um adeus.
       Um terror gelado, desconhecido at ento, tomou conta de Valentina, e, antes que pudesse dizer qualquer coisa, Charles afastou-se e explicou, como se tivesse 
lido o pensamento dela:
       - Se eu for apanhado, ser o fim. Todos iro me desprezar e eu no quero que toda essa sujeira a atinja, meu amor! Nunca se esquea disso!
       - Charles, eu... No! O que voc vai fazer?
Ele encaminhou-se para a porta.
       - Charles, espere! - gritou ela, desesperada.
       Ele se voltou e, por um instante, aquele conhecido sorriso cnico e doloroso descontraiu o rosto dele, que gritou:
       - No seja louca, amor, no venha atrs de mim! - E saiu porta afora, para reaparecer no instante seguinte e recomendar: - Por favor, queime essa carta o 
mais depressa possvel, pois ela pode significar a forca para todos ns!
       Chorando de medo, de angstia, de amor, Valentina correu at a porta a tempo de v-lo montado no cavalo de Leslie, os sacos amarrados no santo-antnio. Murmurou, 
entre soluos:
       - Que Deus o proteja, meu amor!
       E correu de volta ao quarto do irmo para queimar a carta. Enquanto mantinha o envelope sobre a chama da vela para incendi-lo antes de jog-lo na lareira, 
sem uso naquela poca do ano, reconheceu a letra do sobrescrito e o endereo. Ficou pensativa e ainda se encontrava imersa em pensamentos quando colocou o envelope 
em chamas na lareira.
       Lady Clara, atenta ao curativo que fazia no sobrinho, indagou:
       - O que era esse envelope?
       - No sei, titia... - respondeu a moa e aproximou-se da cama, onde o irmo jazia, novamente sem sentidos. Olhou-lhe o rosto com ateno. - O ferimento  
muito grave, tia Clara?
       - Acho que no. Graas a Deus ele  jovem e forte...  ferimento de bala, que atravessou os msculos, entre o ombro e a clavcula. Felizmente saiu pelo outro 
lado... S peo a Deus que Leslie no tenha matado ningum...
       Nesse momento, Sidonie entrou correndo, com os olhos enormes de medo.
       - Uma tropa de guardas vem vindo para c, a todo galope, Tina!
Horace chegou logo atrs dela, fazendo mais barulho que de costume com a perna de pau batendo no soalho.
       - Deus ajude o sr. De Michel! - exclamou, aflito. - Acho que iro atrs dele como furaces e o cavalo do sr. Ashford est cansado...
       Sentindo-se doente de tanta angstia e medo, Valentina fechou os olhos, numa prece silenciosa. Sidonie comentou, cismada:
       - Por que o primo no foi com seu cavalo, deixando o de Leslie aqui?
       - Porque  certo que os guardas viro examinar tudo aqui, senhorita - explicou o velho criado. - E iriam querer saber por que o cavalo do sr. Leslie est 
cansado, se ele no saiu, como certamente iremos lhes dizer. Ento, para salvar o nosso rapaz, ele mudou de montaria.
       A mocinha, empalidecendo mais ainda, olhou para a irm e depois de penoso silncio pediu, baixinho:
       - Perdoe-me, Tina... Por favor, me perdoe!
       Era evidente que Sidonie sentia-se profundamente afetada pelo que estava acontecendo e, estranho, no dramatizava as coisas, como era seu costume. Em vez 
disso, sentia o drama que envolvera a vida de sua famlia, em boa parte por sua culpa. Era doloroso crescer e ela estava crescendo.
       Pouco depois, ouviram estampidos, como os de fogos de artifcio, no muito distantes. Valentina teve uma sensao de terrvel sufoca-mento, como se as paredes 
e o teto do quarto estivessem se fechando sobre e ao redor dela. Sidonie percebeu o mal-estar da irm e correu para ela, abraando-a com carinho, ao mesmo tempo 
que pedia ao criado:
       - Horace, por favor, pegue um copo com conhaque.
       O fiel servo correu, manquitolando, a descer a escada para atender ao pedido da mocinha. O jovem. Ashford, que tinha recuperado os sentidos, murmurou:
       - Aquilo... eram tiros...
       Desviando o olhar do rosto quase exangue de Valentina, lady Clara voltou-se, muito sria, para Sidonie.
       - Agora, sobrinha, vamos contar a verdade, sim? Voc disse que tinha sado de casa para pedir a Horace que fosse levar algo para ser levado pelo Correio Noturno. 
Pois muito bem, o que era?
       - Uma carta. Tia Ruth disse-me para pedir a Horace que a levasse  vila em tempo de pegar o Correio Noturno desta noite, sem falta.
       Lady Rustwick, ento, perguntou para a outra sobrinha, indagando:
       - E a carta que Charles lhe deu para queimar, Tina?
       - No posso dizer se era a mesma, mas o sobrescrito tinha a letra de tia Ruth.
       Horace voltou nesse momento, com uma garrafa de conhaque e um copo.
       - Eles vm se aproximando, milady! - disse, ansioso, para lady Clara. - Os guardas... toda uma tropa! Um dos cavalos vem com o cavaleiro deitado, atravessado, 
na sela...
       Apesar de estar com os joelhos tremendo, a ponto de quase no lhe suportar o peso, Valentina conseguiu falar ainda com calma.
       - Precisamos ser rpidas! Por favor, faam exatamente o que vou dizer!
       Pouco depois, Valentina Ashford ouvia Horace, no trreo da manso, protestar, indignado, dizendo que a famlia j se havia recolhido e que todos dormiam. 
Em seguida, soou a voz rspida do coronel Card, ordenando-lhe que se afastasse para deix-lo entrar.
       Apertando mais ao corpo o penhoar que vestira sobre a camisola, ela desceu para ir ao encontro do coronel, que j estava cruzando o hall, com sir Derwent 
Lock logo atrs. Mas os olhos ansiosos dela procuraram mais alm deles, divisando dois guardas que seguravam Charles de Michel, um de cada lado. Seu primo mantinha 
a cabea baixa e o
       corpo derreado, obrigando praticamente os soldados a carreg-lo. - - Primo Charles! - exclamou, sem precisar fingir que sentia-se ansiosa. - Ele est machucado? 
O que aconteceu, coronel?
       Lock se interps, falando primeiro, com os olhos brilhantes de triunfo:
       - Afinal, o seu precioso primo foi apanhado com as mos sujas, senhorita! Vai ser dependurado na forca de Tyburn, como um assaltante qualquer ou um...
       - No vejo motivo para falar desse jeito, atemorizando as senhoras, milorde - cortou o coronel, friamente. - Homens, tragam-no aqui. Por favor, senhorita, 
eu agradeceria se as demais pessoas da famlia fossem acordadas e viessem at aqui.
       Lady Clara apareceu descendo o lance final da escada, os olhos piscando de sono:
       - No  preciso acordar ningum, coronel. Os senhores fizeram barulho suficiente para acordar a todos, menos meu sobrinho Leslie, que abusou do champanhe 
durante a festa. At mesmo os fantasmas da manso foram perturbados. Por qu... - E interrompeu-se como se s naquele instante houvesse percebido a presena do sr. 
De Michel, que fora colocado numa cadeira, onde jazia prostrado. - Bom Deus! Charles sofreu algum acidente? Caiu do cavalo, por acaso?
       O coronel Card pareceu ignorar tudo o que a idosa lady acabava de dizer e olhou para Sidonie, que entrava no hall vestida com seu ca-misolo de seda creme, 
os lindos olhos muito arregalados de susto. Pediu, com voz serena:
       - Senhoras, sentem-se por favor.
       - Eu no vou me sentar de modo algum, coronel! - rebateu lady Rustwick, severa, dirigindo-se para Charles. - Se este rapaz est machucado...
       Urr soldado interps-se entre ela e o sr. De Michel, ento lady Clara voltou-se para o coronel, muito zangada:
       - Meu senhor, quer me explicar o que significa isto? Ir responder por este modo de agir vergonhoso e...
       - Esse homem roubou o malote do Correio Real - explicou o militar com voz gelada e olhar duro. - Ns o seguimos at aqui, onde, pelo jeito, pegou um cavalo 
descansado. No tenho dvida de que todos aqui esto a par desses acontecimentos e aviso que fariam melhor se confessassem logo que so cmplices.
       Charles de Michel ergueu a cabea e disse, rindo:
       -Isso mesmo! Faam isso, senhoras! Pois no  que me amam perdidamente? Por que no confessar, ento?
       O corao de Valentina confrangeu-se dolorosamente quando ela viu o rosto dele machucado, arranhado, o lbio partido. Por instantes, teve a impresso de que 
ia desmaiar, mas conseguiu controlar a respirao, cerrando os lbios e as mos suadas, com quanta fora tinha.
       Lady Clara interrompeu o silncio que se fez:
       - No sei se andou fazendo isso que o coronel disse, Charles, mas sei que voc sempre nos tratou com muito desprezo. Mesmo assim, no fico feliz vendo-o nessas 
situao horrvel. Era preciso, mesmo, espancar esse homem dessa maneira brutal, coronel?
       - No o espancamos, minha cara lady! Atiramos no cavalo e ele levou um belo tombo! E olhe que teve sorte: meus homens tm boa pontaria. Recomendei que no 
o atingissem.
       - Assim ele no faltar ao encontro que ter com o carrasco, na forca! - disse lorde Lock, todo feliz.
       - Acontece que os senhores no tm prova alguma do que afirmam - murmurou o sr. De Michel.
       - Eis aqui a prova! - gritou um sargento, entrando no hall carregando dois sacos. - Encontramos, coronel! Pelo jeito, ele conseguiu jog-los no mato, enquanto 
seu cavalo caa.
       Charles de Michel praguejou baixinho.
       - Muito bem! - aplaudiu lorde Derwent, batendo palmas com entusiasmo.
       - Que horror! - exclamou Valentina, desesperada, certa de que seu amor no poderia livrar-se das acusaes.
       - Sim! - concordou Sidonie, plida. - Que horror ter um ladro na famlia!
       - Bom trabalho, sargento! - cumprimentou o coronel Card. - Vamos examinar as coisas roubadas, agora mesmo, para que estas pessoas testemunhem o que encontramos.
       Os dois sacos negros, grandes, foram esvaziados sobre um mesa e todos se aproximaram a fim de examinar o monte de papis, envelopes e jias.
       O pequeno saco de camura negra estava bem em cima e, ao v-lo, lorde Lock estendeu a mo, num impulso, para peg-lo. O coronel movimentou-se ao mesmo tempo 
e impediu-o.
       - Isso  meu! - gritou o lorde.
       - Sinto muito, mas no pode peg-lo:  uma prova.
       - Com os diabos! Esse saquinho contm... - o lorde hesitou. - Contm valores que esse ladro me roubou no assalto de quinta-feira, h duas semanas! Pertence-me 
e exijo que me seja devolvido neste instante!
       O olhar do coronel sustentou os olhos azuis chamejantes do lorde sem se desviar, enquanto dizia, calmo e frio:
       - Roubo do Correio Real  crime capital. Todas as evidncias dos crimes deste homem so, doravante, propriedade da Coroa. No entanto, ns lhe daremos um recibo 
pelo contedo do saquinho, milorde, e...
       - No! No - gritou o homem, aflito, querendo impedir que abrissem o saquinho. - Eu espero o quanto for preciso...
       - Mas eu, no - retrucou o militar e despejou as jias sobre a mesa, diante das exclamaes dos guardas.
       - Oh! - exclamou lady Clara. - Os diamantes Lock! Pensei que...
       - Seu porco imundo! - gritou o sr. De Charles, avanando para lorde Lock.
       Dois soldados procuraram cont-lo e houve uma luta violenta para faz-lo largar o pescoo do baronete.
       - Estourem os miolos dele, Card! - grasnou o lorde, mal conseguindo falar. - Vocs deixaram o criminoso me atacar!
       - A menos que me engane - disse o coronel, com um olhar reprovador -, lady Rustwick tem razo. Estes so os diamantes Lock, que o senhor afirmou, h uns dois 
anos, terem sido roubados pelo sr. De Michel e sua esposa... Que eu saiba, lady Jennifer e o sr. De Michel no conseguiram provar sua inocncia, por isso suas reputaes 
foram arruinadas. Ser interessante ver o que o Tribunal ir decidir ao saber que as jias se encontravam todo esse tempo em poder do senhor, milorde. Por enquanto, 
no entanto, pode se retirar.
       - Que vergonha, Lock! - exclamou lady Clara, com desprezo.
Sem conseguir esconder o medo, o lorde olhou para Charles de Michel, depois se retirou.
       - Bem - disse ento o coronel -, sinto muito, mas o sr. Ashford precisa descer. V busc-lo, sargento. E que todos saiam da sala, menos os membros da famlia.
       -  melhor eu ir com os soldados, coronel - ofereceu-se lady Clara.- Meu sobrinho bebeu demais e no est bem.
       Valentina segurou a respirao e evitou olhar para qualquer pessoa ao redor. O coronel hesitou, depois concordou.
       De vez em quando, o sr. De Michel oscilava, sem tirar os olhos do coronel que, sorrindo severamente, ps a mo na pistola, presa em seu cinturo.
       - No ouse reagir, De Michel. Voc no chegaria  porta.
       - Isso seria melhor do que o enforcamento... - respondeu o detido, mas relaxou, respirando fundo.
       O coronel Card separou todos os itens das provas, sobre a mesa, prestando especial ateno na correspondncia. Por fim, disse:
       - Onde est, De Michel? Falta uma carta que continha informaes secretas que foram... como direi? Foram extradas de um oficial sob influncia de uma droga 
misturada ao champanhe.
       - Meu Deus! - exclamou Valentina, que no esperava por aquilo. - Coronel, juro que no pusemos nada nas bebidas!
       - Que eu saiba, no a acusei, senhorita.
       - Acusar de qu? - indagou lady Rustwick, que voltava.
       Estava acompanhada pelo sobrinho que, muito plido, usava um roupo grosso, cor de vinho, sobre a camisa de dormir. Andava trpego, amparado pelo sargento.
       - Pra qu, em nome de Deus... me tiraram de meu leito de sofrimento?... - gemeu o rapaz, deixando-se cair na poltrona mais prxima. - E quem acusa quem, aqui?
       Admirada com o dom teatral do irmo, Valentina explicou:
       - O coronel Card disse que segredos militares foram extorquidos de um oficial, durante nossa festa, e ele acha que as informaes foram enviadas numa carta 
que estava no malote do Correio Real do qual o primo Charles... hum... se apropriou.
       O jovem Ashford piscou, como se tentasse focar a viso.
       - Tia Clara me falou... dos diamantes... que carta  esta, primo Charles? Voch virou eshpio?
       - Sim, parece que ele  algo mais que assaltante de carruagens! - O coronel levantou-se. - Eu o acuso formalmente, Charles de Michel, de ser o Cavaleiro Misterioso. 
Em todos os assaltos anteriores, o produto do roubo foi devolvido, colocado junto ao altar da igreja da vila... menos dos trs ltimos. Presumo, portanto, que esse 
a  o resultado dos trs ltimos assaltos.
       - Presume demais, caro coronel! - ironizou Charles.
       - Eu nunca ouvi tanta besteira junta! - exclamou lady Rustwick. - Por que um assaltante arriscaria a vida para depois devolver o produto do roubo? Teria de 
ser um louco!
       - Ou queria apenas disfarar seu real interesse num futuro roubo - sugeriu o coronel - de documentos secretos.
       - Que imaginao frtil - aplaudiu o sr. De Michel.
       - Quer dizer, coronel - interviu Valentina -, que documentos secretos estavam sendo enviados daqui? Foram roubados de algum posto militar?
       - No, senhorita, eles se originaram de uma rede de espionagem, no de um posto militar.
       - Mas se o primo Charles enviou segredos militares pelo correio, por que interceptaria a prpria carta?
       - A no ser que... - lady Clara apoiou Valentina - a carta no foi enviada por ele!
       - Excelente deduo, milady! - sorriu o coronel.
       - Algum se queixou que roubei sua correspondncia? - indagou o sr. De Michel, sarcstico.
       - Tenho certeza de que o senhor  cmplice dos espies que agiam em Londres ou que, pelo menos, sabia do trabalho deles. No sei por qu, desligou-se deles 
e veio para c, talvez para no chamar a ateno. Prendemos uma boa parte da rede, se no todos os espies. Mas o chefe escapou...
       - Ento, o senhor quer dizer, coronel - interrompeu-o Valentina, ansiosa -, que roubando a correspondncia Charles impediu que o segredo militar casse em 
mos bonapartistas?
       - Se assim foi - aderiu tia Clara -, ele  um heri!
       - De fato, se isso for verdade, milady, concordo - teve de ceder o militar. - Mas depois que ele veio para c as atividades espias continuaram. Parece que 
De Michel, conhecendo a identidade do chefe dos espies, seguiu-o at aqui e passou a roubar os documentos que eram enviados... provavelmente querendo vend-los 
pessoalmente, em proveito prprio!
       Valentina tinha medo, mas forou-se a insinuar:
       - Tenho a impresso de que houve um plano muito inteligente nisso tudo... Se o espio-chefe fugiu de Londres, como o seguiu at aqui, coronel? Ou j desconfiava 
de meu primo?
       - Naquela poca, no - respondeu o militar, admirando a inteligncia daquela moa bonita. - Confesso que foi pura sorte. Encontraram aqui um papel com a marca 
do grupo de espies: uma coroa partida ao meio. Essa mesma marca encontrava-se no envelope que desapareceu hoje, assim como na carta.
       - O senhor leu essa carta, viu o envelope, coronel? - surpreendeu-se Charles de Michel.
       - Sim, mas permiti que seguisse a fim de apanharmos o criminoso a quem estava endereada.  evidente que as informaes conseguidas nesta casa, durante a 
festa, foram postas numa carta despachada para Londres. Estou certo, De Michel? Hum, no responde? Mas saiba que conseguirei uma confisso ainda esta noite!
       Plido, Charles ergueu-se, gritando:
       - No vou confessar! No sOu espio e o senhor no tem como provar isso!
       Voc saiu desta casa por volta das dez e meia - disse o coronel, Sidonie. - Onde foi e para qu? A mocinha ficou plida de morte e no conseguiu falar.
       - Vai dizer a verdade, menina - continuou o militar -, se no quiser apodrecer numa cadeia! Ou prefere que eu interrogue seu irmo, que parece saber mais 
do que diz?
       - No grite assim com ela! - Leslie tentou defend-la.
       - Por que saiu? - continuou o coronel Card, aproximando-se mais de Sidonie. - Foi entregar uma carta, no?
       Aterrorizada, ela explodiu:
       - Fui! Mas no entendo por que meu irmo...
       - A quem estava endereada?
       - Eu no vi! - respondeu ela, torcendo os dedos.
       - Esconder evidncias  ser cmplice do crime, mocinha! Quem lhe deu a carta? Responda ou eu a prenderei!
       Os olhos de Sidonie pareciam querer saltar das rbitas, mas ela no respondeu, tapando a boca com as mos.
       - Chega, Card! - interferiu Charles. - Eu escrevi a carta. Pode me prender.
       - Hum... - fez o militar. - Interessante sua confisso. Mas como fez isso, se no estava na festa?
       - Sou hbil em disfarar meus rastros - disse, procurando ganhar tempo para pensar. - Esta casa  minha, lembra? H um ponto na biblioteca, de onde se v 
e ouve o que acontece no salo. Eu estava escondido l, ouvi maman conversando com seus amigos militares. Peguei as informaes, escrevi a carta. Encontrei minha 
priminha ingnua passeando no jardim e pedi a ela que desse a carta a Horace, para lev-la  vila e despachar com o malote do Correio.
       Sidonie olhou, chocada, para a irm, mas esta se manteve calada, mesmo vendo que Charles selava sua morte.
       - Por que no a levou pessoalmente? Creio que tinha um compromisso, no?
       - Muito esperto, coronel... Acontece que minha me nunca percebeu minhas atividades, mas algum mais inteligente poderia somar um mais um...
       Por isso levou madame De Michel embora da festa? - O coronel fez uma pausa. - Diga-me, como chefe dos espies, voc teria de ter desenhado os planos do mosqueto, 
mas - e retirou o desenho que ele fizera do futuro jardim de pedreira - no sabe sequer traar um risco firme, meu caro. Aquele desenho foi feito por um artista. 
Veja...- mostrou o desenho encontrado pelo aspirante. - Pode-se reconhecer o trao, o papel e por ele chegaremos ao verdadeiro espio.
       Com um grito, plido, Charles saltou e arrancou o desenho das mos do coronel.
       - Maldito! No vai usar isso!
       Mas o sargento, rpido, agarrou o coronel, deu-lhe uma pancada com a coronha da pistola na cabea, fazendo-o desmaiar. Valentina correu para o rapaz, ajoelhando-se 
e colocando a cabea dele sobre o colo, enquanto chorava, angustiada, em silncio.
       - Infelizmente, este  um caso doloroso, senhorita! - disse o militar. - Sei que todos aqui so inocentes e vou prender o culpado,., ou melhor, a culpada. 
Que ningum saia daqui, sargento. O senhor  o responsvel!
       Eram quase cinco horas da madrugada quando Valentina notou que Charles, deitado no sof onde o tinham colocado, abrira os olhos, que faziam uma desesperada 
pergunta muda.
       - O coronel ainda no voltou, amor... - disse ela, to atenta a Charles que no percebeu que Sidonie entrava.
       - Quando me levarem - murmurou ele - procure Stane. Agora entendeu tudo, querida?
       - Sim... Voc tentou impedir sua me de agir como espia e tentou proteg-la. - Acariciou-lhe o rosto machucado com leveza. - Como deve am-la, meu querido!
       - Maman amava muito meu pai... fazia tudo por ele... E me amava, tambm... Fugimos do Terror, vindo para a Inglaterra. Papai cismou que no confiavam nele 
por ser francs, ento mudamos para a Itlia. L, uma noite, ele foi assaltado, roubado, espancado e nunca mais se recuperou. Voltamos para c e ele morreu... Maman 
nunca perdoou os ingleses por no terem aceito papai completamente... e virou-se contra eles.
       - Ento - disse ela, suave -, voc desfez a rede de espies em Londres e a trouxe para c, tentando isol-la, mas tia Ruth continuou a "trabalhar" assim mesmo.
       - Mas ela no  responsvel! - desesperou-se ele. - Entende? O choque de perder meu pai... Oh, meu Deus! - Era duro ver o sofrimento daquele homem to grande, 
forte. - Eu tentei salv-la, eu tentei!...
       Sidonie no pde mais conter o choro e soluou, Valentina voltou-se e compreendeu que ela ouvira tudo.
       Nesse momento houve um barulho de passos, vozes e a porta se abriu, dando passagem a lorde Stane e o sargento, que tentava segur-lo. Mas o rapaz o empurrou 
para longe.
       - Charles, sua me fugiu! - exclamou, nervoso. - O coronel foi atrs! Ela deixou esta carta para voc.
       Ele pegou a carta com as mos trmulas, rompeu o lacre, mas no conseguiu ler, to inchados tinha os olhos. Deu-a para Valentina, que a leu em silncio:
       Consegui venc-lo, Charles, na luta para vingar a morte de seu pai. Se me amasse, voc teria lutado comigo, mas me traiu, fez prender meus amigos, em Londres, 
e achou que me isolando faria cessar minha dedicao  Frana. No foi assim. Agora, o coronel Card veio me buscar e voc espera notcia da minha priso, pensa que 
serei enforcada graas a sua traio. Mas Herbert Card me ama. Ele jamais ocupar o lugar de meu amado Henri, mas me convenceu a acompanh-lo ao Novo Mundo. Quando 
voc ler esta carta, estaremos longe. Adeus, filho ingrato. Espero que Napoleo vena o general Wellington, assim a morte de seu pai estar vingada. Nunca mais quero 
v-lo!
       Ruth de Michel
       Com os olhos nublados pelas lgrimas, Valentina decidiu no magoar mais aquele homem j to maltratado pela vida.
       - Tia Ruth diz aqui que foi embora com o coronel Card... - dis se, com a maior suavidade que pde.
       - O traidor! - rugiu o sargento, muito vermelho.
       - Ela deixa seu amor e seu adeus para voc - mentiu a moa, controlando a voz, enquanto aproximava a carta da chama de uma vela, sem que ele visse. - Esto 
indo para Nova York, acho.
       Notou que lorde Stane a observava, ento deu-lhe a carta, em silncio. O lorde leu e ia queim-la, quando o sargento apropriou-se dela, dizendo, severamente:
       - Charles de Michel, eu o prendo em nome do Prncipe Regente sob suspeita de alta traio e assalto ao Correio Real!

       CAPTULO X

       Londres, 23 de setembro de 1813
       Minha querida Valentina, espero que tudo esteja bem a em Here-fordshire, que voc, Sidonie, Leslie e tia Clara se encontrem bem. Por aqui, as coisas vo 
devagar. De Michel continua preso e nem lorde Stane conseguiu permisso para visit-lo. Alis, o lorde disse-me que est interessado em Sidonie, mas pretende um 
noivado longo, pois a considera muito jovem para se casar. Eu tambm, ento entramos em acordo e quando voltar para a ele ir falar com nossa irmzinha.
       Voltando'ao nosso primo, sabemos que ele est bem e bastante otimista, portanto, fiquem tranquilas a esse respeito. Como eu lhe contei na carta anterior, 
ele teria de enfrentar um julgamento pblico e fiquei feliz ao saber que essa possibilidade foi afastada. As autoridades decidiram que vo instaurar um julgamento 
fechado, baseado nas investigaes realizadas at agora. O julgamento ser amanh, no quartel da Guarda Montada. Stane est usando de todos os seus conhecimentos 
e influncia para sermos admitidos. Por enquanto, no conseguiu...
       Minha sade esta cada vez melhor e o brao j quase cicatrizou e no di. mais. Fala-se muito, por aqui, de um romance chamado Orgulho e Preconceito daquela 
famosa dama francesa, Madame de Stal. Todos parecem apaixonados pelo que ela diz e escreve, no entanto eu no acho que seja extraordinria. Lembra-se daquele senhor 
baixinho, alemo, que conseguiu interessar papai num projeto para iluminao e aquecimento? Imagine, ele conseguiu aperfeioar e implantar esse projeto. Hoje, uma 
boa parte do bairro de West-minster  iluminada por lampies a gs! Lorde Stane e eu fomos l, ver a novidade de perto. Foi algo digno de se apreciar! Uma multido 
o acompanhava enquanto ele ia, de poste em poste, abrindo o gs e acendendo cada lampio. A luz desses lampies  deslumbrante! Vou verificar, com a ajuda de Stane, 
se papai comprou, mesmo, algumas aes da firma do alemo. Stane diz que, se ele comprou, ficaremos ricos! A, garanto que aquela tal srta. Tembury ir ser bem mais 
educada a prxima vez que me encontrar.
       Sei que todos vocs esto ansiosos a respeito de Charles, por isso vou enviar esta carta hoje mesmo,  noite, sem esperar pelo resultado do processo de amanh.
       Do seu afetuoso irmo
       Leslie Ashford.
       PS. Sucesso!!! Lorde Stane acaba de chegar com a notcia: estaremos presentes no julgamente, amanh. Informarei em seguida.
       Londres, 24 de setembro de 1813 Minha querida Valentina
       Tenho um monto de novidades, mas como  tarde e quero alcanar o correio de hoje, serei breve. O julgamento foi assustador. Lorde Stane disse que jamais 
viu tanta severidade e admirei Charles de Michelpela dignidade e fibra que ele demonstrou o tempo todo. Difcil algum suportar como ele um bombardeio de perguntas 
durante mais de duas horas. Pois nosso primo conseguiu responder a todas que se referiam a ele com sinceridade e clareza impressionantes. Mas viu-se encostado na 
parede quando se tratou de tia Ruth. Como se recusou a dizer uma palavra que fosse contra ela, foi obrigado a no responder vrias perguntas para no incrimin-la. 
E ele no mencionou uma vez sequer o nome de um jovem cavalheiro, ao qual referiu-se, sempre, como "o Caador", pelo que lhe sou muito grato.
       O advogado de defesa era um coronel do Exrcito, um senhor idoso, muito educado, mas com um desempenho sonolento que me apavorou. Por volta de uma hora, quando 
a Corte entrou em recesso para almoo, eu achava que Charles iria ser condenado. Ele fez uma careta para ns, o que me fez crer que pensava como eu e lorde Stane, 
tambm preocupadssimo.
       Depois do almoo tornaram a atacar Charles, apresentando uma poro de testemunhas, algumas das quais encontravam-se na carruagem do Correio Real. Nenhuma 
delas, no entanto, declarou ter reconhecido o... como direi?... "o Caador". Graas ao bom Deus! Mas tambm nenhuma delas teve sequer uma palavra em favor de Charles. 
Posso jurar para vocs que ficaram com cara de idiotas quando o sonolento advogado de defesa chamou-lhes a ateno para o fato de que todos os bens roubados tinham 
sido devolvidos. No entanto, o promotor era infatigvel! De repente, comeou a pedir a pena mxima. A o advogado de defesa despertou. Tina, foi uma surpresa: o 
velho, na verdade,  um tigre! Baseou a defesa no fato de Charles ter lutado bravamente para continuar leal  Inglaterra
       , ao mesmo tempo, proteger a me, a quem ama profundamente. Foi to eloquente e verdadeiro que comoveu a todos que ouviam. O ponto alto foi quando ele mostrou 
aquela horrvel carta que tia Ruth escreveu para o filho e a leu em voz alta. Ficou evidente que ele no sabia de nada e dava vontade de chorar ao se ver a dor e 
o desespero estampados no rosto dele. Espero nunca mais ver um homem to ferido pela dor! Quando o coronel se calou, podia-se ouvir at a queda de um alfinete! Acho 
que nosso primo iria preferir que eu no lhe contasse isto, Tina, mas vi lgrimas correndo pelo rosto dele, sem que o percebesse. Quando notou que chorava, ele enxugou 
as lgrimas rapidamente, mas acho que todos naquela sala testemunharam seu sofrimento. Foi o golpe de graa na Promotoria!
       Charles foi duramente advertido por ter se tornado um assaltante a fim de interceptar as cartas traidoras da me, em vez de levar os fatos ao conhecimento 
da Guarda Montada, depois agradeceram suas atividades em favor da Inglaterra.
       Ele est livre, Tina! Acho que logo o veremos em Herefordshire!
       Amanh irei conhecer a Companhia de Luz, Gs e Carvo, daquele senhor alemo. Parece que somos scios dele!
       Vou terminando, Tina, dizendo que estou to feliz quanto voc... Charles  um cavalheiro e me sinto orgulhoso de ser considerado primo dele, por enquanto, 
pois quem sabe me torne seu cunhado!?
       Seu devotado irmo
       Leslie Ashford.
       Comando da Diviso Ligeira Frana, 8 de novembro de 1813 Minha cara Valentina
       Deve ter me julgado grosseiro pelo fato de no a ter procurado antes de partir da Inglaterra. Mas as circunstncias sob as quais nos encontramos e nas quais 
nos separamos impediram-me de faz-lo.
       Acredito que voc saiba, devido ao que aconteceu entre ns, que eu pretendia torn-la minha esposa. Era uma ambio irreal, infelizmente. Eu sabia a desgraa 
que desabonava meu nome, porm, como um perfeito tolo, esperava conseguir aplainar os desencontros. Mas, pensando bem, compreendi que os rumores divulgados por sir 
Derwent Lock sobre minha pessoa haviam causado danos irreparveis e que eu jamais deveria pedir a uma lady que juntasse seu nome ao meu, sua vida a minha.
       Acredito que j esteja a par de que comprei uma patente do Exrcito ingls e que hoje sou tenente De Michel. No entanto, descobri que a vida de um soldado 
 muito menos excitante do que eu pensava, mas oferece uma recompensa. Duas, na verdade. Em primeiro lugar, o fato de estar fazendo algo pela minha ptria, mas a 
verdade  que no passo de um mero e desconhecido parafuso em complicada engrenagem... Em segundo lugar, meu grande amigo Samuel Stane parece ter escrito para o 
meu coronel, cujo pai foi companheiro do pai de Stane em Eton. Sam deve ter contado mentiras fantsticas a meu respeito, pois em vez de eu ser considerado um... 
Sapo Sujo, que como chamam os franceses inimigos, tratam-me como um intrpido agente do Servio Secreto, que sozinho, defendeu a Gr-Bretanha de uma enorme eperigosa 
rede de espionagem! No comeo, achei isso muito engraado, mas h um preo para tudo: agora preciso agir de acordo com minha fama...
       Fomos informados de que amanh travaremos uma batalha. At agora levei uma vida sossegada. Quero inform-la, porm, no caso de minha existncia terminar antes 
do que espero, que deixei a propriedade Wyenott Towerspara voc, em testamento, o que engloba todas as nossas terras a, a manso e a casa de campo. S h uma ressalva: 
enquanto minha me for viva, ela poder ocupar a casa de campo quando epor quanto tempo desejar. Coloquei a casa de Londres  venda e o que for apurado ser depositado 
no Banco de Londres, em seu nome. No, minha querida, nem tente discutir! Est decidido, mesmo porque voc jamais conseguiria manter Wyenott Towers e construir nosso 
jardim, na pedreira, sem essa providncia.
       Quero que saiba: tive o prazer de conhecer meu primo Lincoln. Pela localizao de nossos regimentos, raramente nos encontramos, mas somos amigos. Ele me lembra 
tanto e to dolorosamente voc que  bom no nos vermos muito...
       Espero que Sidonie se case com Sam. Ele  um homem de ouro e a amou desde o primeiro momento que a viu. Mas duvido que nosso jovem Ashford venha a se casar 
com Abigail Tembury, pelo menos no nos prximos anos! Quanto  srta. Valentina Ashford, feliz do homem que puder cham-la de esposa! Como desejei faz-lo e como 
lamento isso ser impossvel!
       Enquanto escrevo, ouo ao longe o troar de canhes em alguma batalha. No sei por qu, mas esse rudo me parece mais prximo e ntido esta noite...
       Tenho certeza de que voc vai conseguir terminar nosso jardim e que ele ser lindo. Quando estiver pronto, ser que poder abri-lo, de vez em quando  visitao 
pblica? E espero que voc, quando passear nele, de vez em quando lembre do rapaz que tinha to pouco a recomend-lo, mas que levar a sua imagem no corao at 
o fim de seus dias. Seu, para sempre
       Charles de Michel.
       Frana, 13 de novembro de 1813 Querido irmo
       Quando esta carta chegar-lhe s mos voc j saber que obtivemos uma grande vitria. Foi uma batalha dura e a Inglaterra fez valer o dinheiro que nos paga. 
Vou sosseg-lo logo, dizendo que no sofri sequer um arranho. E, alm disso, como Freehampton morreu em batalha, subi para o posto de capito.
       Voc dever saber de alguns incidentes inacreditveis. O coronel Colborne, por exemplo, conseguiu enganar todo um contingente francs, induzindo os soldados 
a pensar que estavam cercados e eles se entregaram, sem perceber que o regimento de Colborne era minoria. Foi uma estratgia muito engenhosa e eu jamais ouvi falar 
de algo parecido.
       Todos ns, caro irmo, podemos nos orgulhar do primo Charles de Michel, que conduziu uma tropa para dentro das fileiras inimigas, afim de cobrir a retirada 
dos nossos canhes, que tinham sido cercados. No ardor da refrega, a montaria do sargento que os comandava foi abatida e Charles desmontou, sob apavorante fogo cerrado, 
colocando o sargento em seu cavalo! Quando ele ia montar, infelizmente, foi ferido e no foi mais encontrado. Sinto informar que ele est na lista dos desaparecidos, 
provavelmente morto. Graas a ele o sargento sobreviveu e os canhes, assim como os soldados que os acionavam, foram todos salvos. Dizem que iro fazer meno honrosa 
a ele, por excepcional bravura, mas eu chego a duvidar porque nosso alto comando e famoso por no reconhecer reais valores. Veja, por exemplo, apesar da valorosa 
conduta da 52 a Diviso, do sargento Colborne, a nica atitude do general Wellington foi repreender Colborne porque alguns de seus rapazes pediram frango para o 
jantar, quando voltaram ao acampamento... De qualquer modo, Charles de Michel foi sem dvida um cavalheiro, digam o que disserem dele, e me orgulho de t-lo como 
primo!
       O que h? No tenho mais recebido cartas suas e gostaria muito de saber como vai o namoro entre lorde Stane e nossa irmzinha. Ser que teremos uma baronesa 
na famlia? Escreva logo, contando-me tudo.
       Est chovendo muito, dentro da minha tenda, que est cai-no-cai, h uma umidade enloquecedora... mas d para aguentar. D meu carinho a todos
       Capito Lincoln Asfhord.
       - Eles querem me convencer de que ele morreu, FitzMoke!
       Valentina retirou a caixa de mudas que se encontrava amarrada s costas do burrico, levou-a at o quarto degrau da escada que levava ao fundo da pedreira 
e parou, para olhar o resultado de seu trabalho. Quantas vezes trabalhara no sonhado jardim, desde que tinham recebido a ltima carta de Lincoln, havia quase um 
ano e meio? Leslie, no comeo, a ajudara, mas depois, quando comearam a chegar os dividendos da Companhia de Luz, Gs e Carvo, a que tinham direito devido  sociedade 
do sr. Ashford com o im-plantador do grandioso projeto, ele tratara de realizar seu sonho: comprara uma patente e se alistara na Marinha.
       Sidonie e Horace de vez em quando a ajudavam a trabalhar na pedreira, lorde Stane tambm aparecia, s vezes, quando tinha uma folga na administrao de suas 
propriedades, trabalho que precisava combinar com sua obrigatoriedade de comparecimento na Cmara dos Lordes, em Londres. Era, mesmo, um jovem srio, responsvel, 
e daria excelente marido para Sidonie, como Charles dissera.
       Charles... A dor, agora quase uma companheira, apertou-lhe o corao e Tina fechou os olhos por alguns momentos, numa prece muda, fervorosa. "Por favor, Senhor, 
deixai-o voltar para mim! Provavelmente sou uma tola, Senhor, continuando a ter esperanas... Mas no vou desistir. No vou!"
       O vento frio, numa rajada mais forte, deslocou-lhe o chapu e ela ajeitou-o. Maro chegava ao fim. O segundo ms de maro, desde que ele fora embora... O 
aafro j comeara a brotar, aqui e ali, algumas flores comeavam a abrir as delicadas ptalas, como se fossem pequeninos e suaves rostinhos voltados para o sol, 
tmido nessa poca do ano. Os musgos j se haviam fixado, suavizando as arestas das pedras, junto da escada. Mais embaixo, o gramado adquirira um tom verde-vivo. 
As rvores que Horace e lorde Stane haviam plantado junto  depresso que viria a ser, um dia, o lago, no estavam muito bonitas, no entanto continuavam vivas e 
iriam se recuperar.
       Apesar dos grandes esforos, os avanos pareciam pequenos, mas j se podia ter ideia de como o jardim iria ficar. Quando chegasse a primavera, depois, o vero, 
as plantas se desenvolveriam mais, floresceriam, as cores se tornariam mais brilhantes e a pedreira ficaria linda, mesmo que o jardim ainda no estivesse pronto. 
Se Charles no chegasse at essa poca, ento, ela teria de aceitar o fato e acreditar que ele morrera. Impusera-se esse prazo para terminar a agonia da espera, 
ora doce, ora torturante.
       Mordeu o lbio, obrigando as lgrimas a no correrem, desceu os ltimos degraus, foi para um canteiro feito na terra entre pedras e comeou a cavar.
       Se Charles ousasse aparecer, iria ter de se haver com ela! Onde j se viu no mandar uma carta, um recado sequer, deixando-a naquela preocupao terrvel 
durante tanto tempo! Criatura sem corao! Ele no merecia nem um pensamento, muito menos...
       E se ele no voltasse? Ela sentou-se no cho e ficou olhando, sem ver, o buraco que cavocara. Se ele no voltasse, sua vida no teria mais sentido... No. 
Isso no era bem verdade. Havia sua famlia. Lorde Stane e Sidonie iam se casar, teriam filhos e ela se tornaria uma titia apaixonada pelos sobrinhos. Mas no haveria 
casamento para Valentina Ashford.
       Charles gostava tanto de criana! Bem, de qualquer maneira, ela teria um objetivo na vida, pois havia o Jardim da Pedreira para terminar, depois para cuidar. 
Era assim que ele queria: algo belo no lugar onde existia, apenas, o espetculo que provava a enormidade da ganncia humana. Se conseguisse isso, pensou, seria uma 
memorial...
       FitzMoke zurrou alto e Valentina pulou de susto, enquanto uma voz, grave e implicante, dizia:
       - No   toa que h tanto por fazer! A senhorita trabalha com a velocidade e o nimo de uma lesma!
       Ela perdeu a respirao e seu corao disparou de tal modo que teve a impresso de que ia desmaiar. Ergueu a cabea e fitou o homem que se encontrava na beirada 
da escavao da pedreira, acariciando o pescoo do burrico.
       Ele usava uma farda e estava muito diferente. Mais magro, a postura tambm era diversa. Essas coisas Valentina percebeu em segundos que pareciam congelados. 
Ento, seus olhos encheram-se de lgrimas ao perceber que ele se apoiava numa bengala.
       Curiosamente, ela no percebeu que se mexera, mas o fato  que de repente estava l em cima, ele largava a bengala, abria os braos e no instante seguinte 
encontrava-se aninhada neles, sentindo o pulsar do corao de Charles. No falaram, no se mexeram, deixando-se envolver por aqueles momentos mgicos. Depois, Valentina 
percebeu que chorava e agradecia, em sussurros, a resposta s suas preces. Charles de Michel, o rosto afundado nos cabelos macios e perfumados, com os olhos fechados, 
murmurava:
       - Minha Tina! Minha doce doce pequena! Por fim... at que enfim!
       - At que enfim, ? - E ela se livrou dos braos dele, recuando, procurando franzir as sobrancelhas e conter as lgrimas de felicidade. - Onde andou, homem 
sem-vergonha? Por que no me avisou que estava vivo? Sabe o quanto chorei, como sofri? Fiquei preocupada e...
       De repente, estava de novo nos braos dele e teve de se calar. Os braos dele no a apertavam tanto quando ela lembrava, o beijo no era to selvagem, mas 
continuava maravilhoso, ardente e profundo. Quando se separaram, ela pegou a bengala, deu-a a ele e saram andando devagar, FitzMoke acompanhando-os, com seu passo 
preguioso.
       Pareciam flutuar, de braos dados. Quando chegaram a um enorme carvalho, sentaram-se em suas razes, bem pertinho um do outro. E Valentina comeou a fazer 
todas as perguntas que colecionara naqueles quase dois anos. Ele contou a atitude atenciosa do capito francs que o enviara para a retaguarda, quando fora ferido 
e enquanto falava tentava minorar os sofrimentos pelos quais passara, a luta infinda que travara para sobreviver. Mas ela percebeu quanto sofrera pelas linhas marcadas 
naquele rosto querido, nas olheiras, na tristeza que havia nos profundos olhos negros. No se deixou enganar.
       - Tantos meses de dor e solido! - murmurou, afagando-lhe o rosto com carinho. - Se, pelo menos, eu estivesse a seu lado! Mas voc  um oficial, Charles! 
Eles tinham obrigao de notificar nossas tropas de que o haviam feito prisioneiro. - De repente calou-se e a suspeita surgiu nos olhos castanhos. - Alm disso, 
a guerra terminou com a batalha de Toulouse, em abril, h quase um ano... Voc ainda continua nas Foras Armadas? Quer dizer que o mantiveram preso, na Frana?
       Ele ficou calado por algum tempo, evitando-lhe o olhar. Por fim, suspirou fundo e falou.
       - Cheguei na Inglaterra em maio do ano passado, mas no podia andar... Eles... os mdicos achavam que nunca mais voltaria a ter o uso das pernas.
       - Meu querido! - Ela beijou a mo que segurava entre as suas e compreendeu o que ele no dissera. - Ento... ento no quis que ficssemos sabendo disso? 
Que coisa horrvel! Quer dizer que ia se esconder de mim para sempre, s por causa de seu monstruoso orgulho? Oh, meu Deus! Por que eu tive de encontrar e amar um 
homem como voc?!
       Ele abaixou a cabea e com uma humildade que no combinava com seu modo de ser, disse:
       - No... Bem,  que... Aconteceram outras coisas, como sabe. Ento, imaginei-me dizendo a voc: por favor, fique comigo e torne-se mulher de um ex-assaltante 
de carruagens, de um traidor da ptria, que, para compeletar, conseguiu se tornar um invlido! Que espcie de oferta seria essa, em que s eu teria vantagens!
       Valentina respondeu, por entre os dentes cerrados:
       - Voc  um ser abominvel! Julga-me to desumana a ponto de no querer sua companhia, s porque no podia andar? Que bela opinio tem de mim, meu senhor!
       Ele gemeu quando ela tentou se afastar, mas segurou-a, puxando-a mais para si, enquanto se lamentava:
       - Eu sabia que ia mexer em vespeiro! Voc no tem piedade de um pobre soldado, ferido, sofredor e indefeso...
       - Ferido, sofredor e indefeso, coisa nenhuma!
       Apesar do tom irado com que falara, Valentina observou ansiosamente o rosto plido. Ento, o brilho maroto dos olhos negros, um msculo no canto da boca que 
se agitava o traram.
       - Charles de Michel, no finja! - exclamou ela, com vigor. -uando penso no desespero, na angstia pelos quais passei, sem saber que esse tempo todo voc estava 
aqui perto, sem se importar comigo, tenho vontade de...
       - Claro que me importava! Alm disso, Stane me informava continuamente e...
       - Sam! - O grito era de raiva e ela lutou para se livrar dos braos de Charles. - Me largue, seu.., seu invlido sem-vergonha! Sam, no ? Ento, ele sabia 
que voc estava vivo e em Londres! Que mentiroso! Como pde representar o tempo todo, olhar no meu rosto, presenciar minha dor e no ter a decncia de...
       - Foi porque eu o proibi, Valentina!
       - Ah, proibiu, ? E se eu comeasse a definhar, se ficasse doente?
Ele sorriu:.
       - Voc no  o tipo de mulher que definha.
       -Acha que sabe tudo a meu respeito? - Ela ergueu a cabea, sria, apesar de aquele sorriso, to lembrado nos ltimos meses, a amolecer toda por dentro. - 
Como voc  presunoso! E mais ainda por achar que eu iria esper-lo at que voltasse!
       - Pois , pensei, em quanto voc estava louca para se casar com sir Derwent Lock.
       - Se pensa, sr. assaltante, que eu no conseguiria partido melhor do que esse...
       - Ora, fique quieta e cale a boca!
       E Charles a fez silenciar, beijando-a nos lbios. Quando aquele beijo selvagem, como ela lembrava que eram os beijos dele, terminou, Charles encostou-se no 
tronco do carvalho, ofegante.
       - Srta. Ashford, por favor! Tenha a bondade de se controlar: eu ainda sou um convalescente!
       - Preferia que fosse, mesmo! - arfou ela, atordoada. - Pelo menos, assim, eu poderia arranh-lo, como merece, pois no conse
guiria me segurar!        ,
       Ele riu e abraou-a. Mergulharam nos momentos dourados e clidos, feitos de carinhos e arrulhos, de promessas que significam tanto para quem se ama. Por fim, 
Valentina voltou ao mundo real e perguntou:
       - Ser que voc pode imaginar o quanto a sua carta de adeus me fez chorar? Era uma carta de adeus, no, Charles?
       - Era, sim - admitiu ele, depois de relutar por instantes. - Eu tinha a sensao ntida de que aquela seria minha ltima batalha.
E foi o que aconteceu. Foi a ltima...
       Valentina estremeceu, pensando que poderia ter sido a ltima em outro sentido.
       - Voc foi bondoso em pensar na sua me... - Sentiu que ele se tornava tenso, mas prosseguiu, com suavidade: - Acha que ela poder voltar aqui, um dia?
       - Duvido muito, a no ser que haja anistia. Maman deve saber que seria presa no mesmo momento em que pusesse os ps no solo deste pas. Eu suponho... Bem, 
se ela me escrevesse, um dia... Gostaria que ela soubesse que...
       - Que voc no fechou a porta para ela, que ainda a ama, no ?
Ele abraou-a com mais fora, agradecido, e fez que sim com a cabea. Valentina sorriu e aninhou-se nos braos dele.
       - Voc percebeu, querido, como tia Ruth fez tudo para demonstrar que voc era inocente? Leslie me contou que a carta de sua me foi a ltima gota, foi o que 
levou o tribunal a absolv-lo, sem a menor sombra de dvida. Tenho certeza de que ela escreveu aquelas...aquelas coisas horrveis para salvar voc.
       O rosto sem expresso de Charles no se alterou graas ao seu esforo sobre-humano, enquanto ele pensava que, se fosse isso, sua me teria juntado um bilhetinho 
explicando, dizendo que o amava. Tratou de afastar esses pensamentos, sorriu, amargo, beijou os cabelos de Valentina e disse:
       - Muito gentil voc pensar assim. Obrigado. Bem, temos coisas importantes a discutir e...
       O rudo de rodas de uma carroa e uma gritaria que se aproximavam o interrompeu. Teriam ouvido isso tudo antes, se no estivessem to atentos um ao outro.
       - Oh, no! - gemeu Charles. - Tanto tempo de espera e no conseguimos ficar sozinhos um minuto!
       Seguindo o olhar dele, a moa riu, feliz.
       - A vem uma justa recompensa! - exclamou, ergueu-se e deu a bengala a ele.
       Murmurando contra a perversidade do destino, Charles de Michel ps-se de p sob os gritos e aplausos da garotada que se apinhava na carroa.
       Horace conduzia o cavalo que a puxava em condies bem precrias, com crianas amontoadas em cima dele.
       - Desculpe, senhor - gritou, com um amplo e feliz sorriso -, mas essa crianada foi at Wyenott Towers quando soube de sua volta e no consegui segurar ningum 
l, com pretendia. Ento, tive de traz-los at aqui, por exigncia deles.
       Os passageiros j saltavam da carroa e, com risos e gritos de alegria, corriam ao encontro dele.
       - O sr. voltou, sir Charles! Voltou!
       - Pensamos que tivesse morrido!
       - Que bom que o senhor voltou!
       - Eu fiz biscoitos para o senhor! - gritou uma menininha, com ares de senhora. - E me nasceu um dente aqui, olhe!
       - Socorro! - gritou Charles, recuando como se estivesse aterrorizado.
       Foi em vo. Cercado pelos diabinhos saltitantes, sentiu-se envolvido por braos carinhosos por todos os lados. Vozes estridentes, alegres, diziam o quanto 
ele era querido, como tinham sentido sua falta. Tropeando sob a onda de atacantes, ele acabou caindo de costas e ficou soterrado pelos jovens e crianas. Ento, 
a alegria e diverso de Valentina transformaram-se em ansiedade e ela comeou a gritar, mas em vo.
       Afinal, a cabea descabelada, o rosto sorridente de Charles apareceu entre os dos amiguinhos e ele implorou:
       -Me larguem, seus vndalos!
       O j conhecido pedido de misericrdia, nas muitas lutas que haviam travado anteriormente, provocou outra onda de risos, de berros, enquanto a pequena Jennie, 
a menininha dos biscoitos, se erguia e dizia aos outros, muito sria:
       - Sir Charles se machucou na guerra! Precisamos ter cuidado com ele!
       Dessa vez a crianada ouviu e todos se ergueram, preocupados, enquanto Charles permanecia deitado no cho, fitando-os com falsa zanga:
       - Concordo com Jennie! Um mnimo de cuidado e respeito por um heri conquistador! - Hesitantes, alguns sorrisos voltaram aos rostos dos jovens, ainda inseguros. 
Ento, ele rugiu: - Bom, no fiquem a olhando, seus cabeas de melo! Ajudem-me a levantar!
       O auxlio pedido foi to rpido e animado que Valentina segurou a respirao, com medo. Quando Charles estava novamente sentado, encostado ao tronco do carvalho, 
piscou para ela, enquanto a garotada sentava ou ajoelhava ao seu redor, fazendo uma pergunta atrs de outra.
       Enquanto ela suspirava sossegada e feliz com a demonstrao de carinho das crianas, Horace aproximou-se dela.
       - Espero que no tenha se zangado por eu ter trazido as crianas, miss Valentina. Eles estavam to doidos de alegria que senti pena...
       - No me zanguei, no, Horace - conseguiu murmurar ela, piscando para conter as lgrimas.
       Nesse momento gritos de regozijo ergueram-se a alguma coisa que Charles havia dito.
       - Excelente cavalheiro, o tenente De Michel! - exclamou o velho criado.
       - , mesmo! - concordou a moa, orgulhosa.
       Percebeu, ento, que enrubescia ao notar a expresso compreensiva no olhar do dedicado Horace. Tratou, ento, de se aproximar e pediu  crianada que, agora, 
deixassem seu grande amigo descansar. Diante dos rostinhos tristes, convidou-os para tomarem ch, no dia seguinte, em Wyenott Towers.
       - Lorde Stane estar l e jogar bola com vocs, eu prometo!
       - disse ela, como argumento final.
       - Pobre Sam! Vai tambm virar um escravo desses diabinhos! - riu Charles.
       Animadas, as crianas correram para a carroa e se acomodaram como puderam. Horace tratou de lev-los de volta  aldeia.
       Valentina voltou para junto de Charles, que se recostara no trono da rvore, de olhos fechados, parecendo exausto. Alarmada, ajoelhou-se ao lado dele.
       - Oh, querido, eles...
       Seu pulso foi, ento, apanhado por dedos de ao e puxada para ele.
       - Cometeu um erro ttico, senhorita!
       - Charles! No faa isso! Horace pode voltar e...
       - L vem voc de novo! Pensei que tivesse conseguido controlar sua imaginao galopante! - Segurou-lhe o queixo. - Agora, miss Ashford, no se atreva a mudar 
de posio!
       No entanto, ela se atreveu e o fez deitar-se, colocando a cabea no colo dele. Tratou de lembr-lo:
       - Voc disse que tnhamos coisas importantes a discutir.
       - Bem, no so to importantes assim - respondeu ele, com ar sonhador. - Podem esperar.
       - No. Deve ser agora, que  um bom momento.
       - Acho que j ouvi isso antes, mas nem sempre se aplica, minha cara senhorita. Alis, no consigo me lembrar sobre o que lhe que ria falar... O que seria?
       Ela fez uma careta de ameaa:
       - Acho que sei o que seria, senhor!
       - Sabe? Claro! Tem razo, minha doce amada. Sem dvida era algo sobre o...
       - O qu? - impacientou-se ela. - Que homem mais irritante!
       - No, sobre a... a pedreira,  claro! - concluiu ele, com ar de inocente. - Saiba que fiquei decepcionado com o pouco progresso dos trabalhos. Pensei que 
o jardim estaria pronto.
       - Pensou, ? E existe alguma razo para a pressa?
       - Existe, sim. Convidei uns amigos para conhecer meu jardim, onde haver uma cerimnia na prxima semana...
       - No! No prximo ms, Charles.
       - Est se referindo ao casamento de Sidonie com Samuel? Mas no  disso que eu falo. O que foi, senhorita? Por que ficou to ver
melha? Meu coronel concordou em comparecer a esse... essa cerimnia. Ele ficou encantado ao ver meus esboos do jardim que imaginei fazer na pedreira... Agora, veja: 
meia dzia de rvores raquticas, alguma grama l embaixo, umas plantinhas querendo florescer... e s! Lamentvel esforo, temos de convir...
       - Seu mal-agradecido! - reclamou ela, ajeitando os cabelos dele, que haviam cado na testa.
       Charles pegou-lhe a mo beijou-a, depois suspirou:
       - Acho que vou ter de estender mais o prazo que lhe dei, srta. Ashford. Sempre trabalhou to devagar!
       - Quem sabe - comeou ela - se eu mudasse meu sobrenome minha velocidade melhoraria...
       - Como? Quer dizer que algum pediu sua mo?
       - Sim. O sr. Charles de Michel.
Ele fez tudo para se manter srio.
       - Olhe aqui, apenas pelo fato de eu t-la beijado ocasionalmente no quer dizer que...
       - Vrias vezes!
       - ...tenha de me casar para torn-la uma mulher respeitvel.
       - Acho que tem, sim, senhor!
       - Hum... - Ele no pde deixar de sorrir diante do olhar profundamente amoroso. - Ento, foi bom eu ter providenciado tudo para a cerimnia. Bem-amada, aceita 
a mo e o nome deste indivduo de reputao discutvel, pouco dinheiro, gnio terrvel?
       - No! - respondeu ela, firme. - Aceito a mo e o nome do mais galante e meigo cavalheiro que...
       FitzMoke desviou os olhos, certamente sem jeito ao ver uma dama ser to rudemente interrompida enquanto falava. Pouco depois, ficou impaciente ao ver que 
eles no tornavam a falar e se aproximou, farejando-lhes os cabelos, sem que eles lhe dessem a menor ateno. Ofendido, tratou de se encaminhar para casa, pois ningum 
era obrigado a esperar para sempre. Na certa algum na estrabaria lhe daria gua e feno, mesmo vendo-o voltar sozinho.
       O vento comeou a se tornar mais forte e mais frio. Comearam a se formar nuvens cinzentas, que escureciam, ameaadoras.
       No entanto, coisa estranha!, tanto o sr. De Michel quanto a sra. De Michel, anos depois, afirmariam a quem quisesse ouvir que o sol brilhava naquela tarde 
e que aquele fora o dia mais radioso de suas vidas!

       FIM
